segunda-feira, 20 de junho de 2022

A chegada da notícia que mudou tudo (trecho final)


Mamãe, eu não estou me sentindo bem”, disse Hossein.
O menino de quatro anos de idade era o segundo filho de Malika e o preferido de sua tia Kamila. Ela brincava com ele no quintal de terra ressecada da família, em Khair Khana, e juntos contavam as cabras e ovelhas que às vezes passavam por ali. Naquele dia, dores de barriga e diarreia afligiam seu pequeno corpo e foram piorando com o passar da tarde. Ele estava deitado sobre a pilha de almofadas que Malika havia arranjado no centro do grande tapete vermelho da sala. Hossein respirava com dificuldade ao entrar e sair de um sono agitado.
Malika observava Hossein e se perguntava se estava em condições de tomar conta dele. Estava grávida de vários meses, pela terceira vez, e havia passado o dia dentro de casa seguindo a advertência que uma vizinha lhe fizera cedo pela manhã para que não fosse trabalhar, porque os talibãs estavam chegando. Distraidamente, ela costurou as partes de um terno de rayon que estava fazendo para um vizinho enquanto assistia com crescente preocupação a piora do estado de saúde de Hossein. Havia agora gotas de suor cobrindo sua testa e seus braços e pernas estavam frios e úmidos. Ela precisava chamar um médico.
De seu guarda-roupa, Malika pegou o maior xale ou lenço de cabeça que possuía. Ela procurou cobrir não apenas sua cabeça, mas também a parte inferior de seu rosto. Como a maioria das mulheres cultas de Cabul, ela costumava usar o xale de maneira casual sobre a cabeça e os ombros. Mas naquele dia teria que usá-lo de maneira diferente; se os talibãs estavam realmente a caminho de Cabul, eles exigiriam que as mulheres andassem com uma burca que, em dari, se chamava chadri e que encobria não apenas a cabeça, mas todo o rosto. Essa já era a lei imposta por eles em Herat e Jalalabad, que haviam caído em seu poder apenas algumas semanas antes. Como ela não tinha nenhuma burca, o véu enorme era a peça mais próxima das exigências dos talibãs que Malika conseguiu encontrar. Ele teria que servir.
Quando sua cunhada, que morava no apartamento acima do seu, chegou para cuidar de seu filho mais velho, Malika pegou Hossein no colo e aninhou-o por baixo de seu largo casaco preto. Com ele apertado contra sua barriga de grávida, ela saiu apressada pela porta para encarar a caminhada de dez minutos até o consultório médico.
O silêncio que reinava na rua deixou Malika assustada. Naquela hora de início de tarde, em seu bairro, costumava haver uma confusão de táxis, bicicletas, burros e caminhões, mas naquele dia as ruas estavam vazias. Os boatos sobre a aproximação dos talibãs tinham levado a vizinhança a se esconder em suas casas, atrás de portões trancados e cortinas fechadas. Aquele era agora um jogo de espera e ninguém sabia o que aconteceria nos próximos dias.
Malika estremeceu ao som produzido por seus próprios saltos na calçada. Mantinha os olhos fixos no chão ao passo que se esforçava para manter firmes as dobras de seu xale; mas o tecido pesado insistia em escorregar de sua cabeça, forçando-a a mudar o menino de lado, enquanto arranjava a veste e caminhava o mais rápido possível. Uma sombra da tarde começou a cair sobre as fileiras desiguais de casas e lojas do bairro de Karteh Parwan.
Finalmente, Malika virou à direita da rua principal e chegou ao consultório que ocupava o andar térreo de uma fileira desordenada de lojas, todas com o mesmo piso de cimento e tetos baixos. Muitas fileiras de pedra amarronzada separavam as lojas dos apartamentos com sacadas acima. Aliviada por se encontrar num espaço protegido e por poder descansar por um instante, Malika falou com o médico que havia saído de seu consultório ao ouvir as batidas à porta.
Meu filho está com febre; acho que ele deve estar muito mal”, ela disse. “Eu o trouxe aqui o mais cedo que pude.”
O médico, um senhor de idade que havia tratado a família de seu marido por muitos anos, ofereceu-lhe um sorriso amável.
Sem problema, é só tomar seu assento e aguardar. Não vou demorar.”
Malika acomodou Hossein numa cadeira de madeira na sala de espera vazia e às escuras. Ela ficou andando, de um lado para outro, tentando se acalmar; em seguida, passou a mão em sua barriga e inspirou profundamente. O pequeno Hossein estava pálido e seus olhos pareciam vítreos e sem expressão. Ela envolveu-o com seus braços e apertou-o contra o próprio corpo.
De repente, um barulho vindo lá de fora a assustou. Malika saltou da cadeira em que estava sentada e dirigiu-se à janela. Nuvens cinzentas pairavam sobre a rua e havia ficado escuro lá fora. A primeira coisa que ela conseguiu vislumbrar foi um caminhão lustroso de cor escura. Ele parecia novo, certamente mais novo do que a maioria dos carros de Cabul. Em seguida, ela viu três homens parados ao lado do caminhão. Eles usavam turbantes grossos enrolados no alto de suas cabeças e tinham nas mãos varas que pareciam bastões. Eles estavam batendo em alguém – isso ela pôde perceber.
Para começar, Malika notou que a figura abatida diante deles era uma mulher. Ela estava estirada no meio da rua, com o corpo enroscado formando uma bola e tentava aparar os golpes. Mas os homens não paravam de golpeá-la. Malika podia ouvir o som dos golpes incessantes dos bastões de madeira batendo na mulher desamparada – em suas costas e pernas.
Onde está seu chadri?” um dos homens gritou para a sua vítima, erguendo os braços para o alto para golpeá-la de novo. “Por que você não está encoberta? Que espécie de mulher é você para sair assim descoberta?”
Pare!” a mulher suplicou. “Por favor, tenha misericórdia. Eu estou usando um xale. Não tenho nenhum chadri. Nunca antes fomos obrigadas a usá-lo.”
Ela começou a chorar. Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Malika ao assistir àquela cena. Seus instintos a instigavam a correr até a rua para salvar a pobre mulher de seus agressores. Mas sua mente racional sabia que aquilo era impossível. Se saísse do consultório médico, ela também seria espancada. Aqueles homens não teriam nenhum escrúpulo para bater também numa mulher grávida, ela pensou. E ademais, ela tinha que proteger seu filho doente. Então ela continuou parada junto à janela, ouvindo a mulher chorar, sem poder fazer nada, e tratou de secar suas próprias lágrimas.
Você acha que este é o antigo regime?” um dos homens jovens gritou. Seus olhos estavam pintados com o cosmético negro usado pelos soldados do Talibã. “Este não é o regime do Dr. Najibullah nem dos Mujahideen”, ele disse, golpeando de novo a mulher com seu bastão. “Nós acreditamos no charia, o código de conduta do Islã, e é esta a lei que agora rege este país. As mulheres têm que andar encobertas. Que isto lhe sirva de lição.”
Finalmente, os homens voltaram para seu caminhão e foram embora. A mulher se curvou insegura para pegar sua bolsa do chão e saiu mancando lentamente.
Malika voltou para junto de Hossein, que estava enroscado em sua cadeira soltando gemidos fracos. As mãos dela tremeram ao pegar os dedinhos das mãos dele. Como a mulher lá na rua, ela pertencia a uma geração de mulheres de Cabul que não sabia o que era usar o chadri. Elas haviam crescido na capital muito tempo depois de o primeiro-ministro Mohammad Daoud Khan ter instituído o uso voluntário de véu pelas mulheres, na década de 1950. O rei Amanullah Khan havia tentado, sem sucesso, promover essa reforma trinta anos antes, mas foi apenas em 1959, quando a mulher do próprio primeiro-ministro apareceu no ato de comemoração do dia da independência nacional usando um lenço na cabeça em vez de cobri-la totalmente com o chadri, que a mudança finalmente entrou em vigor. A atitude dela chocou as massas e marcou uma virada cultural na capital. As mulheres da geração seguinte de Cabul passaram a trabalhar como professoras, operárias, médicas e funcionárias públicas; elas iam trabalhar apenas com a cabeça encoberta e o rosto exposto. Até aquele dia muitas mulheres nunca haviam tido motivo para usar e nem mesmo possuíam os véus que haviam encoberto totalmente as cabeças de suas avós.
De repente, os tempos haviam novamente mudado. As mulheres seriam, dali em diante, obrigadas a se vestir de uma maneira – e adotar um estilo de vida – que jamais haviam conhecido, por governantes que não haviam conhecido outra coisa. Seria isso que a esperava lá fora quando saísse do consultório médico? Malika sentiu as batidas aceleradas do coração em seu peito ao se perguntar como iria para casa em segurança com Hossein. Como o da mulher que vira lá fora, o lenço de Malika era grande, mas não o suficiente para cobrir toda a sua face e convencer os soldados de que era devota. Ela abraçou Hossein com força, tentando tanto proteger a ele como a si mesma.
Foi justamente naquele momento que o médico voltou.
Depois de um exame rápido, porém completo, ele assegurou a Malika que não era nada grave. Ele recomendou que ela desse a ele muito líquido e passou-lhe a receita a ser aviada; em seguida, conduziu Malika e Hossein até a sala de espera. Quando chegaram à porta de saída, Malika parou.
Doutor, eu gostaria de lhe pedir para ficar aqui por mais alguns minutos.” Ela apontou o queixo na direção do menino em seus braços. “Preciso descansar por um instante antes de carregá-lo de volta para casa.”
Malika não queria falar sobre o que tinha acabado de ver, mas o fato continuava atormentando-a. Ela precisava pensar numa maneira de sair em segurança daquela situação.
É claro”, o médico respondeu. “Fique o tempo que quiser.”
Malika ficou andando de um lado para outro da sala de espera, suplicando por ajuda. Ela não poderia voltar para a rua sem um chadri, daquilo ela tinha certeza. Mas não fazia ideia de como conseguir um.
De repente, seu coração disparou. Pela janela, ela viu Soraya, a professora de seu filho mais velho, descendo a rua em direção ao consultório médico. Malika reconheceu de longe seu passo determinado e, em seguida, entreviu o rosto da professora transparecendo por trás do véu escuro. Levava uma pequena sacola de compras pendurada em cada braço. Malika correu até a porta. Depois de averiguar a calçada para se certificar de que os talibãs não estavam mais à vista, ela deu um passo furtivo para fora do consultório médico.
Soraya Jan”, ela chamou da soleira da porta. “É Malika, a mãe de Saeed”.
Surpresa, a professora se aproximou às pressas e Malika lhe contou o que havia acabado de ver ali na rua.
Sem poder acreditar, Soraya balançou a cabeça. Ela havia passado uma hora comprando todas as verduras e legumes que conseguiu para o pilau, o arroz aromático afegão do jantar da família, e pão naan, mas estava muito difícil encontrar comida. Um bloqueio do Talibã estava obstruindo a cidade, impedindo que os caminhões que transportavam alimentos chegassem aos habitantes – cerca de 1,2 milhão –, da capital. Soraya havia conseguido, com dificuldade, comprar apenas algumas batatas e cebolas. No mercado corriam boatos sobre a chegada dos talibãs, mas Malika era a primeira pessoa conhecida que havia visto de perto os novos invasores da capital.
Minha casa fica bem ali na esquina”, Soraya disse para Malika, segurando a sua mão. “Você e Hossein vêm comigo. Nós vamos arranjar um chadri para você voltar para casa. Não se preocupe, vamos dar um jeito.”
Malika sorriu pela primeira vez naquele dia.
Muito obrigada, Soraya Jan”, ela disse. “Fico enormemente agradecida.”
As duas mulheres percorreram rapidamente o quarteirão até a casa de Soraya, que ficava atrás de um portão amarelo vivo. Elas não pronunciaram uma única palavra durante o rápido percurso e Malika ficou se perguntando se Soraya estava rezando como ela para que não fossem paradas. Ela não conseguia tirar de sua mente a imagem da mulher a cujo espancamento assistira ali, naquela mesma rua.
Alguns minutos depois, elas já estavam sentadas na pequena cozinha de Soraya. Malika segurava com força um copo de chá verde quente e pela primeira vez, em muitas horas, conseguiu relaxar. Ela estava profundamente agradecida pelo aconchego da casa de sua amiga e pelo fato de Hossein, a quem ela havia dado um comprimido ainda no consultório médico, já estar um pouco melhor.
Eu tenho um plano, Malika”, Soraya anunciou. Ela chamou seu filho, Muhammad, que estava em outro cômodo da casa. Quando o menino apareceu, ela encarregou-o de uma missão. “Eu preciso que você vá até a casa de sua tia Orzala. Diga a ela que precisamos que ela empreste um chadri para a tia Malika; diga que o devolveremos dentro de alguns poucos dias. Isto é muito importante. Entendeu?”
O menino de oito anos assentiu.
Depois de apenas meia hora, o pequeno Muhammad entrou correndo na sala e entregou, solenemente, a Malika uma sacola de plástico branco com as alças cuidadosamente amarradas. Dentro dela havia um chadri azul. “Minha tia disse que a senhora pode ficar com o chadri pelo tempo que for necessário”, Muhammad falou, sorrindo.
Malika desdobrou a peça que, na verdade, era feita de muitas camadas de tecido costuradas à mão, umas às outras. A parte da frente, com aproximadamente um metro de comprimento, era feita de poliéster claro com uma barra finamente bordada na parte mais baixa e uma touca no alto. O lado mais comprido do chadri e as camadas da parte de trás formavam um ondeado ininterrupto de pregas sanfonadas que iam quase até o chão. Para usar aquilo era preciso entrar embaixo daquelas dobras onduladas e verificar se a touca estava no lugar certo para proporcionar o máximo de visibilidade possível, através da fenda entrançada para os olhos, que tornava o mundo levemente azulado.
A família convidou Malika para ficar para o jantar e, depois de comer com eles um prato de arroz e batatas à luz de velas no piso da sala, ela levantou-se e vestiu o chadri. A barra de seu elegante par de calças marrom ficou transparecendo por baixo do véu. Até então, Malika havia usado aquele tipo de peça de vestuário apenas algumas vezes, quando tinha visitado os parentes nas províncias e, por isso, achou difícil andar com todas aquelas camadas e pregas escorregadias. Ela esforçou-se para enxergar através da pequena abertura para os olhos que tinha apenas uns cinco centímetros de altura por oito centímetros de largura. Ela pisou no tecido enquanto se despedia, pela última vez, da família de Soraya.
Um de meus filhos em breve lhe trará o chadri de volta”, Malika disse, abraçando a amiga que havia salvado a sua pele.
Ela pegou Hossein pela mão e começou a caminhar para casa sob o céu de uma noite estrelada, andando devagar e com cuidado para não pisar de novo no véu. Ela ia rezando para que o disparo de foguetes esperasse até que pelo menos ela chegasse em casa em segurança.
Muitos dias transcorreriam antes de ela poder ver seus familiares de Khair Khana e contar a eles a aflição que havia passado. Malika fora uma das primeiras a passar pela experiência que agora estava defronte de todas as mulheres. O futuro seria exatamente como a jovem estudante do Instituto Sayed Jamaluddin havia previsto.

Gayle Tzemach Lemmon, in A costureira de Khair Khana

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