quarta-feira, 14 de junho de 2017

O homem de Santa Helena

Não Napoleão, mas um senhor, claro e bem vestido, com quem conversei, uma tarde, entre 1934 e 1935, no Itamaraty, no Serviço de Passaportes.
Lembro-me apagadamente das feições, os olhos; deslembro o nome, de que não tomei nota. Ele se portava muito despreconcebidamente.
Era brasileiro, paulista, conforme a caderneta verde, que trazia para ser posta em ordem. E morava em Santa Helena.
Cidade no interior de São Paulo?
Não. Santa Helena, a ilha...
!...A de Bonaparte?!
Yes, sim.
Selos e carimbos o comprovavam. Mas perdi um momento me acostumando ao fato de haver alguém, assim ao meu alcance, morador em Santa Helena. E, por pim e pam, um brasileiro.
Mas mesmo, mesmo brasileiro, com a nossa fala desembrulhada, nosso meio-tempo cordial, nosso jeito raso, sem contragarra estranha.
Aceitou meu pasmo e disse-me a história de como tinha ido parar na longínqua grimpa terráquea — metade emergente de uma cratera, roída de vento e vaga, poleiro de basalto para pouso dos albatrozes — sozinha no íntimo do Atlântico solitário. Enfim, também, quem descobriu primeiro, há muito tempo, aquela paragem, foi um brasileiro antecipado, um d’ “os fortes Portugueses, que navegam”...
Contou-me: havia alguns anos, passara por São Paulo um americano, astrônomo e geólogo, que precisou de alguém que o acompanhasse em suas excursões; com ele se empregara, e percorreram boa parte do Brasil, levando cálculos, telescópio portátil, amostras de rochas, instrumentos. Depois de meses, o americano convidou-o a darem uma chegada até à África.
Eu era solteiro, com saúde...
Começaram por Santa Helena. Mas, logo lá, o paulista namorou uma moça, santa-helenesa, descendida de ingleses. Casaram-se. (O americano prosseguira só, para a Costa do Marfim ou Costa do Ouro.)
Tive licença de ficar morando... Destino...
Meu auge, porém, foi ele jurar que era o único forasteiro então habitante da ilha. E com frêmito cívico ouvi que estava rico, isto é, que fundara para si uma fortuna muito acima da média, entre os insulares. Era um exemplo simples — explicou, textual:
Nós, aqui, somos moles, engordamos os estrangeiros. Lá na Ilha, eu é que era o estrangeiro...
Segundo acrescentou, o comércio santa-helenino se fazia sob praxe de monopólios: um negociante dono exclusivo de vender objetos de vestuário, outro com privilégio para os gêneros e bebidas, e assim vindo o resto. Pois o nosso patrício pronto se arranjara com uma das concessões mais vantajosas, e não tomou tempo para amealhar suas cifras esterlinas. Era o Brasil, éramos todos nós, ganhando. Pequeno e gostoso imperialismo!
Mas, construtivo. Porque também já aconteceu, no outro século, que uma horda brasileira de cupins brancos, viajando vingativamente num navio negreiro, desembarcou e enxameou lá, devorando a biblioteca pública e a maior parte do madeiramento das casas e edifícios da capital, de modo que quase toda Jamestown teve de ser recomeçada — a pau-teque e cipreste, essências que a térmita respeita...
Em seguida, o herói, que agora voltara a São Paulo e ao Rio, a passeio e saudade, comunicou-me que também entrara numa empresa, exportadora de lagostas.
O que tem mais, na Ilha, são os faisões e as lagostas, que dão o mantimento dos pobres...
Os faisões, virados selvagens, eram praga. E as lagostas, grandiosíssimas, pululavam no mar de ao redor. Ainda mal, para pena dele e minha, que elas seriam quase todas mandadas para a Argentina, e nenhuma para o Brasil, que não era mercado compensador. E a empresa andava adaptando embarcações especiais, com grandes tanques de água salgada, para levarem vivos até Buenos Aires os reais crustáceos. Precisavam de ser barcos a vela, porque as lagostas não suportariam cruzeiro rápido...
Coisas mais me disse, pois conversamos bastante, e eu achei que devia repartir com o público minha informação. Tirado de alguma dúvida, ele concordou em dar entrevista. Estava hospedado num hotel do Largo de São Francisco, ou adjacências. Assim, mal se despediu, telefonei para a redação de um jornal, e resumi o caso, encarecendo que o procurassem. Agradeceram-me, muito. Por dias, esperei ler a reportagem. Como, porém, nada saísse, perdi o meu porfio — isto é, nunca mais nada se soube a respeito do brasileiro de Santa Helena.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

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