O visconde Medardo di Terralba, em temerária
arremetida contra a ímpia artilharia de turcos, leva um tiro de canhão no
peito. O destemido mas inexperiente defensor da cristandade sofre sérias
avarias, sobrando-lhes apenas uma metade do corpo, felizmente intacta.
Graças ao entusiasmo dos médicos que o socorrem, Medardo sobrevive, embora
partido ao meio. À mutilação física do senhor de Terrralba seguem-se
conseqüências indesejáveis em seu comportamento, causando grandes desgostos
aos moradores de seus domínios. Mas quando os camponeses já estavam se
acostumando às idiossincrasias do visconde, eis que ressurge a outra
metade, para grande confusão e maior transtorno geral. Se meio visconde já
incomodava, tanta gente, o que dizer das duas metades contraditórias de
Medardo di Terralba?
Na entrevista reproduzida na apresentação deste
livro, Ítalo Calvino diz que buscou escrever uma história para divertir a
si mesmo e aos outros, e que divertir é uma das funções sociais da
literatura. Sem dúvida, atingiu o alvo em cheio: as páginas inicias, que
descrevem os horrores imaginários do campo de batalha da guerra entre
cristãos e turcos do século XVII, são hilariantes em seu humor
delirantemente macabro. Elas definem o tom impiedoso e sarcástico que
domina todo o livro e envolve quase todos os personagens. Assim, temos o
carpinteiro Pedroprego, cujas complexas forcas e elaborados instrumentos
de tortura são verdadeiras obras-primas; o doutor Trelawney, que tem pavor
de doenças e se dedica a caçar fogos-fátuos; os leprosos, que
vivem irresponsavelmente felizes numa eterna orgia; Ezequiel, o velho
calvinista que esta sempre gritando “peste e carestia”, e seu filho Esaú,
ansioso para cometer todos os pecados mortais; e, sobretudo o visconde
dimezzato, com uma metade divertidamente má e outra insuportavelmente boa,
ambas atazanando a vida de todos.
Mas a brincadeira, como sempre acontece nas obras
de Calvino, serve de véu para encobrir a discussão de temas mais sérios, e
a ironia converte-se em um convite ao leitor para que medite sobre
questões importantes da existência humana. Autor plenamente consciente de
seus objetivos e instrumentos de trabalho, ele afirmou a respeito
desse Visconde partido ao meio: “O homem contemporâneo é dividido,
mutilado, incompleto, hostil a si mesmo. Marx o chama de “alienado”,
Freud, de “reprimido”; um estado de harmonia foi perdido, aspiramos a uma
nova totalidade. Este é o núcleo ideológico-moral que eu queria conscientemente
trazer para a história”. Assim, o que está em pauta, apesar das aparências,
não é a eterna luta entre o bem e mal, mas a busca de uma integridade que
supere as mutilações impostas pela nossa sociedade. O visconde Medardo di
Terralba é o verdadeiro ancestral do homem contemporâneo.
Ítalo Calvino. O visconde
partido ao meio – tradução Nilson Moulin
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