quinta-feira, 3 de agosto de 2023

A delícia de perceber que a vida seguiu em frente

Aí pronto. Balada, fim de madrugada, um monte de gente semiembriagada e o DJ solta a música da Anitta: “Deixa ele chorar, deixa ele chorar, deixa ele sofrer, deixa ele saber que eu tô curtindo pra valer.” E eis que uma multidão de rostos – incluindo alguns que nem devem gostar da música – se enche de um ar soberano de satisfação e dezenas começam a cantar aquilo como se fosse o hino da própria vida.
Deixa ele(a) saber que eu tô curtindo pra valer.” Não é coisa só de menina, de adolescente, de colegial. Seria bem mais fácil se fosse. Mas não. Homens adultos, mulheres de 50 anos, gays barbudos, executivas bem-sucedidas, entregadores de pizza. Ninguém está livre de um rompimento sofrido e de um pós-rompimento que nos rasgue dos pés à cabeça.
Anitta não te representa? Serve Chico Buarque? “Quando você me quiser rever/ Já vai me encontrar refeita, pode crer/ Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem demais.” Ou então que tal Beth Carvalho? “Eu vou festejar (vou festejar!)/ O teu sofrer, o teu penar.”
Faz parte da vida de todo mundo. Sofrer, muitas vezes, é um efeito colateral do amor. E às vezes parece que a dor nunca mais vai acabar, que os voos nunca mais serão altos, que o sol nunca mais vai bater no rosto como batia antes. Parece que o relógio vai ficar parado ali para sempre.
O relógio da nossa vida pode até brincar de ficar parado, mas o tempo nunca falha conosco. O tempo que nos angustia é o mesmo tempo que cura. E ele vai passando mesmo que a gente não veja. Ele sangra, esteriliza e cicatriza. E de repente, não mais que de repente, você percebe que algo mudou.
Não tem a ver com esquecer. Esquecer a própria história é um desperdício. Tem a ver com superar. E superar é tornar-se maior.
Não tem a ver com novos amores. Tem a ver com nós mesmos, com olhar para a frente e ver um futuro sem obstáculos, sem fantasmas nem traumas do passado.
A grande delícia mora num momento que vem um pouco depois da música da Anitta e da música do Chico. Quando o passado já ficou realmente para trás e o nosso presente deixa de servir como prova de qualquer coisa. Porque não estar bem simplesmente deixa de ser uma opção viável. E porque já não precisamos provar mais nada a ninguém.
Talvez uma das melhores sensações da vida seja ouvir o barulho das correntes do passado sendo quebradas.
E ver a imagem de um horizonte livre, com espaço de sobra para correr sem pesos inúteis.
E sentir nas mãos as rédeas do próprio destino.
E perceber que, sim, o vento e o sol voltaram a bater no nosso rosto. Era só uma nuvem passageira. O tempo ventou, a vida seguiu. E o futuro não tem mais nada a ver com medo. O futuro já é nosso presente e esse presente já denuncia que vem vindo um futuro lindo.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

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