Não sei se você já notou que não há mais fundos de quintal, como antigamente. O assunto não goza de importância nenhuma, eu sei disso, mas se formos só falar de coisas importantes, vamos quebrar a flecha das amenidades, que tanto bem nos fazem. Ora, nem sempre só de coisas sérias se fazem os momentos do cotidiano, que também pedem o refrigério das frivolidades, não é assim?
Pois de repente me dou conta, sem quê nem mais, que os tempos modernos também fizeram desaparecer os fundos de quintal. De resto nem existem mais, no sentido de outrora, aqueles quintais de bom tamanho, nunca sem um pé de qualquer coisa, quase sempre de cajarana ou de goiaba. Lá na minha terra, quase invariavelmente, era um coqueiro, que amanhecia e anoitecia festivo de graúnas.
Os fundos de quintal, de novo falo da minha terra, eram, senão nas poucas casas abastadas, de cerca viva, outras vezes de tábuas de sucupira do fundo de embarcações sem uso. Abandonadas na beira do cais. Eram os fundos de quintal propriamente chamados, que os de tijolo, com portão de tranca de madeira, não aceitavam essa denominação mais assentada às residências modestas.
Até porque os fundos de quintal eram indiscretos, com suas cercas de brechas abrindo a visão do que se passava nos interiores. De sorte que ninguém (ninguém é força de expressão) não passava pelos fundos de quintal, digo o povo macho, sem uma olhadela também indiscreta para o interior dos quintais. E havia até os conhecidos por esse costume, expostos à galhofa da cidade.
Naqueles tempos os banheiros, as mais vezes de palha de coqueiro, ficava longe da casa, porta de lona, outras vezes de tábuas de caixão de querosene. E sem prevenir-se de olhos sem respeito, as mulheres da casa quase sempre saíam nuas do banho, enroladas na toalha, ou então, só de calça e sutiã. Tinha mesmo as que saíam nuinhas. Aí, era um prato cheio para os olhos de beira de cerca.
Era o caso de uma mulherona de quartos largos e pernas de dar água na boca, e quando foi um dia fui chamado pela meninada maior, já acostumada, a ver o espetáculo. Ora se fui. E a vi daquele jeito, saindo do banho. Tudo à mostra. E deu-se que alguém viu e foi entregar-me à minha mãe. Nem falo na surra. Mas posso dizer, desculpem - é a melhor lembrança que guardo de fundos de quintal.
José Nicodemos, escritor de Areia Branca – RN, in Jornal de Fato, de 05/11/2011
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