Duas
cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na
segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo
amor. Que dor dói mais?
Mais
que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A
morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e
congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está
imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado
para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou
eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse
amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca
o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A
amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A
fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond
escreveu um poema em que descreve essa ausência:
Por
muito tempo achei que a ausência é falta.
E
lastimava, ignorante, a falta.
Hoje
não a lastimo.
Não
há falta na ausência.
A
ausência é um estar em mim.
E
sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que
rio e danço e invento exclamações alegres,
porque
a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém
a rouba mais de mim.
Cecília
Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em
“Elegia”:
Um
jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse
pequeno mundo em que estás.
Suas
mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso
[...]
Tua
voz sem corpo estará comandando,
entre
terra e água,
o
aconchego das raízes tenras
[...]
Tudo
em ti era uma ausência que se demorava:
uma
despedida pronta a cumprir-se.
A
imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança
nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a
alma.
Mas,
quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa
amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de
fantasmas. Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará
fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um
novo amor...
A
fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama
mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar
lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim.
Não é minha.
É
preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o
amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi
atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por
isso ele sofre...
Rubem Alves, in Cantos do Pássaro Encantado
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