domingo, 19 de junho de 2022

Que dor dói mais?

Duas cenas. Na primeira, um homem chora a morte da mulher amada. Na segunda, outro homem chora a partida da mulher amada para um novo amor. Que dor dói mais?
Mais que a morte da pessoa amada, dói a partida dela para um novo amor.
A morte, ao levar a pessoa amada, retira-a do tempo, eterniza o amor e congela o abraço – como numa fotografia. Na fotografia tudo está imóvel, não há mudanças, não há tempo. Ali o amor está fixado para sempre. A mulher que morreu, morreu amando, e a morte tornou eterno esse amor. Ela continuará amando sempre na fotografia. E esse amor estará para sempre com o homem que ficou. A pessoa amada nunca o abandonará. Ele sofre, mas a alma está amando e tranquila. A amada morreu, mas na fotografia a imagem dela está inteira. A fotografia é a presença de uma ausência.
Drummond escreveu um poema em que descreve essa ausência:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Cecília Meireles fotografou com palavras a ausência de sua avó, em “Elegia”:

Um jardineiro desconhecido se ocupará da simetria
desse pequeno mundo em que estás.
Suas mãos vivas caminharão acima das tuas, em descanso
[...]
Tua voz sem corpo estará comandando,
entre terra e água,
o aconchego das raízes tenras
[...]
Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

A imaginação sofre. Mas o seu sofrimento é belo. Não há esperança nem o suplício da espera. A ausência de esperança tranquiliza a alma.
Mas, quando não é a morte da pessoa amada, e sim a partida da pessoa amada para um novo amor, a imaginação enche a ausência de fantasmas. Sei que ela está em algum lugar – onde? Que estará fazendo, livre, esquecida de mim? Quem sabe rindo nos braços de um novo amor...
A fotografia fixou o rosto de uma mulher que me amava e não me ama mais. Havendo partido para um novo amor, ela já não pode continuar lá. A morte não a pegou. Viva, ela vai por onde quer, longe de mim. Não é minha.
É preciso que o tempo faça o seu trabalho de esquecimento. Mas o amante abandonado não quer esquecer. Porque ama. Ainda não foi atingido pela graça da desesperança, que chega muito devagar... Por isso ele sofre...

Rubem Alves, in Cantos do Pássaro Encantado

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