domingo, 13 de novembro de 2011

Maria enfim em mansíssima

Maria, então, é encontro, assim como eu, no extremo correto de nossas idades. Veio magra magríssima em mansíssima. E digo-lhe:
Teu ar
É de linho.
Aragem em tuas mãos.
Ar de aragem,
No ar,
No linho de tuas mãos.
Sorri, então, falsa magra, simula os contornos do corpo então nu e diz que me ama, assim sem versos e nos eletrodos de seu linho corpo. Pego-lhe as mãos, tateio-lhe a aragem, sorvo dela, engulo-a e digo-lhe que amar é tatear e beijo-lhe com firmeza como que só a mim coubesse terminar o beijo. Depois cheiro-lhe o corpo pela nuca, seio, coxa, saliva e gozo. Vejo que tem olhos de boneca antiga, penso em compor-lhe um bolero profundamente medíocre, que fosse só dela,  em segredo anonimato. Vejo também que lhe digo amor e penso em permanência nos linhos de suas mãos. Sinto-me confortável e digo-lhe estar em paz, repito tudo, amor e paz, aferindo o que vejo, o que digo, o que cheiro, o que gosto, o que ouço.
Amar nos extremos dos sentidos.
Amar então é mudar, o corpo em linho, o ar em mãos, a aragem em linhos, o linho em mãos.

Oscar Araripe, pintor e escritor carioca, in Maria na terra de meus olhos 

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