Quando
chegou à casa do amigo, encontrou-o atravessando o vidro da porta.
Era uma casa de concreto aparente, com uma porta larga, em blindex
fumê. O amigo ia e voltava, com uma expressão de surpresa.
– Por
que está fazendo isso? indagou o que chegava.
– Não
sei, mas é divertido!
Ia,
de cá para lá, como se não houvesse vidro, fosse apenas uma
projeção, um reflexo.
– Faz
tempo que descobriu que podia atravessar o vidro?
– Ontem
de manhã, quando cheguei bêbado em casa. Tropecei no capacho de
entrada, caí de cabeça, pensei que ia me arrebentar. No entanto,
meu corpo ultrapassou o vidro, fiquei meio para fora, meio para
dentro.
– Terá
sido alguma coisa especial que você bebeu?
– Chope.
– Só
chope?
– E
alguns genebras.
– Mais
nada?
– Nada.
– Sentiu
alguma coisa diferente?
– Só
as reações normais. Aperto na bexiga, cabeça zonza. Posso aguentar
muito chope.
– Será
que o vidro da porta não presta? (O homem que tinha chegado pensou
em mil chavões: a indústria moderna que não se preocupa com o
consumidor; produtos mal-acabados, material de carregação etc.)
– Como
não presta? Custou dez mil pratas!
(O
homem que atravessava também pensava por chavões: o que é caro, é
bom.)
Os
dois sentaram-se no meio-fio. Não eram inteligentes, mas tentavam
pensar no que podia estar ocorrendo. Nenhuma solução, nenhuma
ideia. O que tinha chegado era um comerciante médio, o que
atravessava o vidro era um dono de confeitaria que tinha enriquecido
e possuía casa, dois carros, era sócio do Tênis Clube, do Rotary e
Lions, possuía cartões de crédito diversos, cheques especiais e
nome limpo no serviço de proteção ao crédito da associação
comercial. Então, enquanto pensava, falaram. De loteria esportiva,
imaginando o que fariam com o dinheiro, caso ganhassem.
Sentados,
viam o dia passar. Não se importavam. Queriam descobrir o que estava
acontecendo. Continuaram conversando de futebol e mulheres e preços
dos novos carros.
Não
tiveram fome, nem sede. O dia se acabou. Aí, cansado, o homem que
tinha chegado exclamou:
– Acho
que sei.
– Então,
o que é?
– É
um mistério.
– Mistério?
– Claro,
é um mistério. Não vamos descobrir, nunca! Vamos nos calar. Você
para de atravessar a porta. Esquece. Senão, começam a falar da
gente. Como se tivéssemos visto disco voador. A vida vira um
inferno.
– Eu
estava gostando, achei engraçado. Gostaria de atravessar portas para
as pessoas verem.
– Você
nem sabe em que mundo vai entrar. Muda tudo. Você se torna marginal,
excêntrico. Esquece. Os enigmas e as coisas sem resposta só
prejudicam um homem sadio, normal, pai de família como você.
– Quer
dizer que esqueço?
– Esquece.
Manda trocar a porta. E não se atire pelas janelas, só de
brincadeira.
– Vou
esquecer, é pena! Estava começando a gostar do meu mistério.
Ignácio
de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas
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