“Perfeitamente, senhor diretor. O
mercado que decide o que deve ser exibido. Transferiu-se para a
iniciativa privada a responsabilidade de patrocinar a cultura.
Oferecem-se leis de fomento, uma forma de democratizar as artes,
profissionalizar o meio, não favorecer nenhum grupo com pistolões.
Sua empresa, senhor, pode investir em marketing cultural. Dá
visibilidade à sua marca, e ainda descontam-se impostos.”
“Que moleza! Confesso que não entendo
nada desse negócio de artes. Terão que me ajudar.”
“Recebemos e avaliamos inúmeros
projetos em nosso departamento. Só precisamos da aprovação final.”
“Estou ansiosíssimo. Qual projeto
vocês indicam, qual?”
“Uma peça de teatro de Shakespeare.”
“Gênio! Não entendo nada, mas minha
filha adora teatro. Como é a história?”
“É sobre um príncipe, presidente.”
“Uma história de amor?”
“Não exatamente. É sobre um príncipe
que se veste de preto e é atormentado pelo fantasma do pai.”
“Onde fica o reino?”
“Na Dinamarca.”
“Onde?”
“Na Dinamarca.”
“Tem uma princesa?”
“Tem uma prima.”
“Uma prima?”
“De 17 anos.”
“De menor?”
“Que se mata.”
“Caramba!”
“O fantasma do pai fala pro filho que o
tio o matou para se casar com a sua mãe.”
“Que canalha! E é verdade?”
“É o que o príncipe precisa
descobrir. Ele bola uma peça.”
“Que peça?”
“De teatro.”
“Outra?”
“Exatamente: uma peça dentro de uma
peça.”
“Do Shakespeare também?”
“Claro. E a verdade é descoberta.”
“Final feliz!”
“Não, o príncipe morre. Muitos
morrem.”
“Não podemos mudar o final?”
“Infelizmente, não.”
“Como é o nome da peça?”
“Hamlet.”
“Ah, sei.”
“Hamlet no dicionário quer dizer
vilarejo, povoado...”
“Mas não é sobre um reino?”
“Podre, senhor, muito podre.”
“Deu pra notar. Tem outro projeto?”
“Temos um livro, senhor, uma nova
tradução. Um clássico.”
“De um brasileiro?”
“Não, senhor, é uma... tradução.
Kafka.”
“Gênio!”
“Graças ao agente dele, conhecemos o
seu trabalho.”
“Por quê?”
“Kafka não era reconhecido quando
estava vivo. Até pediu para queimar tudo.”
“Se nem o cara gostava dos seus livros,
por que vamos traduzir? Como é a história?”
“Um sujeito acorda de manhã e descobre
que se transformou numa barata.”
“Numa o quê?”
“É uma metáfora, senhor.”
“Onde se passa a história, num ralo?”
“No quarto dele, ele não sai do
quarto, porque, afinal... virou uma... é, uma barata e não quer
assustar as pessoas.”
“E ele desvira?”
“Não. Ele continua barata.”
“Se ao menos ele tivesse virado uma
borboleta, uma joaninha...”
“Melhor esquecer. Ele tem outro livro,
bem interessante. Sobre um sujeito que é processado.”
“Por que ele é processado?”
“Ele não sabe.”
“Mas o leitor sabe?”
“Não.”
“É um processo criminal, civil,
trabalhista?”
“Temos outro projeto. A edição
comemorativa de um romance do Guimarães Rosa que até virou uma
minissérie de TV.”
“Gênio!”
“Cujo primeiro livro, um de poesias,
foi premiado pela Academia Brasileira de Letras.”
“Que livro?”
“Magma.”
“Não conheço.”
“Ele proibiu a sua publicação.”
“Outro?”
“Mas foi publicado.”
“Sem ele saber?”
“Bem depois... Mas o romance é
sensacional.”
“Como é a história?”
“É uma narrativa circular, com novas
expressões e uma pontuação ousada.”
“Resume.”
“Um jagunço conhece outro jagunço que
quer vingar a morte da família e acaba se envolvendo, quase, bem, é
isso, apaixonando-se.”
“É para o público gay?”
“São jagunços, senhor, do sertão de
Minas Gerais. São homens violentos.”
“Não são gays?”
“É difícil explicar.”
“Eles ficam juntos no final?”
“Não. O outro morre, e só no final o
jagunço descobre que o outro era na verdade uma mulher.”
“Ele nunca tinha desconfiado?”
“Tinha. Mas... O cara, quer dizer, ela
disfarçava direitinho. Incrível. Na minissérie, a Bruna Lombardi
fazia o jagunço-mulher.”
“Quem fazia o outro, o Ray Charles?”
“Temos também a peça Esperando
Godot. Dois caras. Beckett.”
“Gênio! Esta é gay? O Godot quem é?
Ele chega? Quando ele chega?”
“Ele não chega.”
“Dá pra mudar isso?”
Balançam a cabeça negativamente.
“Será que seu departamento não pode
me sugerir um filme com a dupla Sandy e Júnior, por exemplo? Minha
mulher adora. Ou uma história de amor entre Angélica e Luciano
Huck. Pra que complicar?”
Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na escola
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