Dona
Paulina ensinou à sua filha Rosário que cada ponto do rosto onde se
colocasse uma pinta tinha seu significado. Na face, sobre o lábio,
num canto da boca, no queixo, na testa... A pinta, bem interpretada,
mostrava quem era a moça, e o que ela queria, e o que esperava de um
pretendente. O homem que se aproximasse de uma moça com uma pinta
— numa
recepção na corte ou numa casa de chá — já sabia muito sobre
ela, antes mesmo de abordá-la, só pela localização da pinta. A
três metros de distância, o homem já sabia o que o esperava. A
pinta era um código, um aviso — ou um desafio.
Anos
depois, dona Rosário ensinou à sua neta Margarida que a maneira de
usar um leque dizia tudo sobre uma mulher. Como segurá-lo, como
abri-lo, sua posição em relação ao rosto ou ao colo, como
abaná-lo, com que velocidade, com que olhar... Só pelos movimentos
do leque uma mulher desfraldava sua biografia, sua personalidade e
até seus segredos num salão, e quem a tirasse para dançar já
sabia quais eram as suas perspectivas, e os seus riscos, e o seu
futuro.
Muitos
anos depois, a Bel explicou para a sua bisavó Margarida que a fatia
de pizza impressa na sua camiseta com “Me come” escrito em cima
não queria dizer nada, mas que algumas das suas amigas usavam a
camiseta sem a fatia de pizza.
Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça
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