Com
a nova ortografia da Língua Portuguesa, dei um triste adeus aos
tremas e a algumas palavras que levavam acento. Vou sentir falta da
velha ortografia, uma falta nada nostálgica, mas visual.
O
voo, sem o circunflexo, parece que ficou mais raso e pesado; lembra o
voo de um inhambu, essa ave grande e pesada e desajeitada que, para
sair do chão, bate asas com estardalhaço, como se fosse uma
bandeira ao vento.
E
o que dizer da nova “idéia”? Sem o acento agudo, tornou-se
grave, fechada e sugere uma pronúncia mais lusitana. Lamento a nudez
de ideia, como lamento também a nudez da palavra jiboia, que perdeu
o acento espetado no centro do corpo.
E
os tremas, esses dois pontinhos suspensos, olhinhos fixos que davam
tanta graça e elegância à letra u?
Tantos
corações que “agüentaram” o tranco por toda uma vida agora vão
ter que suportar emoções, dissabores e adversidades sem o trema. Eu
gostava desses pontinhos gêmeos que davam um encanto visual à
palavra “tranqüilo”. Gostava também das mãos de minha avó,
mãos que passavam unguento nas costas dos netos durante as noites
úmidas de Manaus. Com ou sem trema, o unguento ainda existe, mas as
mãos da avó sumiram e apenas emitem sinais na minha memória.
Espero que aquelas noites não sejam molhadas de tanta humidade ,
tomara que as noites e os dias em tempo chuvoso permaneçam úmidos,
livres de um h intruso, desnecessário.
Sempre
antipatizei com o hífen, esse traço minúsculo que separa duas
palavras. Nem todos os hífens foram suprimidos, e a nova regra para
o seu uso ainda é nebulosa, como afirmou Evanildo Bechara, um dos
nossos lexicógrafos mais doutos. Sei que “segundo-tenente” leva
hífen, mas como nomear a condição degradante em que vivem milhões
de brasileiros: sub-humana ou subhumana?
Sei
também que “ultra-rápido” será grafado “ultrarrápido”.
Essa duplicação do r ameaça a prevalência das vogais e lembra uma
afirmação de Balzac sobre a língua polonesa: as consoantes odeiam
as vogais.
Machado
de Assis já não escrevia como Eça de Queirós; aliás, já nem
escrevia como os seus contemporâneos do Brasil. O texto do escritor
argentino Roberto Arlt não é o castelhano de seus contemporâneos
espanhóis. O ritmo, a sonoridade e a sintaxe da prosa de Arlt são
outros. E já nem falo do vocabulário do subúrbio de Buenos Aires.
Não será necessário mencionar Guimarães Rosa, que inventou uma
linguagem quase intraduzível para o mundo.
Para
desespero dos editores e revisores, daqui a dez ou quinze anos haverá
uma nova reforma ortográfica. Tomara que não padronizem a língua
portuguesa, pois a uniformidade seria o fim da picada. O que
enriquece nossa língua é justamente o conjunto de diferenças
fonéticas e sintáticas da língua portuguesa falada e escrita em
vários continentes. A riqueza de uma língua herdada pelos
colonizadores reside também na sua inovação e maleabilidade.
As
línguas portuguesa e espanhola desta América são línguas
transplantadas. Nasceram da mesma semente, mas cresceram como
arbustos de outro clima e em situações históricas específicas; de
algum modo, esses arbustos são estranhos às sementes de origem.
A
jurisprudência e a burocracia podem usar uma ortografia padronizada,
mas não os escritores, que são parentes próximos de Caliban,
embora devam muito a Próspero. O narrador-onça do relato “Meu tio
o Iauaretê” que o diga. Nesse conto de Guimarães Rosa, a
prosódia, a sintaxe e o léxico não obedecem a convenções ou
normas rígidas. Rosa parece dizer que somos volúveis e inventivos
na fala e na escrita.
A
reforma ortográfica de 2020 ou 2022 pode suprimir todos os acentos,
todos os hífens, pode excluir até o ç, com prejuízo gritante à
palavra “caça”. Mas deixem, por favor, o nosso gerúndio. Não
estou a pedir muito, pá. Estou pedindo apenas isso: nosso pendor ao
movimento e à ação, que nem sempre seguem para a frente. Mas esta
não é uma crônica sobre caranguejos.
Milton
Hatoum, in Um solitário à espreita
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