O
caminhão alcançou a estrada principal e rodava para o alto das
colinas agora, através de fileiras de rochedos quebrados e
apodrecidos. O motor não tardou a esquentar e Tom diminuiu a marcha
para não fatigá-lo em excesso. A estrada serpenteava, sempre
subindo, por terras mortas, tostadas, brancas e cinzentas; terras que
não apresentavam o menor sinal de vida o Tom parou por alguns
minutos para esfriar um pouco a máquina; logo prosseguiu. Chegaram
ao alto da montanha quando o sol ainda estava alto, e olharam o
deserto aos seus pés — montes de cinza enegrecida ao longe, e o
sol dourado refletindo-se no areal cinzento. Alguns arbustos
ressequidos, salvas e sempre-vivas, lançavam fortes sombras sobre a
areia que margeava as rochas. Tinham o sol diante de si, e Tom fez
pala com a mão para poder enxergar. Passaram o cume e na descida
pararam o motor para deixá-lo esfriar. Desceram rápidos pelo
declive e alcançaram a planura do deserto. O ventilador girava e
esfriava a água no radiador. No assento dianteiro, Tom, Al e o pai,
Winfield nos joelhos do pai, olhavam o sol que descia no horizonte;
seus olhos estavam fixos e suas faces tostadas cobertas de suor. A
terra ardente e os montes de cinza enegrecidos cortavam a
uniformidade da passagem, dando-lhe um aspecto assustador à luz do
poente.
— Meu
Deus, que lugar! Como será passar por aqui a pé? — disse Al.
— Ora,
muita gente já fez isso — disse Tom. — Muita gente, e se eles
fizeram isso, então nós também podíamos fazer.
— É,
mas garanto que muitos bateram as botas — disse Al.
— Bom,
nós também ainda não chegamos ao fim.
Al
calou-se por instantes, e o deserto vermelho deslizava ao lado do
caminhão.
— Cê
acha que a gente ainda vai ver os Wilson? — perguntou.
Tom
deitou um olhar ao marcador de óleo.
— Acho
que a senhora Wilson é que ninguém mais vai ver por muito tempo. É
a impressão que eu tenho.
Winfield
disse:
— Pai,
eu quero ir lá fora.
Tom
olhou-o.
— Acho
que todo mundo devia fazer isso antes que a noite caísse. —
Diminuiu a marcha e parou o veículo. Winfield saltou e urinou na
beira da estrada. Tom debruçou-se para fora do assento.
— Alguém
mais?
— A
gente aguenta — disse tio John.
— Winfield,
agora ocê passa lá pra trás — disse o pai. — Tô com as pernas
dormentes de tanto levar ocê nos joelho. — O menino abotoou o
macacão e trepou, obediente, sobre a carga arrumada na carroceria, e
arrastando-se por cima do colchão da avó foi encolher-se.
O
caminhão retomou seu caminho. O sol tocou o horizonte selvagem e
tingiu o deserto de vermelho.
— Eles
não te queriam lá embaixo, hem?
— Eu
é que não quis ficar mais. Não é tão bom como aqui. Não podia
nem me deitar.
— Bom,
vou te avisando: não me amola com conversa porque quero dormir,
ouviu? — disse Ruthie. — Vou dormir, e quando acordar a gente já
está na Califórnia, o Tom disse. Vai ser engraçado, tudo verde e
bonito, né?
O
sol desapareceu, deixando amplo halo no céu. Sob o teto de lona do
caminhão reinava completa escuridão; era um buraco escuro com
faixas de luz nas extremidades — um triângulo de linhas de luz.
Connie
e Rosa de Sharon encostaram-se contra o assento da frente, e o vento
quente que se imiscuía na tenda batia-lhes de encontro à base do
crânio e fazia ondular e martelar o pano de lona. Falavam baixinho
um com o outro e a tonalidade de sua voz era abafada pelo sussurro da
lona sacudida pelo vento, e assim ninguém mais podia ouvir o que
eles diziam. Quando Connie falava, virava a cabeça e aproximava-se
dos ouvidos dela, e ela fazia o mesmo com ele. Ela disse:
— Até
me parece que a gente não fez outra coisa na vida senão viajar. Já
estou farta disso tudo.
Ele
encostou a boca no ouvido dela.
— Quem
sabe amanhã de manhã a gente já está lá? Que tal a gente sozinho
agora, hem? — na escuridão, estendeu a mão e acariciou-lhe os
quadris.
— Não!
cê me deixa muito arretada. Não faz isso. — E virou a cabeça
para ouvir-lhe a resposta.
— Bom,
então quando todos dormirem... hem?
— Talvez
— disse ela. — Mas então espera que todos durmam. Cê me deixa
arretada, e depois pode ser que ninguém durma.
— Mas
não posso me aguentar — disse ele.
— Sei.
Eu também. Vamo falar sobre a Califórnia. E vê se chega um pouco
mais pra lá, antes que eu me dane.
Ele
se afastou um pouco.
— Pois
é isso, vou tratar é de estudar de noite, logo que chegar —
disse. Ela suspirou profundamente. — Vou comprar um livro que tenha
todas essas coisas e mandar o cupom.
— Quanto
cê acha que vai demorar?
— Demorar
o quê?
— Demorar
até que cê ganhe dinheiro e a gente possa ter gelo em casa.
— Ah,
isso não sei — disse com ar importante. — É uma coisa que não
se pode dizer assim. Mas até o Natal eu acho que termino com os
estudos.
— E
assim que cê acabar de estudar, a gente já pode ter o gelo e tudo,
né?
Ele
deu um risinho:
— Acho
que é o calor — disse. — Pra que é que ocê vai querer gelo no
Natal, com aquele frio?
— É
isso mesmo. Me esqueci — ela riu. — Mas eu vou gostar sempre de
ter gelo em casa. Não, agora não! Fica quieto. Cê me deixa
arretada.
A
penumbra transformara-se em noite escura e as estrelas do deserto
surgiram claras, perfurantes e cristalinas, pequenos pontos e raios
no céu de veludo. E o calor transformara-se. Enquanto o sol
permanecia iluminando ainda, era um calor martelante, implacável;
mas agora era um calor que vinha de baixo, da própria terra, e era
pesado, sufocante. As luzes do caminhão acenderam-se e se espraiaram
por um pequeno quadrilátero diante do veículo e formavam estreitas
faixas dos dois lados da estrada, onde se estendia o deserto. E às
vezes olhos brilhavam à luz dos faróis, mas nenhum animal surgia à
vista. Sob o toldo, a escuridão era agora completa. Tio John e o
pregador estavam deitados, encolhidos, no meio da carroceria, olhando
para o triângulo luminoso. Podiam ver duas silhuetas recortando-se
mais nítidas — a mãe e a avó. Podiam ver a mãe mexer-se às
vezes, e seu braço escuro mover-se para fora.
Tio
John conversava com o pregador.
— Casy
— disse ele —, você é um camarada que devia saber o que convém.
— Saber
o quê?
— Não
sei.
— Ora,
aí está uma resposta muito compreensível — ironizou Casy.
— Bom,
você foi um pregador...
— Escute,
John, vamo deixar disso. Todo mundo pensa que eu sou mais que os
outros só porque já fui um pregador. Um pregador é um homem como
outro qualquer.
— É,
mas... é diferente, senão não ia ser um pregador. Eu queria
perguntar a ocê... ocê acha que uma pessoa pode dar azar pros
outros?
— Não
sei — disse Casy. — Não sei.
— Bom,
quer ver? Eu fui casado, com uma moça boa, bonita. E uma noite ela
teve umas dores na barriga. E ela disse: é melhor ocê chamar um
médico. E eu disse: qual, pra que médico? Cê comeu foi demais. —
Tio John colocou a mão sobre o joelho de Casy e olhou-o ansiosamente
procurando distinguir-lhe as feições na escuridão. — Ela só fez
foi me olhar de um jeito... E depois sofreu a noite toda e na tarde
seguinte morreu. — O pregador murmurou qualquer coisa. — Já vê
— prosseguiu John —, eu matei ela. E daí pra cá fiz tudo pra
pagar meu pecado, principalmente com as crianças. Fiz tudo pra ser
bom, mas acho que não dou pra isso. Tomo um porre e desando a fazer
besteira.
— Ora,
isso acontece com qualquer um. Todos bebem. Eu também — disse
Casy.
— É,
mas você não cometeu um pecado, como eu.
Casy
disse, gentilmente:
— Mas
eu também cometi pecados. Todo mundo cometeu pecados. O pecado é
uma coisa de que a gente nunca pode estar livre. Essa gente que diz
que é santa, que nunca fez nada de ruim... bem, esses são uns
filhos da puta mentirosos, e se eu fosse Deus metia-lhes o pé na
bunda e fazia eles voar do céu pra fora.
— Eu
acho que dei azar para a minha gente. Acho que eu devia era ir embora
daqui, deixar eles sozinho. Não tô nada satisfeito com o que tá
acontecendo — disse tio John.
— Eu
conheço isso... — falou Casy rapidamente. — Um homem deve fazer
aquilo que acha que é direito. Não sei, palavra que não sei. Acho
que esse negócio de sorte e azar é coisa que não existe. Só sei
de uma coisa: ninguém tem o direito de se meter na vida dos outros.
Deixa que cada um faça o que achar direito. Ajudar alguém, isto
sim, talvez, mas nunca dizer o que ele deve fazer.
— Então
você também não sabe? — disse tio John, desapontado.
— Não
sei.
— Você
acha que foi um pecado eu deixar morrer minha mulher daquele jeito?
— Bem
— disse Casy —, todos acharam que foi um descuido, mas se você
pensa que foi pecado, então é porque foi pecado. Pecado é coisa
que a gente mesmo cria.
— Bom,
tenho que resolver esse assunto — disse tio John, deitando-se de
costas, com os joelhos erguidos.
John
Steinbeck, in As vinhas da ira
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