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Até
boa parte da Idade Média, os escritores supunham que seus leitores
iriam escutar, em vez de simplesmente ver o texto, tal como eles
pronunciavam em voz alta as palavras à medida que as compunham. Uma
vez que, em termos comparativos, poucas pessoas sabiam ler, as
leituras públicas eram comuns e os textos medievais repetidamente
apelavam à audiência para que “prestasse ouvidos” à história.
Talvez um eco ancestral dessas práticas de leitura persista em
algumas de nossas expressões idiomáticas, como quando dizemos I've
heard from So-and so [Ouvi por aí] (significando “recebi uma
carta”), ou “fulano disse” (significando “fulano escreveu”),
ou “este texto não soa bem” (significando “não está bem
escrito”).
Se
os livros eram principalmente lidos em voz alta, as letras que os
compunham não precisavam ser separadas em unidades fonéticas;
bastava amarrá-las juntas em frases contínuas. A direção em que
os olhos deveriam seguir esses carretéis de letras variava de lugar
para lugar e de época para época; o modo como atualmente lemos um
texto no mundo ocidental – da esquerda para a direita e de cima
para baixo – não é de forma alguma universal. Alguns escritos
eram lidos da direita para a esquerda (hebreu e árabe), outros em
colunas, de cima para baixo) (chinês e japonês); uns poucos eram
lidos em pares de colunas verticais (maia); alguns tinham linhas
alternadas lidas em direções opostas, de um lado para o outro –
método chamado boustrophedon, como “um boi dá voltas para
arar”, na Grécia antiga. Outros ainda serpenteavam pela página,
como um jogo de trilha, sendo a direção indicada por linhas ou
pontos (asteca).
A
antiga escrita em rolos – que não separava palavras, não
distinguia maiúsculas e minúsculas nem usava pontuação – servia
aos objetivos de alguém acostumado a ler em voz alta, alguém que
permitiria ao ouvido desembaralhar o que ao olho parecia uma linha
contínua de signos. Tão importante era essa continuidade que
atenienses supostamente ergueram uma estátua em homenagem a um certo
Filácio, que inventara uma cola para unir folhas de pergaminho ou
papiro. Contudo, até mesmo o rolo contínuo, embora tornasse mais
fácil a tarefa do leitor, não ajudava muito na separação dos
agrupamentos de sentido. A pontuação, tradicionalmente atribuída a
Aristófanes de Bizâncio (cerca de 200 a.C.) e desenvolvida por
outros eruditos da biblioteca de Alexandria, era, na melhor das
hipóteses, errática. Agostinho, tal como Cícero antes dele, com
certeza tinham de ensaiar um texto antes de lê-lo em voz alta, uma
vez que a leitura à primeira vista era uma habilidade incomum
naquela época e levava amiúde a erros de interpretação. Sérvio,
o gramático do século IV, criticou seu colega Donato por ler, na
Eneida de Virgílio, as palavras col ectam ex Ilio pubem
(“um povo reunido de Tróia”), em vez de col ectam exilio
pubem (“um povo reunido para o exílio”). Erros como esse
eram comuns na leitura de um texto contínuo.
As
Epístolas de Paulo, quando lidas por Agostinho, não eram um
rolo, mas um códice, um papiro encadernado e manuscrito em escrita
contínua, na nova letra uncial ou semi-uncial que aparecera nos
documentos romanos nos últimos anos do século III. O códice foi
uma invenção pagã. Segundo Suetônio, Júlio César foi o primeiro
a dobrar um rolo em páginas, para despachos a suas tropas. Os
cristãos primitivos adotaram o códice porque descobriram que era
muito prático para carregar escondidos em suas vestes, textos que
estavam proibidos pelas autoridades romanas. As páginas podiam ser
numeradas, permitindo ao leitor acesso fácil às seções, e textos
separados, como as Epístolas, podiam ser facilmente
encadernados em um pacote conveniente.
A
separação das letras em palavras e frases desenvolveu-se muito
gradualmente. Para a maioria das primeiras escritas – hieróglifos
egípcios, caracteres cuneiformes sumérios, sânscrito – essas
divisões não tinham utilidade. Os escribas antigos estavam tão
familiarizados com as convenções de sua arte que aparentemente
precisavam muito pouco de auxílios visuais, e os primeiros monges
cristãos amiúde sabiam de cor os textos que transcreviam. A fim de
ajudar os que tinham pouca habilidade para ler os monges do
scriptorium dos conventos usavam um método de escrita
conhecido como per cola et commata, no qual o texto era
dividido em linhas de significado – uma forma primitiva de
pontuação que ajudava o leitor inseguro a baixar ou elevar a voz no
final de um bloco de pensamento. (Esse formato ajudava também os
estudiosos a encontrar mais facilmente algum trecho que estivessem
buscando). Foi são Jerônimo que, no final do século IV, tendo
descoberto esse método em cópias de Demóstenes e Cícero,
descreveu-o pela primeira vez no prólogo a sua tradução do Livro
de Ezequiel, explicando que “o que está escrito per cola et
commata transmite um significado mais óbvio aos leitores”.
A
pontuação continuava precária, mas esses dispositivos primitivos
ajudaram indiscutivelmente no progresso da leitura silenciosa. No
final do século VI, santo Isaac da Síria pôde descrever os
benefícios do método: “Eu exercito o silêncio, que os versos de
minhas leituras e orações encham-me de deleite. E quando o prazer
de compreendê-los Silencia minha língua, então, como num sonho,
entro num estado em que meus sentidos e pensamentos ficam
concentrados. Quando então, com o prolongamento desse silêncio, o
tumulto das lembranças acalma-se em meu coração, ondas incessantes
de satisfação são-me enviadas por pensamentos interiores,
superando expectativas, elevando-se subitamente, para deleitar meu
coração”. E na metade do século VII, o teólogo Isidoro de
Sevilha estava familiarizado com a leitura silenciosa a ponto de
poder elogiá-la como um método para “ler sem esforço, refletindo
sobre o que foi lido, tornando sua fuga da memória mais difícil”.
Tal como Agostinho, Isidoro acreditava que a leitura possibilitava
uma conversação que atravessava o tempo e o espaço, mas com uma
distinção importante: “As letras têm o poder de nos transmitir
silenciosamente os ditos daqueles que estão ausentes”, escreveu
ele e suas Etimologias. As letras de Isidoro não precisavam
de sons.
Os
avatares da pontuação continuaram. Depois do século VII, uma
combinação de pontos e traços indicava uma parada plena, um ponto
elevado ou alto equivalia a nossa vírgula, e o ponto-e-vírgula era
usado como o utilizamos atualmente. No século IX, é provável que a
leitura silenciosa fosse suficientemente comum no scriptorium
para que os escribas começassem a separar cada palavra de suas
vizinhas com vistas a simplificar a leitura de um texto – mas
talvez também por motivos estéticos. Mais ou menos na mesma época,
os escribas irlandeses, famosos em todo o mundo cristão por sua
habilidade, começaram a isolar não somente partes do discurso, mas
também os constituintes gramaticais dentro de uma frase, e
introduziram muitos dos sinais de pontuação que usamos hoje? No
século X, para facilitar ainda mais a tarefa do leitor silencioso,
as primeiras linhas das seções principais de um texto (os livros da
Bíblia, por exemplo) eram comumente escritas com tinta vermelha,
assim como as rubricas (“vermelho”, em latim), explicações
independentes do texto propriamente dito. A prática antiga de
começar um novo parágrafo com um traço divisório (paragraphos,
em grego) ou cunha (diple) continuou; mais tarde, a primeira
letra do novo parágrafo passou a ser escrita um pouco maior ou em
maiúscula.
Os
primeiros regulamentos exigindo que os escribas ficassem em silêncio
nos scriptoriums dos conventos datam do século IX. Até
então, haviam trabalhado com ditados ou lendo para si mesmos, em voz
alta, o texto que estavam copiando. Às vezes o próprio autor ou um
“editor” ditava o livro. Um escriba anônimo, concluindo uma
cópia no século VIII, escreveu: “Ninguém pode saber que esforços
são exigidos. Três dedos escrevem, dois olhos veem. Uma língua
fala, o corpo inteiro labuta”. Uma língua fala enquanto o
copista trabalha, enunciando as palavras que está transcrevendo.
Depois
que a leitura silenciosa tornou-se norma no scriptorium, a
comunicação entre os escribas passou a ser feita por sinais: se
queria um novo livro para copiar, o escriba virava páginas
imaginárias; se precisava especificamente de um Livro dos Salmos,
colocava as mãos sobre a cabeça, em forma de coroa (referência ao
rei Davi); um lecionário era indicado enxugando-se a cera imaginária
de velas; um missal, pelo sinal-da-cruz; uma obra pagã, pelo gesto
de coçar-se como um cachorro.
A
leitura em voz alta com outra pessoa na sala implicava compartilhar a
Leitura, deliberadamente ou não. A leitura de Ambrósio havia sido
um ato solitário. “Talvez ele tivesse medo de que, se lesse em voz
alta, algum trecho difícil do autor que estivesse Lendo poderia
suscitar uma indagação na mente de um ouvinte atento, e ele teria
então de explicar o significado da passagem ou mesmo discutir sobre
alguns dos pontos mais abstrusos”, especulou Agostinho. Mas, com a
leitura silenciosa, o leitor podia ao menos estabelecer uma relação
sem restrições com o livro e as palavras. As palavras não
precisavam mais ocupar o tempo exigido para pronunciá-las. Podiam
existir em um espaço interior, passando rapidamente ou apenas se
insinuando plenamente decifradas ou ditas pela metade, enquanto os
pensamentos do leitor as inspecionavam à vontade, retirando novas
noções delas, permitindo comparações de memória com outros
livros deixados abertos para consulta simultânea. O leitor tinha
tempo para considerar e reconsiderar as preciosas palavras cujos sons
– ele sabia agora – podiam ecoar tanto dentro como fora. E o
próprio texto, protegido de estranhos por suas capas, tornava-se
posse do Leitor, conhecimento íntimo do leitor, fosse na azáfama do
scriptorium, no mercado ou em casa.
Alguns
dogmatistas ficaram desconfiados da nova moda; em suas mentes, a
leitura silenciosa abria espaço para sonhar acordado, para o perigo
da preguiça – o pecado da ociosidade, “a epidemia que grassa ao
meio-dia”. Mas a leitura em silêncio trouxe com ela outro perigo
que os padres cristãos não tinham previsto.
Um
livro que pode ser lido em particular e sobre o qual se pode refletir
enquanto os olhos revelam o sentido das palavras não está mais
sujeito às orientações ou esclarecimentos, à censura ou
condenação imediatas de um ouvinte. A leitura silenciosa permite a
comunicação sem testemunhas entre o livro e o Leitor e o singular
“refrescamento da mente”, na feliz expressão de Agostinho.
Até
o momento em que a leitura em silêncio tornou-se a norma no mundo
cristão, as heresias tinham se restringido a indivíduos ou pequenos
números de congregações dissidentes. Os cristãos primitivos
preocupavam-se tanto em condenar os incréus (pagãos, judeus,
maniqueus e, após o século VII, muçulmanos) quanto em estabelecer
um dogma comum. Os argumentos dissidentes da crença ortodoxa eram
veementemente rejeitados ou cautelosamente incorporados pelas
autoridades da Igreja, mas porque não tinham muitos adeptos, essas
heresias eram tratadas com leniência. O catálogo dessas vozes
heréticas inclui várias fantasias notáveis: no século II, os
montanistas reivindicavam (já então) que estavam voltando às
práticas e crenças da Igreja primitiva e que tinham testemunhado a
segunda vinda de Cristo na forma de uma mulher; na segunda metade
daquele século, os monarquianistas concluíram, a partir da
definição da Trindade, que fora Deus Pai quem sofrera na cruz; os
pelagianos, contemporâneos de Agostinho e Ambrósio, rejeitavam a
noção de pecado original; os apolinaristas declararam, nos últimos
anos do século IV, que o Verbo, e não uma alma humana, estava unido
à carne de Cristo na Encarnação; no século IV, os arianos fizeram
objeção ao uso da palavra homoousios (da mesma substância)
para descrever de que era feito o Filho e (para citar um jogo de
palavras da época) “convulsionaram a igreja com um ditongo”; no
século v, os nestorianos opuseram-se aos antigos apolinarístas e
insistiram que Cristo era dois seres, um deus e também um homem; os
eutiquianistas, contemporâneos dos nestorianos, negavam que Cristo
tivesse sofrido como todos os homens sofrem.
Embora
a igreja tivesse instituído a pena de morte para heresia já em 382,
o primeiro caso de condenação de um herege à fogueira só ocorreu
em 1022, em Orléans. Naquela ocasião, a Igreja condenou um grupo de
cônegos e nobres laicos que, acreditando que uma instrução
verdadeira só poderia vir diretamente da luz do Espírito Santo,
rejeitavam as Escrituras como fabricações que os homens escreveram
em peles de animais. Leitores independentes como esses eram
obviamente perigosos. A interpretação da heresia como ofensa civil
passível de ser punida com a morte só ganhou base legal em 1231,
quando o imperador Frederico II assim decretou nas Constituições de
Melfi, mas, no século XII, a Igreja já estava condenando
entusiasticamente grandes e agressivos movimentos heréticos que
defendiam não uma retirada ascética do mundo (como dissidentes
anteriores haviam proposto), mas a contestação da autoridade
corrupta e do clero abusivo, bem como o acerto de contas individual
com a Divindade. Os movimentos espalharam-se por trilhas tortuosas e
cristalizaram-se no século XVI.
Em
31 de outubro de 1517, um monge que, por meio do estudo individual
das Escrituras, chegara à crença de que a graça divina de Deus
suplantava os méritos da fé adquirida, pregou na porta da igreja de
Todos os Santos, em Wittenberg, 95 teses contra a prática das
indulgências – a venda da remissão das punições temporais por
pecados condenados – e outros abusos eclesiásticos. Com esse ato,
Martinho Lutero tornou-se um fora-da-lei aos olhos do império e um
apóstata aos do papa. Em 1529, o sacro imperador romano Carlos V
rescindiu os direitos concedidos aos seguidores de Lutero, e catorze
cidades livres da Alemanha, junto com seis príncipes luteranos,
redigiram um protesto para ser lido contra a decisão imperial. “Em
questões que concernem à honra de Deus, à salvação e à vida
eterna de nossas almas, cada um deve se apresentar e prestar contas
diante de Deus por si mesmo”, afirmavam os protestadores ou, como
ficaram conhecidos mais tarde, os protestantes. Dez anos antes, o
teólogo romano Silvester Prierias afirmara que o livro sobre o qual
estava fundada a Igreja precisava permanecer um mistério,
interpretado apenas pela autoridade e poder do papa. Os heréticos,
por outro lado, sustentaram que as pessoas tinham o direito de ler a
palavra de Deus por si mesmas, sem testemunha ou intermediário.
Séculos
depois, do outro lado de um oceano que para Agostinho talvez fosse o
limite da terra, Ralph Waldo Emerson, que devia sua fé àqueles
antigos protestadores, aproveitou-se da arte que tanto surpreendera o
santo. Na igreja, durante os longos e frequentemente tediosos sermões
a que comparecia devido a seu senso de responsabilidade social, lia
em silêncio as Pensées de Pascal. E à noite, em seu quarto
frio em Concord, "com cobertores até o queixo, lia os Diálogos
de Platão. (“Ele associava Platão, mesmo mais tarde, com o cheiro
de lã”, observou um historiador.)
Embora
achasse que havia livros demais para ler, e que os leitores deviam
compartilhar suas descobertas contando uns aos outros o ponto
essencial de seus estudos, Emerson acreditava que ler um livro era um
assunto privado e solitário. “Todos esses livros”, escreveu ele,
fazendo uma lista de textos “sagrados” que incluía os upanixades
e as Pensées, “são a expressão majestosa da consciência
universal e servem mais aos nossos propósitos diários do que o
almanaque do ano ou o jornal de hoje. Mas eles são para o gabinete e
devem ser lidos sobre os joelhos dobrados. Suas comunicações não
devem ser dadas ou tomadas com os lábios e a ponta da língua, mas
com o fulgor da face e o coração palpitante.” Em silêncio.
***
Observando
a leitura de santo Ambrósio naquela tarde de 384, Agostinho
dificilmente poderia saber o que estava diante dele. Pensou estar
vendo um leitor tentando evitar visitantes intrusos, economizando a
voz para o ensino. Na verdade, ele estava vendo uma multidão de
leitores silenciosos que ao longo dos séculos seguintes iria incluir
Lutero, Calvino, Emerson e nós, que o lemos hoje.
Alberto Manguel, in Historia da leitura
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