quarta-feira, 11 de março de 2020

Todos pecam

O caminhão alcançou a estrada principal e rodava para o alto das colinas agora, através de fileiras de rochedos quebrados e apodrecidos. O motor não tardou a esquentar e Tom diminuiu a marcha para não fatigá-lo em excesso. A estrada serpenteava, sempre subindo, por terras mortas, tostadas, brancas e cinzentas; terras que não apresentavam o menor sinal de vida o Tom parou por alguns minutos para esfriar um pouco a máquina; logo prosseguiu. Chegaram ao alto da montanha quando o sol ainda estava alto, e olharam o deserto aos seus pés — montes de cinza enegrecida ao longe, e o sol dourado refletindo-se no areal cinzento. Alguns arbustos ressequidos, salvas e sempre-vivas, lançavam fortes sombras sobre a areia que margeava as rochas. Tinham o sol diante de si, e Tom fez pala com a mão para poder enxergar. Passaram o cume e na descida pararam o motor para deixá-lo esfriar. Desceram rápidos pelo declive e alcançaram a planura do deserto. O ventilador girava e esfriava a água no radiador. No assento dianteiro, Tom, Al e o pai, Winfield nos joelhos do pai, olhavam o sol que descia no horizonte; seus olhos estavam fixos e suas faces tostadas cobertas de suor. A terra ardente e os montes de cinza enegrecidos cortavam a uniformidade da passagem, dando-lhe um aspecto assustador à luz do poente.
Meu Deus, que lugar! Como será passar por aqui a pé? — disse Al.
Ora, muita gente já fez isso — disse Tom. — Muita gente, e se eles fizeram isso, então nós também podíamos fazer.
É, mas garanto que muitos bateram as botas — disse Al.
Bom, nós também ainda não chegamos ao fim.
Al calou-se por instantes, e o deserto vermelho deslizava ao lado do caminhão.
Cê acha que a gente ainda vai ver os Wilson? — perguntou.
Tom deitou um olhar ao marcador de óleo.
Acho que a senhora Wilson é que ninguém mais vai ver por muito tempo. É a impressão que eu tenho.
Winfield disse:
Pai, eu quero ir lá fora.
Tom olhou-o.
Acho que todo mundo devia fazer isso antes que a noite caísse. — Diminuiu a marcha e parou o veículo. Winfield saltou e urinou na beira da estrada. Tom debruçou-se para fora do assento.
Alguém mais?
A gente aguenta — disse tio John.
Winfield, agora ocê passa lá pra trás — disse o pai. — Tô com as pernas dormentes de tanto levar ocê nos joelho. — O menino abotoou o macacão e trepou, obediente, sobre a carga arrumada na carroceria, e arrastando-se por cima do colchão da avó foi encolher-se.
O caminhão retomou seu caminho. O sol tocou o horizonte selvagem e tingiu o deserto de vermelho.
Eles não te queriam lá embaixo, hem?
Eu é que não quis ficar mais. Não é tão bom como aqui. Não podia nem me deitar.
Bom, vou te avisando: não me amola com conversa porque quero dormir, ouviu? — disse Ruthie. — Vou dormir, e quando acordar a gente já está na Califórnia, o Tom disse. Vai ser engraçado, tudo verde e bonito, né?
O sol desapareceu, deixando amplo halo no céu. Sob o teto de lona do caminhão reinava completa escuridão; era um buraco escuro com faixas de luz nas extremidades — um triângulo de linhas de luz.
Connie e Rosa de Sharon encostaram-se contra o assento da frente, e o vento quente que se imiscuía na tenda batia-lhes de encontro à base do crânio e fazia ondular e martelar o pano de lona. Falavam baixinho um com o outro e a tonalidade de sua voz era abafada pelo sussurro da lona sacudida pelo vento, e assim ninguém mais podia ouvir o que eles diziam. Quando Connie falava, virava a cabeça e aproximava-se dos ouvidos dela, e ela fazia o mesmo com ele. Ela disse:
Até me parece que a gente não fez outra coisa na vida senão viajar. Já estou farta disso tudo.
Ele encostou a boca no ouvido dela.
Quem sabe amanhã de manhã a gente já está lá? Que tal a gente sozinho agora, hem? — na escuridão, estendeu a mão e acariciou-lhe os quadris.
Não! cê me deixa muito arretada. Não faz isso. — E virou a cabeça para ouvir-lhe a resposta.
Bom, então quando todos dormirem... hem?
Talvez — disse ela. — Mas então espera que todos durmam. Cê me deixa arretada, e depois pode ser que ninguém durma.
Mas não posso me aguentar — disse ele.
Sei. Eu também. Vamo falar sobre a Califórnia. E vê se chega um pouco mais pra lá, antes que eu me dane.
Ele se afastou um pouco.
Pois é isso, vou tratar é de estudar de noite, logo que chegar — disse. Ela suspirou profundamente. — Vou comprar um livro que tenha todas essas coisas e mandar o cupom.
Quanto cê acha que vai demorar?
Demorar o quê?
Demorar até que cê ganhe dinheiro e a gente possa ter gelo em casa.
Ah, isso não sei — disse com ar importante. — É uma coisa que não se pode dizer assim. Mas até o Natal eu acho que termino com os estudos.
E assim que cê acabar de estudar, a gente já pode ter o gelo e tudo, né?
Ele deu um risinho:
Acho que é o calor — disse. — Pra que é que ocê vai querer gelo no Natal, com aquele frio?
É isso mesmo. Me esqueci — ela riu. — Mas eu vou gostar sempre de ter gelo em casa. Não, agora não! Fica quieto. Cê me deixa arretada.
A penumbra transformara-se em noite escura e as estrelas do deserto surgiram claras, perfurantes e cristalinas, pequenos pontos e raios no céu de veludo. E o calor transformara-se. Enquanto o sol permanecia iluminando ainda, era um calor martelante, implacável; mas agora era um calor que vinha de baixo, da própria terra, e era pesado, sufocante. As luzes do caminhão acenderam-se e se espraiaram por um pequeno quadrilátero diante do veículo e formavam estreitas faixas dos dois lados da estrada, onde se estendia o deserto. E às vezes olhos brilhavam à luz dos faróis, mas nenhum animal surgia à vista. Sob o toldo, a escuridão era agora completa. Tio John e o pregador estavam deitados, encolhidos, no meio da carroceria, olhando para o triângulo luminoso. Podiam ver duas silhuetas recortando-se mais nítidas — a mãe e a avó. Podiam ver a mãe mexer-se às vezes, e seu braço escuro mover-se para fora.
Tio John conversava com o pregador.
Casy — disse ele —, você é um camarada que devia saber o que convém.
Saber o quê?
Não sei.
Ora, aí está uma resposta muito compreensível — ironizou Casy.
Bom, você foi um pregador...
Escute, John, vamo deixar disso. Todo mundo pensa que eu sou mais que os outros só porque já fui um pregador. Um pregador é um homem como outro qualquer.
É, mas... é diferente, senão não ia ser um pregador. Eu queria perguntar a ocê... ocê acha que uma pessoa pode dar azar pros outros?
Não sei — disse Casy. — Não sei.
Bom, quer ver? Eu fui casado, com uma moça boa, bonita. E uma noite ela teve umas dores na barriga. E ela disse: é melhor ocê chamar um médico. E eu disse: qual, pra que médico? Cê comeu foi demais. — Tio John colocou a mão sobre o joelho de Casy e olhou-o ansiosamente procurando distinguir-lhe as feições na escuridão. — Ela só fez foi me olhar de um jeito... E depois sofreu a noite toda e na tarde seguinte morreu. — O pregador murmurou qualquer coisa. — Já vê — prosseguiu John —, eu matei ela. E daí pra cá fiz tudo pra pagar meu pecado, principalmente com as crianças. Fiz tudo pra ser bom, mas acho que não dou pra isso. Tomo um porre e desando a fazer besteira.
Ora, isso acontece com qualquer um. Todos bebem. Eu também — disse Casy.
É, mas você não cometeu um pecado, como eu.
Casy disse, gentilmente:
Mas eu também cometi pecados. Todo mundo cometeu pecados. O pecado é uma coisa de que a gente nunca pode estar livre. Essa gente que diz que é santa, que nunca fez nada de ruim... bem, esses são uns filhos da puta mentirosos, e se eu fosse Deus metia-lhes o pé na bunda e fazia eles voar do céu pra fora.
Eu acho que dei azar para a minha gente. Acho que eu devia era ir embora daqui, deixar eles sozinho. Não tô nada satisfeito com o que tá acontecendo — disse tio John.
Eu conheço isso... — falou Casy rapidamente. — Um homem deve fazer aquilo que acha que é direito. Não sei, palavra que não sei. Acho que esse negócio de sorte e azar é coisa que não existe. Só sei de uma coisa: ninguém tem o direito de se meter na vida dos outros. Deixa que cada um faça o que achar direito. Ajudar alguém, isto sim, talvez, mas nunca dizer o que ele deve fazer.
Então você também não sabe? — disse tio John, desapontado.
Não sei.
Você acha que foi um pecado eu deixar morrer minha mulher daquele jeito?
Bem — disse Casy —, todos acharam que foi um descuido, mas se você pensa que foi pecado, então é porque foi pecado. Pecado é coisa que a gente mesmo cria.
Bom, tenho que resolver esse assunto — disse tio John, deitando-se de costas, com os joelhos erguidos.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

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