Aí
pronto. Balada, fim de madrugada, um monte de gente semiembriagada e
o DJ solta a música da Anitta: “Deixa ele chorar, deixa ele
chorar, deixa ele sofrer, deixa ele saber que eu tô curtindo pra
valer.” E eis que uma multidão de rostos – incluindo alguns que
nem devem gostar da música – se enche de um ar soberano de
satisfação e dezenas começam a cantar aquilo como se fosse o hino
da própria vida.
“Deixa
ele(a) saber que eu tô curtindo pra valer.” Não é coisa só de
menina, de adolescente, de colegial. Seria bem mais fácil se fosse.
Mas não. Homens adultos, mulheres de 50 anos, gays barbudos,
executivas bem-sucedidas, entregadores de pizza. Ninguém está livre
de um rompimento sofrido e de um pós-rompimento que nos rasgue dos
pés à cabeça.
Anitta
não te representa? Serve Chico Buarque? “Quando você me quiser
rever/ Já vai me encontrar refeita, pode crer/ Olhos nos olhos,
quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem
demais.” Ou então que tal Beth Carvalho? “Eu vou festejar (vou
festejar!)/ O teu sofrer, o teu penar.”
Faz
parte da vida de todo mundo. Sofrer, muitas vezes, é um efeito
colateral do amor. E às vezes parece que a dor nunca mais vai
acabar, que os voos nunca mais serão altos, que o sol nunca mais vai
bater no rosto como batia antes. Parece que o relógio vai ficar
parado ali para sempre.
O
relógio da nossa vida pode até brincar de ficar parado, mas o tempo
nunca falha conosco. O tempo que nos angustia é o mesmo tempo que
cura. E ele vai passando mesmo que a gente não veja. Ele sangra,
esteriliza e cicatriza. E de repente, não mais que de repente, você
percebe que algo mudou.
Não
tem a ver com esquecer. Esquecer a própria história é um
desperdício. Tem a ver com superar. E superar é tornar-se maior.
Não
tem a ver com novos amores. Tem a ver com nós mesmos, com olhar para
a frente e ver um futuro sem obstáculos, sem fantasmas nem traumas
do passado.
A
grande delícia mora num momento que vem um pouco depois da música
da Anitta e da música do Chico. Quando o passado já ficou realmente
para trás e o nosso presente deixa de servir como prova de qualquer
coisa. Porque não estar bem simplesmente deixa de ser uma opção
viável. E porque já não precisamos provar mais nada a ninguém.
Talvez
uma das melhores sensações da vida seja ouvir o barulho das
correntes do passado sendo quebradas.
E
ver a imagem de um horizonte livre, com espaço de sobra para correr
sem pesos inúteis.
E
sentir nas mãos as rédeas do próprio destino.
E
perceber que, sim, o vento e o sol voltaram a bater no nosso rosto.
Era só uma nuvem passageira. O tempo ventou, a vida seguiu. E o
futuro não tem mais nada a ver com medo. O futuro já é nosso
presente e esse presente já denuncia que vem vindo um futuro lindo.
Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso
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