terça-feira, 11 de abril de 2017

A jovem que não quis atravessar a rua

Observou a jovem parada na esquina, aproximou-se, solícito.
Vou ajudá-la a atravessar a rua!
Não quero atravessar coisa nenhuma.
Claro que quer. É que aqui o trânsito é infernal. Mais de dez foram atropelados nessa esquina.
Meu senhor! Estou esperando uma pessoa! Não quero atravessar a rua.
Vai atravessar! Fique calma, sei como trabalhar aqui, é o meu ponto.
Ponto?
De ação. Cada um de nós tem um ponto. Ganhei esse, tive sorte. É um belo ponto!
Ganhou o que de quem? Surtou?
Ele mostrou-se irritado. Estava tentando ajudar, era a sua missão e recebia a recusa, a rejeição, era mal interpretado. Bem que havia sido alertado. O ser humano vive uma fase ruim, ninguém quer se abrir com os outros, desconfia-se de todos os gestos. Ele via que a jovem estava ansiosa para atravessar, esperava uma oportunidade, mas os carros não davam vez, era um egoísmo só. Estacionavam para-choque com para-choque e riam de quem não conseguia passar entre eles. Outros fingiam que paravam e, quando a pessoa colocava os pés na rua, arrancavam com os pneus cantando, divertiam-se com os sobressaltos, os sustos. Certa vez, uma velha que voltava do supermercado atirou ao ar as compras, os ovos se quebraram. Desde então, ela costuma ficar por ali, à espreita, e joga ovos podres nas capotas dos carros, nos para-brisas. Quando tem a sorte de encontrar janelas abertas – coisa rara, hoje, uma vez que todos temem assaltos – joga os ovos no colo das pessoas e fica antecipando o horror pelo fedor.
Por que você é grosseira com uma pessoa que procura fazer o bem?
Você não quer fazer o bem! Quer encher o meu saco! Essa cidade anda cheia de loucos e não tem ninguém para nos defender.
Louca é você, que tenta atravessar a rua, não consegue e recusa a ajuda. Finge que não quer atravessar, para não ficar me devendo um favor. Pensa que vou pedir dinheiro. Não quero nada. Nada! Minha recompensa eu sei qual é ao fazer o bem.
Você me conhece?
Não!
Sabe onde moro? Onde vou?
Não.
Então não pode saber se quero ou não atravessar a rua.
Minha menina! É uma coisa tão fácil atravessar essa rua. Por que não enfrenta logo o problema?
Odeio que me chamem de menina! Odeio. Além disso, não existe problema. Nunca foi, nunca será. Jamais atravessarei essa rua, não quero, não vou, não vou, não vou…
Está ficando histérica. E tudo por cinco metros.
Podia ser mil quilômetros.
Não existem ruas com mil quilômetros de largura. Conhece alguma?
Estou falando em sentido figurado!
Ela não me entende e nem eu a ela”, pensou o homem, sem desanimar. Tinha sido alertado que era assim mesmo. Uma luta. Guerra a ser travada todos os dias, em todas as ruas. Humanos não compreendem humanos, nem querem entender. Qual a maneira correta de agir? Seria uma vergonha abrir o Manual na frente da jovem e consultar as regras. Ele tinha certeza de que existia um capítulo denominado “Maneiras certas para ajudar pessoas a atravessar as ruas”. Com itens precisos sobre cegos, deficientes físicos, mentais, pessoas normais, arredias, intransigentes, intolerantes, indecisas, chatas, pernósticas, petulantes, arrogantes, tímidas, insolentes, beatas. Era tão complexo o Manual, passara o mês inteiro a ler e a tentar decorar, fazia confusão, eram mais de mil páginas em papel-bíblia. A determinação era expressa: jamais consultar as normas diante dos necessitados. Indicaria insegurança, incompetência. E se corresse, por um instante, ao arbusto atrás do qual se escondia a velha que atirava ovos? No entanto, a velha era irascível. Assim que ele entrou no arbusto, ela gritou: “Fora, fora, fora, pusilânime. Vá cumprir sua tarefa, ajudar as pessoas a atravessar a rua. Faz dias que não cumpre o seu dever. Fora, fora!”. Com medo que ela atirasse um ovo podre fedorento, ele se afastou. Andou um pouco, escondeu-se no umbral de uma casa de tijolos avermelhados e, de costas para que a jovem não visse, consultou o Manual. Quatro mil páginas. Custou a encontrar o parágrafo que se referia a Relutantes. Leu uma, duas vezes para certificar-se que faria a ação correta e voltou. O Manual recomendava que poderia usar força, abusar da violência caso o relutante recusasse. Era o que faria. A jovem ia atravessar na porrada! Disposto a agarrá-la, chegou à esquina. Não a viu. Mas ouviu.
Olá, olá!
A jovem estava do outro lado da rua.
Viu? Atravessei, sem precisar de você.
Então, mentiu! Queria mesmo atravessar.
Naquela hora, não queria. Quis depois!
Minha intuição estava certa! Você não podia fazer isso.
Fiz. Você é incompetente. Perdeu a sua ação de hoje.
Maldita! Amaldiçoada sejas! Me enganou. Sabia. Sabia de tudo!
Ela riu, abriu a bolsa, exibiu triunfante um livro azul-marinho.
Segui o meu Manual. Ele é o contrário do seu!
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras Proibidas

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