segunda-feira, 7 de agosto de 2023

1511 – São Domingos | O primeiro protesto

Na igreja de troncos e teto de palmeira, Antonio de Montesinos, frei dominicano, está jorrando trovões pela boca. Do púlpito, denuncia o extermínio:
Com que direito e com que justiça tens os índios em tão cruel e horrível servidão? Acaso não morrem, ou para dizer melhor, os matam, para tirar ouro cada dia? Não estais obrigados a amá-los como a vós mesmos? Isto não entendeis, isto não sentis?
Depois Montesinos abre caminho, a cabeça alta, entre a multidão atônita.
Cresce um murmúrio de fúria.
Não esperavam isso os lavradores da Extremadura e os pastores da Andaluzia que mentiram seus nomes e suas histórias e com um arcabuz enferrujado a tiracolo partiram, à sorte, em busca das montanhas de ouro e das princesas nuas deste lado do mar. Necessitavam uma missa de perdão e consolo os aventureiros comprados com promessas nas escadarias da catedral de Sevilha, os capitães comidos pelas pulgas, veteranos de nenhuma batalha, e os condenados que tiveram de escolher entre a América e o cárcere ou a forca.
Será denunciado ante o rei Fernando! Será expulso!
Um homem, atordoado, cala. Chegou a estas terras há nove anos. Dono de índios, de veios de ouro e de sementeiras, fez boa fortuna. Se chama Bartolomé de las Casas e em breve será o primeiro sacerdote ordenado no Novo Mundo.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

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