terça-feira, 14 de junho de 2022

A sala assombrada

Vou falar da salinha que mais mal-assombrei com imaginações. Fazia parte de um apartamento alugado com móveis. Mas antes de falar sobre ela é preciso dizer que a realidade, quando se desvenda sem susto, é a coisa mais fresca e real do mundo. É sem nenhum sonho, mesmo realidade imaginária, e quase sem futuro: a cada momento é o momento de agora. E não há medo. Fato extraordinário: nessa realidade desvendada pela imaginação e sem susto a riqueza não está mais atrás de nós, como uma lembrança, ou ainda por aparecer, como um desejo de futuro. Está ali, fremindo.
Vou tentar descrever com a maior simplicidade algo que não é simples. A salinha era como eu disse acima. Não se sabe se foi inconscientemente intencional o seu arranjo, se é que arranjo existia. O mais provável é que a sua primeira dona a tivesse criado com essa falta de finalidade consciente que tanto ajuda às vezes a transmitir. O fato é que na salinha – a abundância não estava no nosso passado nem era saudade: estava ali. Não havia austeridade no aposento. Pelo contrário, ele era de um elegante engraçadinho. Mas a sala era alucinada. Oh, nenhum fantasma. Era alucinada por si própria. Nela a luz – a luz era verdadeira luz, luz de espaço, de alto, sem mistura com sombras. E os objetos alucinados pela luz.
E que falta de conforto. Não havia ali uma cadeira onde uma pessoa realmente se sentisse sentada. Talvez por isso é que as visitas, como mordidas, mudassem tanto de lugar, se levantassem, espiassem pela alta janela, especulassem o teto como se procurassem por onde havia uma possibilidade de fuga. E tudo isso sem garantia. É isto: não havia nenhuma garantia na sala. Ou a pessoa aceitava ser de algum modo resplandecida pelo próprio mal-assombrado, ou não aceitava. Não havia promessas de nenhuma recompensa.
Havia um espelho. Como o tinham colocado numa posição realmente insensata, dando para a janela – não para o que estava atrás da janela, mas exatamente para o ar vazio que a janela enquadrava – o espelho nada refletia, nada reproduzia, nada imitava: o espelho tornara-se um retângulo de luz pendurado numa parede.
A salinha não dava nenhuma garantia. Mas se uma pessoa aceitava sem medo ser resplandecida – ficava por um instante sentada sem apoio na cadeira incômoda apenas assim: sentada resplandecente.
Que modo de ver as pessoas pegavam. Ficávamos maliciosos como champanha. Não era exatamente bom: ardia um pouco, esta salinha. E nós, picantes, sem sabermos como usar esse resplendor senão em borbulhar. E rir com uma inteligência fácil e superficial.
Mesmo quando havia poucas visitas, parecia povoada. Mas nunca povoada com atropelos. As pessoas, ocupadas pela curiosidade dos objetos inusitados que a enfeitavam, entrecruzavam-se facilmente, cada uma dirigindo-se a um ponto, todas curiosas e maliciosas. Às vezes havia um silêncio. Então, ouvia-se uma fonte brotar e correr. Era da pia da cozinha cujo defeito jamais fora consertado. Durante o silêncio ninguém se entediava: todos pareciam conter um sorriso de visita ou uma novidade, e a salinha abria-se ainda mais em luz na luz.
Pensando bem, não me lembro de jamais ter visto uma só criança nesta sala. Só gente madura, como pronta a cair da árvore para esborrachar-se na claridade. Não, não vi criança por ali. Vi, sim, um homem gordo que as cadeiras estreitas expulsavam e que, fustigado, tornou-se o nosso grande besouro na luz. Vi também entrar uma senhora magra, desquitada, de olhos azuis exorbitantes, claramente sofrendo da tiroide. Quando entrou com seus olhos, por um momento tive um erro de visão: a sala era essa mulher, essa mulher era a sala. Ambas se confundiam como águas da mesma cascata. Esta senhora de olhos azuis extravasados, assim como a salinha – conseguiria fechá-los para dormir. E a sala? onde guardaria toda a sua claridade para dormir? Se pudéssemos por um instante desligar a sala – que sucederia? Que grande escuridão, feita de trevas mortas, se seguiria.
Mas a sala não tinha onde guardar sua claridade. Porque esqueci de dizer: o aposento tinha tal nudez, apesar dos objetos, dos móveis, das pessoas. Nesta sala: impossível esconder-se. A pessoa estava exposta.
Sobretudo uma coisa nos sucedia, porque a riqueza não estava mais atrás de nós nem a esperávamos mais pois não éramos adolescentes: hoje tornava-se uma palavra tão realizada que, mais um instante, e apodreceria. Hoje mal saísse da sala e se deteriorava em nada. A sala não era nem ontem nem amanhã. E quando pronunciávamos hoje era como se se tratasse de um segredo revelado.
Açoitadas pela luz exorbitante da sala tiroide, às vezes saíam brigas estranhas entre as pessoas presentes. Brigas surdas, rápidas, por motivos fúteis: relâmpagos de verão. Uma vez não se encontrou a folha de papel que servira para embrulhar um presente para a dona da casa. Que valor tinha o papel? Mas houve ríspida troca de palavras. Outra vez vimos um carocinho de uva brilhando no chão como um diamante. Rimos, cada um reclamava para si o caroço, sob pretexto, a princípio galhofo, de que iríamos engastá-lo como pedra preciosa num broche de gravata ou de vestido. Mas em pouco as palavras transformaram-se em faíscas pequenas, e cóleras secas e curtas rebentavam de todos os cantos. Afinal, diante do silêncio reprovador de todos, coube a mim o caroço pois eu o descobrira. Saindo da sala, é claro, joguei-o fora. Era um caroço velho, sujo. Só por causa de uns restos de umidade cintilara à luz da sala.
Ah, era uma sala alegre, aquela. Fazíamos o possível para sermos convidados. Lá chegávamos ofegantes como um cão que corresse léguas e viesse enfim se extinguir aos pés de seu dono. Arfantes, com a boca seca de tanta alegria. Exorbitados, curiosos, exaustos. Mas sem acusações possíveis. A sala nunca dera garantia nem prometera recompensas. Era vida, apenas.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

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