quinta-feira, 26 de março de 2015

Pregando

Quer que lhe diga? Eu fazia aquela gente pular e exortar em altos brados o nome e a glória de Deus até todos caírem no chão, exaustos. E a alguns, batizava-os. E depois, sabe você o que eu fazia? Levava uma daquelas moças para o mato e deitava-me com ela. Era o que sempre fazia. Depois, arrependia-me e rezava, rezava, mas sem proveito. Daí a pouco ela e eu estávamos cheios do Espírito e acontecia a mesma coisa, outra vez. Pensei que tudo isso era inútil e que eu não passava dum danado dum hipócrita. Mas era sem querer.
Joad sorriu, mostrando os dentes alongados, e também os lábios.
Não tem nada como uma reunião de culto bem animada para aquecer as moças – disse ele. – Eu também já fiz isso.
Você vê – gritou. – Eu vi que tudo não passava disso. – Agitou a mão ossuda e nodosa num movimento de vaivém semelhante a uma carícia. – Então comecei a pensar: “Aqui estou eu pregando a graça divina. E eis aqui gente que obtém tanta graça que até salta e grita. Mas há quem diga que dormir com uma mulher é obra do diabo. O caso é que quanto mais graça divina uma moça obtém, mais rápido ela quer ir pro mato.”
John Steinbeck, in As vinhas da ira

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