Na
igreja de troncos e teto de palmeira, Antonio de Montesinos, frei
dominicano, está jorrando trovões pela boca. Do púlpito, denuncia
o extermínio:
– Com
que direito e com que justiça tens os índios em tão cruel e
horrível servidão? Acaso não morrem, ou para dizer melhor, os
matam, para tirar ouro cada dia? Não estais obrigados a amá-los
como a vós mesmos? Isto não entendeis, isto não sentis?
Depois
Montesinos abre caminho, a cabeça alta, entre a multidão atônita.
Cresce
um murmúrio de fúria.
Não
esperavam isso os lavradores da Extremadura e os pastores da
Andaluzia que mentiram seus nomes e suas histórias e com um arcabuz
enferrujado a tiracolo partiram, à sorte, em busca das montanhas de
ouro e das princesas nuas deste lado do mar. Necessitavam uma missa
de perdão e consolo os aventureiros comprados com promessas nas
escadarias da catedral de Sevilha, os capitães comidos pelas pulgas,
veteranos de nenhuma batalha, e os condenados que tiveram de escolher
entre a América e o cárcere ou a forca.
– Será
denunciado ante o rei Fernando! Será expulso!
Um
homem, atordoado, cala. Chegou a estas terras há nove anos. Dono de
índios, de veios de ouro e de sementeiras, fez boa fortuna. Se chama
Bartolomé de las Casas e em breve será o primeiro sacerdote
ordenado no Novo Mundo.
Eduardo Galeano, in Os Nascimentos
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