Nos
anos 1960, Jesse costumava ir lá em casa para ver Ben. Eles eram
garotos na época, cabelo comprido, luz estroboscópica, maconha e
ácido. Jesse já tinha largado a escola, já tinha sido preso, já
estava em liberdade condicional. Os Rolling Stones se apresentaram no
Novo México. The Doors também. Ben e Jesse tinham chorado com a
morte de Jimi Hendrix, com a morte de Janis Joplin. Aquele foi um ano
de tempo ruim. Neve. Canos congelados. Todo mundo chorou naquele ano.
Morávamos
numa velha casa de fazenda, perto do rio. Marty e eu tínhamos
acabado de nos divorciar, era meu primeiro ano trabalhando como
professora, meu primeiro emprego. Era uma casa difícil para uma
pessoa cuidar sozinha. O telhado dava infiltração, a bomba estava
velha, mas era uma casa linda, grande.
Ben
e Jesse ouviam música alta, queimavam um incenso de violeta que
tinha cheiro de mijo de gato. Meus outros filhos Keith e Nathan não
suportavam Jesse — hippie drogado — mas Joel, o bebê, o adorava,
adorava as botas, a guitarra, a espingarda de chumbinho de Jesse. A
prática de pontaria em latas de cerveja no quintal dos fundos. Ping.
Era
março e estava frio para valer. Os grous iam aparecer na vala limpa
do rio ao amanhecer. Eu tinha ficado sabendo disso pelo novo
pediatra. Ele é um bom médico, e solteiro, mas eu ainda sinto falta
do velho dr. Bass. Quando Ben era neném, liguei para ele para
perguntar quantas fraldas eu deveria lavar de cada vez. Uma, ele me
respondeu.
Nenhum
dos meninos quis ir. Eu me vesti, tremendo. Fiz uma fogueira com
pinhas, enchi uma garrafa térmica com café. Preparei massa de
panqueca, dei comida para os cachorros, para os gatos e para Rosie, a
cabra. Será que nós tínhamos um cavalo na época? Se tínhamos, eu
esqueci de dar comida para ele. Jesse se aproximou por trás de mim
no escuro, no arame farpado ao lado da estrada coberta de geada
branca.
“Eu
quero ver os grous.”
Eu
dei a lanterna para ele, acho que dei a garrafa térmica também. Ele
apontava a luz da lanterna para tudo quanto era lugar, menos para a
estrada, e eu ficava reclamando com ele por causa disso. Que saco.
Para com isso.
“Você
está conseguindo ver. Está seguindo em frente. Você obviamente
conhece a estrada.”
Era
verdade. Os vertiginosos arcos de luz revelavam ninhos de passarinho
em choupos empalidecidos pelo inverno, abóboras-morangas no campo de
Gus, as silhuetas pré-históricas dos bois brâmanes de Gus. Os
olhos de ágata dos bois se abriam para refletir um pontinho de
claridade, depois se fechavam de novo.
Atravessamos
o tronco acima da vala de irrigação escura e lenta rumo à vala
limpa, onde deitamos de barriga no chão, silenciosos como
guerrilheiros. Eu sei, eu romantizo tudo. Mas é verdade que ficamos
lá deitados, congelando, durante um bom tempo, no meio da cerração.
Não era cerração. Devia ser a névoa que subia da vala ou talvez
apenas o vapor que saía da nossa boca.
O
fato é que, depois de um bom tempo, os grous realmente apareceram.
Centenas deles, bem quando o céu estava ficando cinza-azulado. Eles
pousavam em câmera lenta sobre pernas frágeis. Na margem, se
lavavam e ajeitavam as penas com o bico. De repente, tudo ficou
preto, branco e cinza, como um filme depois dos créditos, se
agitando.
Quando
os grous bebiam na parte mais alta do regato, a água prateada abaixo
deles se dividia em dezenas de filetes finíssimos. Depois, bem
rápido, os pássaros se foram, espalhando brancura, com o som de
cartas sendo embaralhadas.
Nós
ficamos lá, tomando café, até clarear e os corvos chegarem. Corvos
estabanados e estridentes, que desafiavam a graça dos grous. A
negrura deles ziguezagueava na água, enquanto os galhos dos choupos
balançavam como trampolins. Dava para sentir o sol.
Estava
claro na estrada no caminho de volta, mas Jesse deixou a lanterna
ligada. Você pode fazer o favor de desligar isso? Como ele me
ignorou, eu tirei a lanterna dele. Andávamos no ritmo das suas
longas passadas, sobre marcas de rodas de tratores.
“Puta
merda”, ele disse. “Aquilo foi assustador.”
“Foi
mesmo. Terrível como um exército com bandeiras desfraldadas. Isso é
da Bíblia.”
“Ah,
é, professora?” Ele já era insolente na época.
Lucia Berlin, in Manual da faxineira: Contos escolhidos
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