Há
tempos me perguntaram umas menininhas numa dessas pesquisas, quantos
diminutivos eu empregara no meu livro A rua dos cata-ventos.
Espantadíssimo, disse-lhes que não sabia. Nem tentaria saber,
porque poderiam escapar-me alguns na contagem. Que essas
estatísticas, aliás, só poderiam ser feitas eficientemente com o
auxílio de robôs. Não sei se as menininhas sabiam ao certo o que
era um robô. Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas,
devia ser um deles.
E
mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o
estruturalismo — o qual só depois vim a conhecer pelos seus
produtos em jornais e revistas. Mas continuo achando que um poema (um
verdadeiro poema, quero dizer), sendo algo dramaticamente emocional,
não deveria ser entregue à consideração de robôs, que, como
todos sabem, são inumanos.
Um
robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia — caso
fosse possível autopsiar uma coisa tão viva como é a poesia.
Em
todo caso, os estruturalistas não deixam de ter o seu quê de
humano...
Nas
suas pacientes, afanosas, exaustivas furungações, são exatamente
como certas crianças que acabam estripando um boneco para ver onde
está a musiquinha.
Mário
Quintana, in A vaca e o hipogrifo
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