“Mamãe,
eu não estou me sentindo bem”, disse Hossein.
O
menino de quatro anos de idade era o segundo filho de Malika e o
preferido de sua tia Kamila. Ela brincava com ele no quintal de terra
ressecada da família, em Khair Khana, e juntos contavam as cabras e
ovelhas que às vezes passavam por ali. Naquele dia, dores de barriga
e diarreia afligiam seu pequeno corpo e foram piorando com o passar
da tarde. Ele estava deitado sobre a pilha de almofadas que Malika
havia arranjado no centro do grande tapete vermelho da sala. Hossein
respirava com dificuldade ao entrar e sair de um sono agitado.
Malika
observava Hossein e se perguntava se estava em condições de tomar
conta dele. Estava grávida de vários meses, pela terceira vez, e
havia passado o dia dentro de casa seguindo a advertência que uma
vizinha lhe fizera cedo pela manhã para que não fosse trabalhar,
porque os talibãs estavam chegando. Distraidamente, ela costurou as
partes de um terno de rayon que estava fazendo para um vizinho
enquanto assistia com crescente preocupação a piora do estado de
saúde de Hossein. Havia agora gotas de suor cobrindo sua testa e
seus braços e pernas estavam frios e úmidos. Ela precisava chamar
um médico.
De
seu guarda-roupa, Malika pegou o maior xale ou lenço de cabeça que
possuía. Ela procurou cobrir não apenas sua cabeça, mas também a
parte inferior de seu rosto. Como a maioria das mulheres cultas de
Cabul, ela costumava usar o xale de maneira casual sobre a cabeça e
os ombros. Mas naquele dia teria que usá-lo de maneira diferente; se
os talibãs estavam realmente a caminho de Cabul, eles exigiriam que
as mulheres andassem com uma burca que, em dari, se chamava chadri e
que encobria não apenas a cabeça, mas todo o rosto. Essa já era a
lei imposta por eles em Herat e Jalalabad, que haviam caído em seu
poder apenas algumas semanas antes. Como ela não tinha nenhuma
burca, o véu enorme era a peça mais próxima das exigências dos
talibãs que Malika conseguiu encontrar. Ele teria que servir.
Quando
sua cunhada, que morava no apartamento acima do seu, chegou para
cuidar de seu filho mais velho, Malika pegou Hossein no colo e
aninhou-o por baixo de seu largo casaco preto. Com ele apertado
contra sua barriga de grávida, ela saiu apressada pela porta para
encarar a caminhada de dez minutos até o consultório médico.
O
silêncio que reinava na rua deixou Malika assustada. Naquela hora de
início de tarde, em seu bairro, costumava haver uma confusão de
táxis, bicicletas, burros e caminhões, mas naquele dia as ruas
estavam vazias. Os boatos sobre a aproximação dos talibãs tinham
levado a vizinhança a se esconder em suas casas, atrás de portões
trancados e cortinas fechadas. Aquele era agora um jogo de espera e
ninguém sabia o que aconteceria nos próximos dias.
Malika
estremeceu ao som produzido por seus próprios saltos na calçada.
Mantinha os olhos fixos no chão ao passo que se esforçava para
manter firmes as dobras de seu xale; mas o tecido pesado insistia em
escorregar de sua cabeça, forçando-a a mudar o menino de lado,
enquanto arranjava a veste e caminhava o mais rápido possível. Uma
sombra da tarde começou a cair sobre as fileiras desiguais de casas
e lojas do bairro de Karteh Parwan.
Finalmente,
Malika virou à direita da rua principal e chegou ao consultório que
ocupava o andar térreo de uma fileira desordenada de lojas, todas
com o mesmo piso de cimento e tetos baixos. Muitas fileiras de pedra
amarronzada separavam as lojas dos apartamentos com sacadas acima.
Aliviada por se encontrar num espaço protegido e por poder descansar
por um instante, Malika falou com o médico que havia saído de seu
consultório ao ouvir as batidas à porta.
“Meu
filho está com febre; acho que ele deve estar muito mal”, ela
disse. “Eu o trouxe aqui o mais cedo que pude.”
O
médico, um senhor de idade que havia tratado a família de seu
marido por muitos anos, ofereceu-lhe um sorriso amável.
“Sem
problema, é só tomar seu assento e aguardar. Não vou demorar.”
Malika
acomodou Hossein numa cadeira de madeira na sala de espera vazia e às
escuras. Ela ficou andando, de um lado para outro, tentando se
acalmar; em seguida, passou a mão em sua barriga e inspirou
profundamente. O pequeno Hossein estava pálido e seus olhos pareciam
vítreos e sem expressão. Ela envolveu-o com seus braços e
apertou-o contra o próprio corpo.
De
repente, um barulho vindo lá de fora a assustou. Malika saltou da
cadeira em que estava sentada e dirigiu-se à janela. Nuvens
cinzentas pairavam sobre a rua e havia ficado escuro lá fora. A
primeira coisa que ela conseguiu vislumbrar foi um caminhão lustroso
de cor escura. Ele parecia novo, certamente mais novo do que a
maioria dos carros de Cabul. Em seguida, ela viu três homens parados
ao lado do caminhão. Eles usavam turbantes grossos enrolados no alto
de suas cabeças e tinham nas mãos varas que pareciam bastões. Eles
estavam batendo em alguém – isso ela pôde perceber.
Para
começar, Malika notou que a figura abatida diante deles era uma
mulher. Ela estava estirada no meio da rua, com o corpo enroscado
formando uma bola e tentava aparar os golpes. Mas os homens não
paravam de golpeá-la. Malika podia ouvir o som dos golpes
incessantes dos bastões de madeira batendo na mulher desamparada –
em suas costas e pernas.
“Onde
está seu chadri?” um dos homens gritou para a sua vítima,
erguendo os braços para o alto para golpeá-la de novo. “Por que
você não está encoberta? Que espécie de mulher é você para sair
assim descoberta?”
“Pare!”
a mulher suplicou. “Por favor, tenha misericórdia. Eu estou usando
um xale. Não tenho nenhum chadri. Nunca antes fomos obrigadas a
usá-lo.”
Ela
começou a chorar. Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de
Malika ao assistir àquela cena. Seus instintos a instigavam a correr
até a rua para salvar a pobre mulher de seus agressores. Mas sua
mente racional sabia que aquilo era impossível. Se saísse do
consultório médico, ela também seria espancada. Aqueles homens não
teriam nenhum escrúpulo para bater também numa mulher grávida, ela
pensou. E ademais, ela tinha que proteger seu filho doente. Então
ela continuou parada junto à janela, ouvindo a mulher chorar, sem
poder fazer nada, e tratou de secar suas próprias lágrimas.
“Você
acha que este é o antigo regime?” um dos homens jovens gritou.
Seus olhos estavam pintados com o cosmético negro usado pelos
soldados do Talibã. “Este não é o regime do Dr. Najibullah nem
dos Mujahideen”, ele disse, golpeando de novo a mulher com seu
bastão. “Nós acreditamos no charia, o código de conduta do Islã,
e é esta a lei que agora rege este país. As mulheres têm que andar
encobertas. Que isto lhe sirva de lição.”
Finalmente,
os homens voltaram para seu caminhão e foram embora. A mulher se
curvou insegura para pegar sua bolsa do chão e saiu mancando
lentamente.
Malika
voltou para junto de Hossein, que estava enroscado em sua cadeira
soltando gemidos fracos. As mãos dela tremeram ao pegar os dedinhos
das mãos dele. Como a mulher lá na rua, ela pertencia a uma geração
de mulheres de Cabul que não sabia o que era usar o chadri. Elas
haviam crescido na capital muito tempo depois de o primeiro-ministro
Mohammad Daoud Khan ter instituído o uso voluntário de véu pelas
mulheres, na década de 1950. O rei Amanullah Khan havia tentado, sem
sucesso, promover essa reforma trinta anos antes, mas foi apenas em
1959, quando a mulher do próprio primeiro-ministro apareceu no ato
de comemoração do dia da independência nacional usando um lenço
na cabeça em vez de cobri-la totalmente com o chadri, que a mudança
finalmente entrou em vigor. A atitude dela chocou as massas e marcou
uma virada cultural na capital. As mulheres da geração seguinte de
Cabul passaram a trabalhar como professoras, operárias, médicas e
funcionárias públicas; elas iam trabalhar apenas com a cabeça
encoberta e o rosto exposto. Até aquele dia muitas mulheres nunca
haviam tido motivo para usar e nem mesmo possuíam os véus que
haviam encoberto totalmente as cabeças de suas avós.
De
repente, os tempos haviam novamente mudado. As mulheres seriam, dali
em diante, obrigadas a se vestir de uma maneira – e adotar um
estilo de vida – que jamais haviam conhecido, por governantes que
não haviam conhecido outra coisa. Seria isso que a esperava lá fora
quando saísse do consultório médico? Malika sentiu as batidas
aceleradas do coração em seu peito ao se perguntar como iria para
casa em segurança com Hossein. Como o da mulher que vira lá fora, o
lenço de Malika era grande, mas não o suficiente para cobrir toda a
sua face e convencer os soldados de que era devota. Ela abraçou
Hossein com força, tentando tanto proteger a ele como a si mesma.
Foi
justamente naquele momento que o médico voltou.
Depois
de um exame rápido, porém completo, ele assegurou a Malika que não
era nada grave. Ele recomendou que ela desse a ele muito líquido e
passou-lhe a receita a ser aviada; em seguida, conduziu Malika e
Hossein até a sala de espera. Quando chegaram à porta de saída,
Malika parou.
“Doutor,
eu gostaria de lhe pedir para ficar aqui por mais alguns minutos.”
Ela apontou o queixo na direção do menino em seus braços. “Preciso
descansar por um instante antes de carregá-lo de volta para casa.”
Malika
não queria falar sobre o que tinha acabado de ver, mas o fato
continuava atormentando-a. Ela precisava pensar numa maneira de sair
em segurança daquela situação.
“É
claro”, o médico respondeu. “Fique o tempo que quiser.”
Malika
ficou andando de um lado para outro da sala de espera, suplicando por
ajuda. Ela não poderia voltar para a rua sem um chadri, daquilo ela
tinha certeza. Mas não fazia ideia de como conseguir um.
De
repente, seu coração disparou. Pela janela, ela viu Soraya, a
professora de seu filho mais velho, descendo a rua em direção ao
consultório médico. Malika reconheceu de longe seu passo
determinado e, em seguida, entreviu o rosto da professora
transparecendo por trás do véu escuro. Levava uma pequena sacola de
compras pendurada em cada braço. Malika correu até a porta. Depois
de averiguar a calçada para se certificar de que os talibãs não
estavam mais à vista, ela deu um passo furtivo para fora do
consultório médico.
“Soraya
Jan”, ela chamou da soleira da porta. “É Malika, a mãe de
Saeed”.
Surpresa,
a professora se aproximou às pressas e Malika lhe contou o que havia
acabado de ver ali na rua.
Sem
poder acreditar, Soraya balançou a cabeça. Ela havia passado uma
hora comprando todas as verduras e legumes que conseguiu para o
pilau, o arroz aromático afegão do jantar da família, e pão naan,
mas estava muito difícil encontrar comida. Um bloqueio do Talibã
estava obstruindo a cidade, impedindo que os caminhões que
transportavam alimentos chegassem aos habitantes – cerca de 1,2
milhão –, da capital. Soraya havia conseguido, com dificuldade,
comprar apenas algumas batatas e cebolas. No mercado corriam boatos
sobre a chegada dos talibãs, mas Malika era a primeira pessoa
conhecida que havia visto de perto os novos invasores da capital.
“Minha
casa fica bem ali na esquina”, Soraya disse para Malika, segurando
a sua mão. “Você e Hossein vêm comigo. Nós vamos arranjar um
chadri para você voltar para casa. Não se preocupe, vamos dar um
jeito.”
Malika
sorriu pela primeira vez naquele dia.
“Muito
obrigada, Soraya Jan”, ela disse. “Fico enormemente agradecida.”
As
duas mulheres percorreram rapidamente o quarteirão até a casa de
Soraya, que ficava atrás de um portão amarelo vivo. Elas não
pronunciaram uma única palavra durante o rápido percurso e Malika
ficou se perguntando se Soraya estava rezando como ela para que não
fossem paradas. Ela não conseguia tirar de sua mente a imagem da
mulher a cujo espancamento assistira ali, naquela mesma rua.
Alguns
minutos depois, elas já estavam sentadas na pequena cozinha de
Soraya. Malika segurava com força um copo de chá verde quente e
pela primeira vez, em muitas horas, conseguiu relaxar. Ela estava
profundamente agradecida pelo aconchego da casa de sua amiga e pelo
fato de Hossein, a quem ela havia dado um comprimido ainda no
consultório médico, já estar um pouco melhor.
“Eu
tenho um plano, Malika”, Soraya anunciou. Ela chamou seu filho,
Muhammad, que estava em outro cômodo da casa. Quando o menino
apareceu, ela encarregou-o de uma missão. “Eu preciso que você vá
até a casa de sua tia Orzala. Diga a ela que precisamos que ela
empreste um chadri para a tia Malika; diga que o devolveremos dentro
de alguns poucos dias. Isto é muito importante. Entendeu?”
O
menino de oito anos assentiu.
Depois
de apenas meia hora, o pequeno Muhammad entrou correndo na sala e
entregou, solenemente, a Malika uma sacola de plástico branco com as
alças cuidadosamente amarradas. Dentro dela havia um chadri azul.
“Minha tia disse que a senhora pode ficar com o chadri pelo tempo
que for necessário”, Muhammad falou, sorrindo.
Malika
desdobrou a peça que, na verdade, era feita de muitas camadas de
tecido costuradas à mão, umas às outras. A parte da frente, com
aproximadamente um metro de comprimento, era feita de poliéster
claro com uma barra finamente bordada na parte mais baixa e uma touca
no alto. O lado mais comprido do chadri e as camadas da parte de trás
formavam um ondeado ininterrupto de pregas sanfonadas que iam quase
até o chão. Para usar aquilo era preciso entrar embaixo daquelas
dobras onduladas e verificar se a touca estava no lugar certo para
proporcionar o máximo de visibilidade possível, através da fenda
entrançada para os olhos, que tornava o mundo levemente azulado.
A
família convidou Malika para ficar para o jantar e, depois de comer
com eles um prato de arroz e batatas à luz de velas no piso da sala,
ela levantou-se e vestiu o chadri. A barra de seu elegante par de
calças marrom ficou transparecendo por baixo do véu. Até então,
Malika havia usado aquele tipo de peça de vestuário apenas algumas
vezes, quando tinha visitado os parentes nas províncias e, por isso,
achou difícil andar com todas aquelas camadas e pregas
escorregadias. Ela esforçou-se para enxergar através da pequena
abertura para os olhos que tinha apenas uns cinco centímetros de
altura por oito centímetros de largura. Ela pisou no tecido enquanto
se despedia, pela última vez, da família de Soraya.
“Um
de meus filhos em breve lhe trará o chadri de volta”, Malika
disse, abraçando a amiga que havia salvado a sua pele.
Ela
pegou Hossein pela mão e começou a caminhar para casa sob o céu de
uma noite estrelada, andando devagar e com cuidado para não pisar de
novo no véu. Ela ia rezando para que o disparo de foguetes esperasse
até que pelo menos ela chegasse em casa em segurança.
Muitos
dias transcorreriam antes de ela poder ver seus familiares de Khair
Khana e contar a eles a aflição que havia passado. Malika fora uma
das primeiras a passar pela experiência que agora estava defronte de
todas as mulheres. O futuro seria exatamente como a jovem estudante
do Instituto Sayed Jamaluddin havia previsto.
Gayle Tzemach Lemmon, in A costureira de Khair Khana

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