Começou
no Copacabana Palace. Em 1938, com o jogo ainda no apogeu, Octavio
Guinle converteu um de seus vastos salões num espaço para shows, o
Golden Room. Para a inauguração, trouxe Maurice Chevalier, que
cantou para quatrocentos convidados em traje de gala, à fortuna de
trinta dólares por cabeça. A bordo de seu chapéu de palhinha e
gravata-borboleta, o idolatrado Maurice cantou, entre muitas,
“Louise”, “Mon idéal”, “Vous êtes mon nouveau bonheur”,
consagradas em seus filmes americanos com Jeanette MacDonald, e
aquela a que todo mundo fez coro, “Paris, je t’aime d’amour”.
Só parou quando a plateia deu sinais de que já não se aguentava de
tanto prazer.
Nos
primeiros anos, o Golden Room teve como diretor artístico Carlinhos
Guinle, sobrinho de Octavio. Mas Carlinhos — dezenove anos,
playboy, jazzista, amante de velocidade — estaria melhor em outra
função: comandando com seus amigos a mesa central do salão (que,
por sinal, ele já ocupava), tomando champanhe, dizendo boutades e
puxando palmas para os artistas. Era o que sabia fazer — a vida nos
bastidores não era com ele. E o que Octavio Guinle precisava era de
alguém que fizesse o trabalho sujo: checar os camarins, a coxia, os
refletores, os microfones, a afinação do piano — enfim,
supervisionar a produção — e cuidar para que o artista não
tropeçasse nos fios ao entrar em cena. Por isso, o Golden Room só
deslanchou e se tornou o primeiro templo da elite carioca quando
Octavio efetivou em sua direção um austríaco que, trazido pela
Segunda Guerra, viera dar ao Rio em fins de 1940: Maximilian — Max
— Stuckart.
Tinha
sido tudo muito rápido. Poucos meses antes, Stuckart estava à
deriva em Lisboa, sem trabalho e sem perspectivas. A Áustria
pós-Anschluss não era mais a sua pátria; toda a Europa Central
estava conflagrada; e Paris, ocupada. Num chá de fim de tarde n’A
Brasileira do Chiado, ele foi apresentado a uma austríaca, Yolanda,
casada com o então embaixador do Brasil em Portugal, Caio Mello
Franco. Ela lhe falou com entusiasmo do Rio. Stuckart lembrou-se de
que, em 1932, em Carlsbad, na Boêmia, conhecera outra Yolanda, esta,
brasileira de verdade. Chamava-se Yolanda Penteado, era de São Paulo
e estava numa longa viagem pela Europa com seu marido, Jayme da Silva
Telles. O encontro se dera no salão de baile do Hotel Imperial e
dançaram o suficiente para que ela o considerasse um perfeito pé de
valsa. Ele, por sua vez, diria depois que se encantara pela chique,
rica e culta Penteado — mas quem não se encantaria?
Como
se fosse uma característica dos súditos do extinto Império
Austro-Húngaro, Stuckart gostava de alimentar o mistério a seu
respeito. Dependendo de com quem falasse, seu pai tinha sido chefe de
polícia em Viena, comandante da Guarda Imperial ou conselheiro do
imperador Francisco José. As últimas hipóteses teriam feito de
Stuckart pai um nobre, com o que o filho acrescentara um Von ao nome
— Von Stuckart — e passara a dizer-se barão. Era homossexual,
mas só os mais atilados percebiam. E sua própria data de nascimento
era imprecisa, embora ele contasse que, aos dezoito anos, fora
tenente da aviação austríaca na Grande Guerra — o que, a ser
verdade, o fazia nascido entre 1896 e 1900. Segundo Stuckart, o
Fokker vermelho que pilotava fora abatido em ação na Sérvia, caíra
num trigal e ele se salvara por milagre. Desde então, abdicara de
suas pretensões a herói e decidira nunca mais entrar em aviões.
Apesar
de formado entre fardas e quartéis, ou talvez por isso, Stuckart
tomarahorror a qualquer militarismo, donde orientara toda a sua vida
profissional no sentido contrário — passara a vida como chefe de
cozinha, gerente ou maître nos hotéis, restaurantes e casas
noturnas da Europa, culminando em Paris. Nesta, comandara uma boate
russa, Balalaika, com homens de bombachas dançando de cócoras, que
não pegou, e outra, francesa, a vitoriosa Tour Paris, que Picasso
frequentava. Mas a imagem dos alemães entrando a passo de ganso nos
Champs-Élysées o levara a fazer as malas. Fora para Nova York, onde
havia centenas de compatriotas na sua situação — infelizmente,
nenhum disposto a ajudá-lo. Assim, voltara para a Europa, via
Lisboa. E agora, graças a Yolanda Mello Franco, decidira-se a tentar
o Rio.
Por
acaso, Stuckart já contava aqui com um amigo dos seus tempos de
Praga: o conde Michel Lichnowsky, de grande charme e ocupação
incerta. Lichnowsky foi recebê-lo no cais, instalou-o num quarto na
rua Corrêa Dutra, no Catete, e, como se fosse a coisa mais
corriqueira do mundo, levou-o no dia seguinte para almoçar no
Copacabana Palace. Foi o que bastou para o destino fazer das suas.
Octavio
Guinle tinha como hábito inspecionar duas vezes por dia os 12 mil
metros quadrados de seu império à beira-mar. Ia da suíte
presidencial e das cozinhas à adega e ao almoxarifado, passando o
dedo em madeiras nobres para detectar poeira, e dando petelecos em
cristais para certificar-se de que não estavam rachados. Só faltava
provar a água da piscina com canudinho. Nada escapava à sua
fiscalização: lustres, corrimões, maçanetas, cinzeiros e o
frescor de cada rosa nas mesas. Naquele dia, Octavio passou pela mesa
de Lichnowsky, reconheceu-o e sentou-se com eles.
O
conde, de uma velha família da Morávia-Silésia, era um homem do
mundo. Octavio gostava dele, tanto que, pouco depois e pelas décadas
seguintes, o faria seu secretário. Mas, naquele dia, foi Stuckart
quem o impressionou: cerca de quarenta anos, alto, forte, quase
gordo, não muito simpático, nem fazia questão de parecer.
Falava
de Paris, Budapeste e Berlim com a autoridade de quem era íntimo de
seus palcos, salões e cozinhas — e era mesmo —, autoridade essa
reforçada pelo sotaque alemão com que mastigava seu inglês e
francês. Parecia disciplinador, obcecado pela eficiência e, para
surpresa de Octavio, sem muito interesse por dinheiro.
Octavio
convidou Stuckart a voltar ao hotel naquela noite, para conhecer o
grill, o cassino e o Golden Room. Stuckart foi, viu tudo e, a pedido
de Octavio, disse o que achava. Não há registro do que conversaram,
mas, na manhã seguinte, na condição de novo diretor artístico do
Golden Room, Stuckart já acordou entre os lençóis do Copacabana
Palace. Nada mau para quem, na véspera, em sua primeira noite no
Brasil, dividira um quartinho no Catete com um camundongo.
Ruy Castro, in A noite do meu bem

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