domingo, 11 de setembro de 2016

Uma carona incrível

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A mais incrível carona de minha vida estava prestes a surgir; um caminhão que tinha uma plataforma de madeira atrás e cinco ou seis caras esparramados por cima; os motoristas, dois jovens agricultores loiros do Minnesota, estavam recolhendo toda e qualquer alma solitária que encontrassem por aquela estrada — formavam a mais simpática, sorridente e jovial dupla caipira que se pode imaginar, os dois de macacão, camiseta e nada mais, ambos ágeis e com pulsos grossos, e um amplo sorriso de “cuméquitá?” resplandecendo para todos os que cruzassem pelo caminho deles. Eu corri, perguntei: — Tem lugar pra mais um? — Eles disseram: — Claro, suba, tem lugar pra todo mundo.
Eu mal subira na caçamba quando o caminhão arrancou zunindo; cambaleei, um caroneiro me agarrou, e eu me sentei. Alguém me passou uma garrafa com uma bebida forte como veneno, o último gole dela. Tomei um bom trago no ar selvagem, lírico e chuvoso do Nebraska. — Iuúpii, lá vamos nós! — gritou um garoto com um chapéu de beisebol, e eles fizeram o caminhão disparar a cento e vinte quilômetros por hora, e ultrapassavam todo mundo na estrada. — A gente está neste caminhão de merda desde Des Moines. Esses caras não param jamais. Às vezes, a gente tem que gritar durante horas para que eles nos deixem dar uma mijada. Senão, a gente é obrigado a mijar no vento, e aí tem que se segurar, meu irmão, se segurar mesmo.
Olhei para a tripulação. Havia dois jovens lavradores de Dakota do Norte, com bonés de beisebol vermelhos — que é o chapéu-protótipo de todos os jovens agricultores de Dakota do Norte —, e eles iam em direção às colheitas; o velho deles os deixara cair na estrada durante o verão inteiro. Havia dois garotos urbanos de Columbus, em Ohio; jogavam futebol no time da escola, mascavam chicletes, pestanejavam, cantarolavam com os cabelos ao vento, e disseram que estavam aproveitando o verão para viajar de carona pelos Estados Unidos. — A gente está indo para Los Angeles — berraram.
O que vão fazer lá?
Porra, a gente não tem a menor ideia. Que diferença faz?
Havia ainda um sujeito alto e magro, com um olhar furtivo. — De onde você é? — perguntei. Eu estava deitado junto a ele na plataforma; não havia cercas de proteção nem nada, era impossível sentar sem ser cuspido fora. Ele se virou vagarosamente, abriu a boca e disse: — Mon-ta-na.
Finalmente, ali estava também Mississipi Gene e seu fardo. Mississipi Gene era um cara moreno e mirrado, que saltava nos trens de carga por todos os cantos do país; um vagabundo de trinta anos, mas com aparência muito mais jovem — na verdade, era quase impossível dizer com certeza sua idade real. Sentava-se sobre as tábuas corridas da caçamba, com as pernas cruzadas, um olhar sereno e distante perdido na imensidão das planícies, sem dizer uma só palavra durante centenas de quilômetros, até que, finalmente, em determinado momento, virou-se para mim e perguntou: — Para onde você está indo?...
Denver — eu disse.
Tenho uma irmã lá, mas faz muitos anos que não a vejo. — Sua fala era pausada e melodiosa. Era um sujeito paciente. Seu fardo era um alto garoto loiro de dezesseis anos, igualmente envolto em trapos, quer dizer, ambos vestiam roupas surradas de andarilhos, escurecidas pela fuligem das locomotivas, pela imundície dos vagões de carga, por incontáveis noites sob as estrelas. O garoto loiro também era do tipo silencioso, e parecia estar fugindo de alguma Coisa; a julgar pela maneira como umedecia os lábios, com um ar preocupado, sempre olhando para- a frente; é provável que seu problema fosse com os homens da lei. Montana Slim falava com os outros ocasionalmente, sempre com um sorriso insinuante e sarcástico. Eles não lhe davam bola. Slim era todo insinuações. Eu estava apreensivo com seu largo sorriso calhorda, que ele escancarava à sua frente e deixava suspenso ali, como se fosse meio abobado.
Tem algum dinheiro aí?
Porra, não tenho. Talvez só o suficiente para um trago de uísque até chegar a Denver. E você?
Sei onde conseguir.
Onde?
Em qualquer lugar. Sempre dá para arrochar alguém num beco qualquer, não é?
É verdade.
Não vacilo muito quando estou mesmo a fim de arranjar um trocado. Rumo a Montana, para ver meu velho. Vou saltar desta barca em Cheyenne e dar um jeito de subir até lá. Estes dois estão indo para Los Angeles.
Sem escala?
É isso aí, direto e sem escala. Se você está a fim de ir para L.A., acaba de conseguir uma carona.
Jack Kerouac, in On the road – Pé na estrada

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