quinta-feira, 8 de junho de 2017

Por que alguns sofrem e outros não?

Você me pergunta: “Por que alguns sofrem e outros não?” Essa pergunta é uma confissão. Quem faz essa pergunta é porque está sofrendo. As perguntas nascem sempre das nossas feridas. Mas essa pergunta revela que o seu sofrimento não é sofrimento comum. É sofrimento que não faz sentido. “Por quê? Por quê? Eu não mereço!” Se aos bons e inocentes fossem dados prazer e alegria e aos maus e culpados, sofrimento e desgraças, a gente compreenderia e até acharia bom. Pois parece justo que os maus paguem suas maldades com sofrimento. Toda maldade deve ser castigada. E parece justo que os bons sejam recompensados com prazeres e alegrias.
O filósofo Emanuel Kant dizia que duas coisas o enchiam de espanto: a ordem das estrelas, no céu, e o sentimento moral, no coração dos homens. O sentimento moral é isto: a consciência de que há atos bons e atos maus. É essa distinção moral entre o bem e o mal que torna possível a ordem humana. Os criminosos devem ser castigados. Os bons devem ser recompensados.
Imagine agora que o universo é uma ordem moral. Se ele é uma ordem moral, então os bons são recompensados e os maus são punidos. Se esse é o caso, somos forçados a concluir que, se alguém está sofrendo, seu sofrimento tem de ser merecido. Sofrimento é castigo por algum ato mau que se cometeu. Os discípulos de Jesus pensavam assim. Eles viram um cego mendigando à beira da estrada e concluíram que a sua cegueira era castigo de Deus por algum pecado dele ou dos seus pais. (Que Deus horrendo esse, que castiga nos filhos os pecados dos pais!) E foram logo perguntando: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” Mas Jesus discordou. Ele não acreditava que os sofrimentos são punição por algo mau que se fez. O Deus de Jesus não deseja que os homens sofram. Sua resposta foi: “Nem ele nem seus pais.”
Se sofrimentos e prazeres fossem distribuídos com justiça, você não teria feito a sua pergunta. Mas você sabe que isso não acontece. A verdade é que muitas coisas ruins acontecem a pessoas boas e muitas coisas boas acontecem a pessoas ruins. E isso nos parece absurdamente injusto. A sua pergunta surge do seu sentimento moral. Você deseja que haja justiça. Mas o sofrimento dos bons e os prazeres dos maus nos dizem que o universo não é uma ordem moral. Os bons não são premiados e os maus castigados. Se assim fosse, seria um ótimo negócio ser bom. Há umas religiões que ensinam que, se a gente está bem com Deus, tudo dá certo. Se o sofrimento vem, elas concluem, é porque a pessoa fez uma coisa errada: não está bem com Deus. Quando as pessoas dizem, com toda a honestidade de que são capazes: “Eu não merecia!”, elas estão afirmando a sua inocência. Afirmam a injustiça do seu sofrimento.
Mas agora veja: essa pergunta só tem sentido se você imaginar que os sofrimentos e os prazeres são enviados por Alguém todo-poderoso, que toma conta do universo. Muitas pessoas acreditam assim. Elas acham que as pessoas sofrem porque Deus quer. A criancinha com câncer, o jovem adolescente que morre num desastre de carro, a pessoa que é assassinada por um assaltante, as enchentes e terremotos que tiram a vida de milhares – tudo isso Deus poderia ter evitado se ele tivesse querido. Confesso a você que, se eu acreditasse num Deus assim, se eu acreditasse num Deus que tem prazer no sofrimento das pessoas, eu o odiaria do mais profundo do meu coração.
Pense na vida como uma imensa roleta. Há probabilidades infinitas à nossa espera. Coisas boas, coisas más. De vez em quando acontece uma coisa boa. De vez em quando acontece uma coisa ruim. Quem é responsável? Ninguém. A roleta é cega. Não foi “Alguém”, invisível, que fez com que a coisa ruim ou a coisa boa acontecesse. Foi um puro acidente – sem razões, sem explicações.
Viver é estar jogando esta roleta, sem fim. É sempre possível que algo terrível me aconteça. Se acontecer, eu sofrerei. Mas não culparei ninguém. Sofrerei sem revolta, sabendo que Deus é inocente.
Rubem Alves, in Se eu pudesse viver minha vida novamente

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