domingo, 8 de junho de 2014

A mata


Os homens vão recuando. Levaram horas, dias e. noites, para chegar até ali. Atravessaram rios, picadas quase intransitáveis, fizeram caminhos, calçaram atoleiros, um foi mordido de cobra e ficou enterrado ao lado da estrada recém-aberta. Uma cruz tosca, o barro mais alto, era tudo que lembrava o cearense que havia caído. Não puseram o seu nome, não havia com que escrever. Naquele caminho da terra do cacau aquela foi a primeira cruz das muitas que depois iriam ladear as estradas, lembrando homens caídos na conquista da terra. Outro se arrastou com febre, mordido por aquela febre que matava até macacos. Se arrastando chegou e agora ele também recua, a febre fá-lo ver visões alucinantes. Grita para os demais:
- É o lobisomem...
Vão recuando. A princípio devagar. Passo a passo até alcançar o caminho mais largo, onde são menos numerosos os espinhos e os atoleiros. A chuva de junho cai sobre eles, encharcando as roupas, fazendo-os tremer. Diante deles a mata, a tempestade, os fantasmas. Recuam.
Agora chegam à picada, é uma corrida só, atingirão as margens do rio onde uma canoa os espera. Quase respiram aliviados. O que vai com febre já não sente a febre. O medo dá-lhe uma nova força ao corpo alquebrado.
Mas diante deles, parabélum na mão, o rosto contraído de raiva, está Juca Badaró. Também ele estava ante a mata, também ele viu os raios e ouviu os trovões, escutou o miado das onças e o silvo das cobras. Também seu coração se apertou com o grito agourento do corujão. Também ele sabia que ali moravam as assombrações. Mas Juca Badaró não via na sua frente a mata, o princípio do mundo. Seus olhos estavam cheios de outra visão. Via aquela terra negra, a melhor terra do mundo para o plantio do cacau. via na sua frente não mais a mata iluminada pelos raios, cheia de estranhas vozes, enredada de cipós, fechada nas árvores centenárias, habitada de animais ferozes e assombrações. Via o campo cultivado de cacaueiros, as árvores dos frutos de ouro regularmente plantadas, os cocos maduros, amarelos. Via as roças de cacau se estendendo na terra onde antes fora mata. Era belo. Nada mais belo no mundo que os roças de cacau. Juca Badaró, diante da mata misteriosa, sorria. Em breve ali seriam os cacaueiros, carregados de frutos, uma doce sombra sobre o solo. Nem via os homens com medo, recuando.
Quando os viu, só teve tempo de correr na sua frente, se postar na entrada do caminho de parabélum na mão, uma decisão no olhar:
- Meto bala no primeiro que der um passo...
Os homens pararam. Ficaram um instante assim, sem saber o que fazer. Atrás estava a floresta, na frente Juca Badaró disposto a atirar. Mas o que tinha febre gritou:
- É o lobisomem... - e avançou num pulo.
Juca Badaró atirou, novo raio atravessou a noite. A mata repetiu num eco o som do tiro. Os outros homens ficaram em torno do que caíra, as cabeças baixas. Juca Badaró se aproximou vagarosamente, o parabélum ainda na mão. António Vítor tina se abaixado, segurava a cabeça do ferido. A bala atravessara o ombro. Juca Badaró falou com a voz muito calma:
- Não atire para matar, só para mostrar que vocês tem que obedecer... - Apontou para um: - Vá buscar água para lavar a ferida.
Assistiu a todo o tratamento, ele mesmo amarrou um pedaço de pano no ombro do homem ferido e ajudou a levá-lo para o acampamento junto da mata. Os homens iam tremendo, mas iam. Deitaram o ferido que delirava. Na mata as assombrações estavam soltas.
- Adiante - disse Juca Badaró.
Os homens se espiavam uns aos outros. Juca suspendeu o parabélum:
- Adiante. . .
Os machados e os facões começaram a cair num ruído monótono sobre a mata, perturbando seu sono. Juca Badaró olhou na sua frente. Via novamente toda aquela terra negra plantada de cacau, roças e roças carregadas de frutos amarelos. A chuva de junho rolava sobre os homens, o ferido pedia água numa voz entrecortada. Juca Badaró guardou o parabélum.
Jorge Amado, in Terras do sem-fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário