Vou
falar da salinha que mais mal-assombrei com imaginações. Fazia
parte de um apartamento alugado com móveis. Mas antes de falar sobre
ela é preciso dizer que a realidade, quando se desvenda sem susto, é
a coisa mais fresca e real do mundo. É sem nenhum sonho, mesmo
realidade imaginária, e quase sem futuro: a cada momento é o
momento de agora. E não há medo. Fato extraordinário: nessa
realidade desvendada pela imaginação e sem susto a riqueza não
está mais atrás de nós, como uma lembrança, ou ainda por
aparecer, como um desejo de futuro. Está ali, fremindo.
Vou
tentar descrever com a maior simplicidade algo que não é simples. A
salinha era como eu disse acima. Não se sabe se foi
inconscientemente intencional o seu arranjo, se é que arranjo
existia. O mais provável é que a sua primeira dona a tivesse criado
com essa falta de finalidade consciente que tanto ajuda às vezes a
transmitir. O fato é que na salinha – a abundância não estava no
nosso passado nem era saudade: estava ali. Não havia austeridade no
aposento. Pelo contrário, ele era de um elegante engraçadinho. Mas
a sala era alucinada. Oh, nenhum fantasma. Era alucinada por si
própria. Nela a luz – a luz era verdadeira luz, luz de espaço, de
alto, sem mistura com sombras. E os objetos alucinados pela luz.
E
que falta de conforto. Não havia ali uma cadeira onde uma pessoa
realmente se sentisse sentada. Talvez por isso é que as visitas,
como mordidas, mudassem tanto de lugar, se levantassem, espiassem
pela alta janela, especulassem o teto como se procurassem por onde
havia uma possibilidade de fuga. E tudo isso sem garantia. É isto:
não havia nenhuma garantia na sala. Ou a pessoa aceitava ser de
algum modo resplandecida pelo próprio mal-assombrado, ou não
aceitava. Não havia promessas de nenhuma recompensa.
Havia
um espelho. Como o tinham colocado numa posição realmente
insensata, dando para a janela – não para o que estava atrás da
janela, mas exatamente para o ar vazio que a janela enquadrava – o
espelho nada refletia, nada reproduzia, nada imitava: o espelho
tornara-se um retângulo de luz pendurado numa parede.
A
salinha não dava nenhuma garantia. Mas se uma pessoa aceitava sem
medo ser resplandecida – ficava por um instante sentada sem apoio
na cadeira incômoda apenas assim: sentada resplandecente.
Que
modo de ver as pessoas pegavam. Ficávamos maliciosos como champanha.
Não era exatamente bom: ardia um pouco, esta salinha. E nós,
picantes, sem sabermos como usar esse resplendor senão em borbulhar.
E rir com uma inteligência fácil e superficial.
Mesmo
quando havia poucas visitas, parecia povoada. Mas nunca povoada com
atropelos. As pessoas, ocupadas pela curiosidade dos objetos
inusitados que a enfeitavam, entrecruzavam-se facilmente, cada uma
dirigindo-se a um ponto, todas curiosas e maliciosas. Às vezes havia
um silêncio. Então, ouvia-se uma fonte brotar e correr. Era da pia
da cozinha cujo defeito jamais fora consertado. Durante o silêncio
ninguém se entediava: todos pareciam conter um sorriso de visita ou
uma novidade, e a salinha abria-se ainda mais em luz na luz.
Pensando
bem, não me lembro de jamais ter visto uma só criança nesta sala.
Só gente madura, como pronta a cair da árvore para esborrachar-se
na claridade. Não, não vi criança por ali. Vi, sim, um homem gordo
que as cadeiras estreitas expulsavam e que, fustigado, tornou-se o
nosso grande besouro na luz. Vi também entrar uma senhora magra,
desquitada, de olhos azuis exorbitantes, claramente sofrendo da
tiroide. Quando entrou com seus olhos, por um momento tive um erro de
visão: a sala era essa mulher, essa mulher era a sala. Ambas se
confundiam como águas da mesma cascata. Esta senhora de olhos azuis
extravasados, assim como a salinha – conseguiria fechá-los para
dormir. E a sala? onde guardaria toda a sua claridade para dormir? Se
pudéssemos por um instante desligar a sala – que sucederia? Que
grande escuridão, feita de trevas mortas, se seguiria.
Mas
a sala não tinha onde guardar sua claridade. Porque esqueci de
dizer: o aposento tinha tal nudez, apesar dos objetos, dos móveis,
das pessoas. Nesta sala: impossível esconder-se. A pessoa estava
exposta.
Sobretudo
uma coisa nos sucedia, porque a riqueza não estava mais atrás de
nós nem a esperávamos mais pois não éramos adolescentes: hoje
tornava-se uma palavra tão realizada que, mais um instante, e
apodreceria. Hoje mal saísse da sala e se deteriorava em
nada. A sala não era nem ontem nem amanhã. E quando pronunciávamos
hoje era como se se tratasse de um segredo revelado.
Açoitadas
pela luz exorbitante da sala tiroide, às vezes saíam brigas
estranhas entre as pessoas presentes. Brigas surdas, rápidas, por
motivos fúteis: relâmpagos de verão. Uma vez não se encontrou a
folha de papel que servira para embrulhar um presente para a dona da
casa. Que valor tinha o papel? Mas houve ríspida troca de palavras.
Outra vez vimos um carocinho de uva brilhando no chão como um
diamante. Rimos, cada um reclamava para si o caroço, sob pretexto, a
princípio galhofo, de que iríamos engastá-lo como pedra preciosa
num broche de gravata ou de vestido. Mas em pouco as palavras
transformaram-se em faíscas pequenas, e cóleras secas e curtas
rebentavam de todos os cantos. Afinal, diante do silêncio reprovador
de todos, coube a mim o caroço pois eu o descobrira. Saindo da sala,
é claro, joguei-o fora. Era um caroço velho, sujo. Só por causa de
uns restos de umidade cintilara à luz da sala.
Ah,
era uma sala alegre, aquela. Fazíamos o possível para sermos
convidados. Lá chegávamos ofegantes como um cão que corresse
léguas e viesse enfim se extinguir aos pés de seu dono. Arfantes,
com a boca seca de tanta alegria. Exorbitados, curiosos, exaustos.
Mas sem acusações possíveis. A sala nunca dera garantia nem
prometera recompensas. Era vida, apenas.
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
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