sexta-feira, 4 de abril de 2025

IA

V ida Besta, de Galvão Bertazzi

Minha sombra

De manhã a minha sombra
com meu papagaio e o meu macaco
começam a me arremedar.
E quando eu saio
a minha sombra vai comigo
fazendo o que eu faço
seguindo os meus passos.

Depois é meio-dia.
E a minha sombra fica do tamaninho
de quando eu era menino.
Depois é tardinha.
E a minha sombra tão comprida
brinca de pernas de pau.

Minha sombra, eu só queria
ter o humor que você tem,
ter a sua meninice,
ser igualzinho a você.
E de noite quando escrevo,
fazer como você faz,
como eu fazia em criança:
Minha sombra
você põe a sua mão
por baixo da minha mão,
vai cobrindo o rascunho dos meus poemas
sem saber ler e escrever.

Jorge de Lima, em Melhores poemas 

1561 – Nova Valência do Rei

Aguirre

No centro do palco, machado na mão, aparece Lope de Aguirre rodeado de dezenas de espelhos. O perfil do rei Felipe II se recorta, negro, imenso, sobre o pano de fundo.
LOPE DE AGUIRRE falando ao público. Caminhando nossa derrota, e passando por mortes e desventuras, tardamos mais de dez meses e meio em chegar à boca do rio das Amazonas, que é rio grande e temeroso e mal afortunado. Depois, tomamos posse da ilha Margarita. Ali cobrei em forca ou porrete vinte e cinco traições. E depois, abrimos passo em terra firme. Tremem de medo os soldados do rei Felipe! Logo sairemos da Venezuela... Logo entraremos triunfantes no reino do Peru! (Dá a volta e enfrenta sua própria imagem, de dar pena, em um dos espelhos.) Eu fiz de dom Fernando de Guzmán rei no rio das Amazonas! (Ergue o machado e parte o espelho.) Eu o fiz rei e eu o matei! E o capitão de sua guarda e o tenente-general e quatro capitães! (Enquanto fala, vai despedaçando todos os espelhos, um atrás do outro). E seu mordomo e seu capitão capelão! E uma mulher que estava contra mim, e um comendador de Rodas, e um almirante... e seis outros aliados!... E nomeei de novo capitães e sargento-mor! E quiseram me matar e os enforquei! (Pulveriza os últimos espelhos.) Matei todos! Todos! (Senta-se, muito sufocado, no chão coberto de cristais. Nas mãos, vertisal, o machado. O olhar perdido. Longo silêncio.) Em minha mocidade passei o oceano indo às terras do Peru, por valer mais com a lança na mão... Um quarto de século!... Mistérios, misérias... Eu cavei cemitérios arrancando para outros pratarias e xícaras de ouro... Montei forca no centro de cidades não nascidas... A cavalo, persegui multidões... Os índios fugindo apavorados através das chamas. Cavaleiros de pomposo título e emprestadas roupas de seda, filhos de sei lá quem, filhos de ninguém, agonizando na selva, raivosos, mordendo terra, o sangue envenenado pelos dardos... Na cordilheira, guerreiros de armadura de aço atravessados de lado a lado por vendavais mais violentos que qualquer tiro de arcabuz... Muitos encontraram sepultura no ventre dos abutres.... Muitos ficaram amarelos como o ouro que buscavam... A pele amarela, os olhos amarelos.... E o ouro... (Deixa cair o machado. Abre com dificuldade as mãos, que são como garras. Mostra as palmas.) Desvanecido... Ouro que virou sombra ou orvalho... (Olha com estupor. Fica mudo, longos momentos. De repente, se levanta. De costas para o público, ergue o punho seco e torto contra a enorme sombra de Felipe II, projetada, a barba em ponta, no pano de fundo.) Poucos reis vão ao inferno, porque poucos sois! (Caminha até o pano de fundo arrastando sua perna manca.) Ingrato! Eu perdi meu corpo defendendo-te contra os rebeldes do Peru! Te entreguei uma perna e um olho e estas mãos que pouco me servem! Agora, o rebelde sou eu! Rebelde até a morte, por tua ingratidão! (Encara o público, desembainha a espada.) Eu, Príncipe dos rebeldes! Lope de Aguirre o Peregrino, Ira de Deus, Caudilho dos feridos! Não te necessitamos, rei da Espanha! (Se acendem luzes coloridas sobre vários pontos do palco.) Não deixaremos com vida ministro teu! (Se atira, com a espada na mão, contra um facho de luz avermelhada.) Auditores, governadores, presidentes, vice-reis! Guerra de morte contra os alcaguetes cortesãos! (O facho de luz continua em seu lugar, indiferente à espada que o corta.) Usurpadores! Ladrões! (A espada fere o ar.) Vós destruístes as Índias! (Avança contra o facho de luz dourada.) Letrados, tabeliães, caga-tintas! Até quando haveremos de sofrer vossos roubos nestas terras por nós ganhadas? (As cuteladas atravessam um facho de luz branca.) Frades, bispos, arcebispos! Vós não quereis enterrar nenhum índio pobre! Por penitência tens na cozinha uma dúzia de moças! Traficantes! Traficantes de sacramentos! Ladrões! (E assim continua o inútil torvelinho da espada contra os fachos de luz imóvel, que se multiplicam no palco. Aguirre vai perdendo as forças e parece cada vez mais solitário e pequenino.)

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Do Fundo Do Meu Coração | Erasmo Carlos

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado. A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vou mais ser: “Eu me exprimo, logo sou.” Será: “Eu sou, logo sou.”

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O Apanhador no Campo de Centeio


4

Não tinha nada de especial para fazer, por isso acompanhei o Stradlater até o banheiro, para bater papo enquanto ele fazia a barba. Éramos as únicas pessoas no banheiro, porque todo mundo ainda estava no jogo. Estava quente como o diabo, as janelas todas embaciadas. Havia umas dez pias, encostadas na parede. Stradlater ocupava a do centro; sentei numa, ao lado dele, e comecei a abrir e fechar a torneira de água fria um hábito nervoso que eu tenho. Stradlater assoviava a “Canção da Índia” enquanto fazia a barba. Tinha um desses assobios agudos pra chuchu, que praticamente não estão nunca afinados, e escolhia sempre uma dessas músicas difíceis até para um bom assobiador, como a “Canção da Índia”, ou “Assassinato na Décima Avenida”. Era realmente capaz de esculhambar qualquer música.
Há pouco eu disse que o Ackley era um porcalhão nos seus hábitos pessoais. Pois bem, o Stradlater também era, embora de um modo diferente. Stradlater era mais um desleixado secreto. Estava sempre com uma aparência de limpeza, mas se a gente fosse ver o aparelho de barbear que ele usava... Estava sempre enferrujado pra diabo, cheio de sabão e fiapos de barba, uma imundície. Ele nunca limpava aquilo. Quando acabava de se aprontar, ele parecia sempre muito asseado, mas para quem o conhecia como eu, era mesmo um porcalhão secreto. E a única razão por que se emperiquitava todo era porque estava perdidamente apaixonado por si próprio. Pensava que era o sujeito mais bonito do Hemisfério Ocidental. De fato, era bonitão, isso eu admito. Mas era mais o tipo de sujeito bonito que, se os pais da gente vissem o retrato dele no Álbum do Colégio, perguntariam logo “Quem é esse rapaz?” Em outras palavras, ele era mais o bonitão tipo Álbum de Colégio. Eu conhecia uma porção de sujeitos no Pencey mais bonitos que o Stradlater, mas eles não ficariam bonitos no Álbum do Colégio. Ia parecer que eles tinham nariz grande ou orelhas de abano. Já tive essas experiências muitas vezes.
De qualquer maneira, lá estava eu, sentado na pia ao lado de onde o Stradlater se barbeava, abrindo e fechando a torneira sem parar. Estava ainda com o chapéu de caça vermelho na cabeça, a aba virada para trás e tudo. Eu vibrava mesmo com aquele chapéu.
Êi – disse Stradlater – quer me fazer um grande favor?
Que favor? – respondi. Sem muito entusiasmo. Ele estava sempre pedindo à gente para lhe fazer um grande favor. Basta um sujeito ser bonitão, ou pensar que é o cara mais bacana do mundo, e está sempre pedindo aos outros que lhe façam um grande favor. Só porque eles se acham fabulosos, pensam que todo mundo também os acha fabulosos, e que a gente está doido para fazer-lhes um favor. De certo modo, até que é engraçado.
Você vai sair hoje de noite? - perguntou.
Talvez sim, talvez não. Sei lá. Por quê?
Eu tenho que ler ainda umas cem páginas para a aula de História na segunda-feira. Que tal você escrever uma redação para mim? Vou me estrepar todo se não entregar a redação na segunda-feira. Como é, topa?
Era mesmo um bocado irônico, no duro.
Eu é que vou ser expulso dessa merda desse colégio, e você é que me pede para escrever uma porcaria duma redação.
É, eu sei. Mas o negócio é que vou me danar todo se não entregar o troço. Você é meu chapa e não vai me deixar na mão, não é?
Não respondi logo. Um pouco de suspense é bom para um filho da mãe como o Stradlater.
Sobre o que é? – perguntei.
Qualquer coisa. Qualquer coisa descritiva. Um quarto, uma casa, um lugar em que você viveu ou coisa que o valha, você sabe. O importante é ser descritivo pra chuchu –. Deu um baita dum bocejo enquanto falava. Isso é o tipo da coisa que me deixa aporrinhado. Um sujeito bocejar bem na hora que está pedindo à gente um grande favor. – Só não quero que você faça um troço muito caprichado – continuou. – Esse filho da puta desse Hartzell acha você o máximo em Inglês e sabe que você é meu companheiro de quarto. Por isso, vê lá se você vai botar todas as vírgulas no lugar e tudo.
Isso é outro negócio que me aporrinha um bocado. A gente escrever bem e o sujeito começar a falar em vírgulas. Era o que o Stradlater estava fazendo. Queria que se pensasse que as redações dele eram umas drogas só porque botava todas as vírgulas no lugar errado. Nisso ele era um pouco como o Ackley. Uma vez sentei ao lado do Ackley num jogo de basquete. Nós tínhamos um sujeito infernal no time, o Howie Coyle, que encestava lá do meio do campo sem a bola tocar na tabela nem nada. Ackley passou a droga do jogo todo dizendo que o Coyle tinha um corpo perfeito para jogar basquete. Puxa, que raiva que eu tenho disso.
Acabei me cansando de ficar sentado naquela pia, e aí me levantei e comecei a sapatear, só de farra. Não sei sapatear nem nada, mas o piso do banheiro era de pedra e por isso dava um som perfeito. Comecei a imitar um desses sujeitos do cinema, num desses musicais. Odeio o cinema como se fosse um veneno, mas me divirto imitando os filmes. O Stradlater me olhava pelo espelho, enquanto se barbeava. Tudo de que eu preciso é de uma plateia. Sou um exibicionista.
Sou o filho da droga do Governador – eu disse. Estava me espalhando, sapateando pelo banheiro todo. - Ele não quer que eu seja sapateador. Quer que eu vá para Oxford. Mas o sapateado está no meu sangue. (Stradlater riu. Até que o senso de humor dele não era dos piores.) – Hoje é a noite da estreia do Ziegfeld Follies. (A essa altura eu já estava ficando sem fôlego, não tenho resistência nenhuma.) - O artista principal não pode entrar em cena. Está bêbado como um gambá. Então, sabe quem é que eles escolhem para substituí-lo? Eu, naturalmente. O filhinho da droga do Governador.
Onde é que você arranjou esse troço? – perguntou Stradlater. Referia-se a meu chapéu, era a primeira vez que o via.
Eu já estava mesmo sem fôlego, por isso parei com a brincadeira. Tirei o chapéu e o olhei talvez pela nonagésima vez.
Comprei em Nova York hoje de manhã. Um dólar. Gosta dele?
Stradlater acenou com a cabeça: Legal respondeu. Só para me agradar, porque foi logo dizendo: Escuta, você vai escrever aquela redação pra mim? Quero saber.
Se tiver tempo, escrevo. Se não tiver, não escrevo –. Fui me sentar outra vez na pia ao lado da dele. – Com quem você vai sair? – perguntei. – Com a Fitzgerald?
Não, claro que não! Já te disse, acabei com aquela galinhona.
É? Então dá ela pra mim, sem brincadeira. Ela é o meu tipo.
Pode ficar... Ela é muito velha pra você.
De repente – na verdade sem nenhuma razão, a não ser que estava com vontade de fazer movimento – me deu vontade de pular da pia e dar uma gravata no Stradlater. Caso alguém não saiba, uma gravata é um golpe de jiu-jitsu em que a gente pega um sujeito pelo pescoço e pode estrangulá-lo se quiser. E foi o que fiz. Aterrissei em cima dele como se fosse uma pantera.
Para com isso, Holden, que droga! – disse Stradlater. Ele não estava com vontade de brincar, estava fazendo a barba e tudo. – Que é que há? Tá querendo me degolar?
Mas não o soltei. Tinha encaixado uma gravata bem apertada. Tente livrar-se deste golpe magistral.
Será possível! – foi o que ele disse. Pôs o barbeador na pia e, de repente, jogou os braços para cima e conseguiu sair do golpe. Ele era um sujeito forte pra burro e eu sou um bocado fraco. – Agora vê se para com essa titica –. Disse isso e começou a se barbear todo outra vez. Ele sempre se barbeava duas vezes, pra ficar bem bonito. Com aquela nojeira daquele barbeador.
Se não é com a Fitzgerald, com quem você vai sair? – perguntei. Sentei de novo na pia. – Aquela belezinha da Phylis Smith?
Não, era para ser, mas acabou dando uma confusão danada. Afinal fiquei com a companheira de quarto da namorada do Bud Thaw... Êi, ia quase esquecendo. Ela conhece você.
Quem me conhece? - perguntei.
Essa garota com quem vou sair.
É? Qual é o nome dela? - perguntei. Estava um bocado interessado.
Deixa eu me lembrar... Ah, Jean Gallagher.
Puxa, quase tive um troço quando ele disse o nome.
Jane Gallagher – repeti. Cheguei até a me levantar da pia quando ele disse quem era. Quase caí duro. – Se conheço! Ela praticamente morou ao lado da minha casa, nas férias de verão há dois anos. Tinha um baita dum cachorrão Dobermann. Foi por causa dele que eu a conheci. O cachorro dela costumava vir no nosso...
Você tá bem na minha luz, Holden, que porcaria. Será que você tem que ficar postado bem aí?
Puxa, que eu estava excitado. No duro mesmo.
Onde é que ela está? No Anexo?
É.
Como é que ela falou em mim? Em que colégio que ela está? Tinha me dito que talvez fosse para o Shipley. Pensei que tivesse ido. Como foi que ela falou em mim?
Eu estava mesmo excitado pra chuchu.
Sei lá, ora. Levanta daí, tá? Você está bem em cima da minha toalha - disse ele. Eu estava sentado em cima da porcaria da toalha dele.
Jane Gallagher – repeti. Não conseguia vencer minha surpresa. Vejam só, logo quem.
A essa altura o Stradlater estava pondo Vitalis no cabelo. Meu Vitalis.
Ela estuda dança – continuei. – Ballet e tudo. Costumava treinar umas duas horas todo dia, mesmo quando estava o maior calor. Ela tinha medo de ficar com as pernas feias – assim grossas e tudo. Eu costumava jogar damas com ela o tempo todo.
Você costumava jogar o quê com ela o tempo todo?
Damas.
Damas! Essa é a maior!
É. Ela nunca mexia nas damas. Toda vez que ela fazia uma dama, deixava na última casa. Nunca usava nenhuma, só porque gostava de ver todas as damas enfileiradas nas últimas casas.
Stradlater não disse nada. Pouca gente se interessa por esse tipo de coisa.
A mãe dela era sócia do mesmo clube que nós – continuei. – De vez em quando eu trabalhava de caddy, só para ganhar algum dinheirinho. Eu trabalhei de caddy para a mãe dela umas duas vezes. Nunca vi ninguém jogar golfe tão mal, ela costumava fazer nove buracos numas cento e setenta tacadas.
Stradlater mal escutava. Estava penteando suas belas melenas.
Tenho que ir lá e dar um abraço nela.
Por que não vai logo?
Já vou, daqui a pouco.
Começou a repartir o cabelo todo outra vez. Ele levava uma hora se penteando.
A mãe dela tinha se divorciado do pai. Casou outra vez com um beberrão. Um cara magricela, de perna cabeluda. Me lembro dele. Andava de calção o tempo todo. Jane disse que ele escrevia para o teatro ou uma porcaria qualquer dessas, mas a única coisa que via ele fazer era beber como uma esponja e escutar tudo que era programa de mistério no rádio. E ainda costumava andar pela casa nu em pelo. Com a Jane por lá e tudo.
É? – perguntou Stradlater. Isso realmente interessava a ele. Esse troço do porrista andar nu pela casa, com a Jane por lá. O filho da mãe só pensava em sexo.
Ela teve uma infância miserável. Sem brincadeira.
Mas isso já não interessava ao Stradlater. Só ligava mesmo se o assunto fosse sexo.
Veja só, Jane Gallagher –. Não conseguia tirá-la da minha cabeça. Não conseguia mesmo. – Tenho que ir lá e pelo menos dar um abraço nela.
Por que é que você não vai logo, em vez de ficar aí dizendo que vai?
Fui até a janela, mas não se via nada do lado de fora, estava toda embaciada por causa do calor do banheiro. - Não estou com vontade de ir agora respondi. E não estava mesmo. A gente tem que estar no estado de espírito propício para fazer um troço desses. Pensei que ela tivesse ido para o Shipley . Fiquei andando pelo banheiro um bocado. Não tinha outra coisa para fazer. Ela gostou do jogo? perguntei.
Acho que gostou. Não sei.
Ela te contou que nós costumávamos jogar damas o tempo todo?
Não sei. Mas puxa, mal me encontrei com ela.
Ele tinha acabado de pentear seus maravilhosos cabelos e estava guardando aquela nojeira de barbeador.
Escuta, dá lembranças minhas a ela, tá bom?
Tá bem – respondeu, mas eu sabia que provavelmente não daria coisa nenhuma. Um sujeito como o Stradlater é incapaz de dar lembranças da gente a quem quer que seja.
Voltou para o quarto, mas eu fiquei ainda um pouco pelo banheiro, pensando na Jane. Afinal voltei também para o quarto.
Quando cheguei, Stradlater estava dando o laço na gravata, em frente ao espelho. Passava metade da vida dele em frente de um espelho. Sentei na minha poltrona e fiquei algum tempo apreciando o cretino.
Ei – eu disse – não diz a ela que eu fui expulso, tá bom?
Está certo.
Isso era uma coisa boa no Stradlater. A gente não tinha que explicar cada merdinha a ele, como tinha de fazer com o Ackley. Acho que, principalmente, porque ele não estava nunca interessado. Essa é que era a razão. Com o Ackley era diferente. Ackley era um filho da mãe dum metido.
Stradlater vestiu meu paletó novo.
Opa, vê lá se vai me esculhambar o paletó todo. Só usei ele duas vezes.
Pode deixar que eu não vou não. Onde é que estão a droga dos meus cigarros?
Em cima da escrivaninha –. Ele nunca sabia onde tinha deixado nada. – Embaixo do cachecol –. Pôs os cigarros no bolso do paletó – no bolso do meu paletó.
De repente, só pra variar, puxei para a frente a aba do meu chapéu de caça. Estava começando a ficar meio nervoso, assim de repente. Eu sou um sujeito um bocado nervoso.
Escuta, onde é que vocês vão hoje de noite? – perguntei. – Já marcaram?
Sei lá. Nova York, se der tempo. Ela tem que estar de volta às nove e meia, veja só.
Tá bem – respondeu, mas eu sabia que provavelmente não daria coisa nenhuma. Um sujeito como o Stradlater é incapaz de dar lembranças da gente a quem quer que seja.
Voltou para o quarto, mas eu fiquei ainda um pouco pelo banheiro, pensando na Jane. Afinal voltei também para o quarto.
Quando cheguei, Stradlater estava dando o laço na gravata, em frente ao espelho. Passava metade da vida dele em frente de um espelho. Sentei na minha poltrona e fiquei algum tempo apreciando o cretino.
Ei – eu disse – não diz a ela que eu fui expulso, tá bom?
Está certo.
Isso era uma coisa boa no Stradlater. A gente não tinha que explicar cada merdinha a ele, como tinha de fazer com o Ackley. Acho que, principalmente, porque ele não estava nunca interessado. Essa é que era a razão. Com o Ackley era diferente. Ackley era um filho da mãe dum metido.
Stradlater vestiu meu paletó novo.
Opa, vê lá se vai me esculhambar o paletó todo. Só usei ele duas vezes.
Pode deixar que eu não vou não. Onde é que estão a droga dos meus cigarros?
Em cima da escrivaninha –. Ele nunca sabia onde tinha deixado nada. – Embaixo do cachecol –. Pôs os cigarros no bolso do paletó – no bolso do meu paletó.
De repente, só pra variar, puxei para a frente a aba do meu chapéu de caça. Estava começando a ficar meio nervoso, assim de repente. Eu sou um sujeito um bocado nervoso.
Escuta, onde é que vocês vão hoje de noite? – perguntei. – Já marcaram?
Sei lá. Nova York, se der tempo. Ela tem que estar de volta às nove e meia, veja só.
Não gostei do jeito com que ele disse isso, e aí falei: É porque ela não sabia que você era um cara tão bonito, tão cheio de charme. Se ela soubesse, teria arranjado um jeito de poder voltar às nove e meia da manhã.
Isso mesmo – ele disse. Não era muito fácil aporrinhá-lo. Era vaidoso demais. – Agora, sem brincadeira, faz aquela redação pra mim –. Já tinha vestido o casaco e estava pronto para sair. – Vê se não capricha demais nem nada, é só fazer o troço bem descritivo, tá?
Não respondi. Não estava com vontade nenhuma de responder. Tudo que disse foi: Pergunta a ela se ainda deixa as damas nas últimas casas.
Tá bem – ele disse, mas eu sabia que não ia perguntar nada. – Até logo – e disparou do quarto.
Fiquei por lá, sentado, ainda uma meia hora depois que ele saiu. Sentado na minha poltrona, sem fazer nada. E pensando na Jane, e em Stradlater saindo com ela e tudo. Fui ficando cada vez mais nervoso. É porque o filho da mãe do Stradlater só pensava em sexo.
De repente, Ackley deu as caras outra vez, atravessando as cortinas do chuveiro, como sempre. Pela primeira vez, em toda a minha vida, tive realmente prazer em vê-lo. Afastou meus pensamentos de outras coisas.
Ele ficou zanzando por ali até a hora do jantar, falando sobre todos os sujeitos no Pencey de quem ele tinha raiva e espremendo uma baita espinha no queixo. E nem usava o lenço. Para dizer a verdade, acho até que o sacana nem tinha lenço. Pelo menos, nunca vi ele usar nenhum.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

quinta-feira, 3 de abril de 2025

O impagável Quino

A ilha

Nos quatro bancos de cimento
da ilha do Parque estão postados
com o maior comedimento
quatro casais de namorados.

Há nas ilhas sempre o convite
a idílios sem falsos recatos,
mas aqui se traça o limite
que separa intenções e atos.

Os casais se entreolham, discretos,
esperando que um deles ouse
libertar instintos inquietos,
acabando com a falsa pose.

Ninguém se atreve a dar a senha
das carícias que sonham ser.
Grossa cortina de estamenha
vela o arrepio de viver.

Tão leve, o dia! O verde, o esquilo,
céu autorizativo, cúmplice…
Mas vê-se bem que tudo aquilo
é cenário de jogo dúplice.

Perde amor mais uma parada
nesta Citera provincial.
Tarde. Fecha-se o Parque. Nada
acontece de bem ou mal.

Carlos Drummond de Andrade, em Boitempo – Esquecer para lembrar 

O deslizamento da paixão

Sua vida afetiva seguia o ritmo das rotinas do dia a dia, sem altos e baixos, cada dia igual ao outro, uma monotonia tranquila; a paixão dos inícios havia muito já se extinguira, já não se olhavam nos olhos, já não se diziam “eu te amo”. Corria a relação empurrada pela inércia.
Sua companheira era separada. Ele vivia na casa dele, ela na casa dela, e de vez em quando se encontravam – um arranjo que tem a vantagem de evitar as irritações que inevitavelmente acontecem quando os dois moram na mesma casa.
De vez em quando ele se perguntava sobre as razões para continuarem juntos, e a única resposta que obtinha era: preguiça – separar dá muito trabalho. É preciso razões muito fortes para haver separações. Uma delas é a relação haver apodrecido, ou pelas brigas ou pela indiferença. A outra é quando um deles se apaixona por um terceiro.
Nos meus tempos de psicanalista, quando algum paciente me comunicava que iria se separar, eu fazia a pergunta:
Por que você vai se separar? — E explicava: — Se é porque a relação está podre, vá em frente. Relação podre, não há terapia de casal que a conserte. Mas, se é porque está possuído por um surto de paixão, é melhor não se separar. Porque corre-se o risco de se separar para descobrir, depois de poucas semanas, que tudo está igual. O apaixonado não consegue desembarcar de si mesmo. Vem então o desencanto. E com ele a saudade do lar antigo. E a memória, tocada pelo desencanto, começa a fazer das suas. Ela se esquece de tudo que de ruim havia e só se lembra das coisas bonitas... E vem o desejo de voltar...
Aconteceu, entretanto, que, nos caminhos acidentais da vida, aquele homem encontrou uma mulher pela qual se apaixonou. Ficou decidido a deixar a companheira. Mas não queria magoá-la. Queria safar-se da relação sem sentimentos de culpa. Imaginou então uma mentira. Chegaria para ela e lhe diria:
Meu bem, nossa relação não tem sido boa, especialmente para você. Tenho sido um mau companheiro. E tenho estado a observá-la, por vezes um olhar perdido... Por onde andará a sua alma? E me vem a ideia de que talvez você tenha saudades do seu marido e queira voltar... Não seria sábio a gente dar um tempo para a nossa relação?
E foi isso que ele fez. Porém, dita a mentira, foi isto que a sua mulher lhe respondeu:
Mas como você é sensível! Como é que percebeu?
Ah, que felicidade! Ela estava mesmo planejando abandoná-lo para voltar para o marido! Podia então entregar-se à nova paixão sem sentimentos de culpa!
Isso seria o lógico. Mas não foi isso que aconteceu. Ao ouvir as palavras da companheira, ele instantaneamente se esqueceu da nova paixão e ficou dilacerado de amor pela mulher que o deixava.
Isso eu não consigo entender, que a paixão possa deslizar com tanta rapidez de um objeto para outro. Como explicar essa transformação absurda e imediata?
A única explicação que me vem é aquela de Milan Kundera, ao explicar o súbito amor que Tomas sentiu por Tereza. Ele já estivera com uma infinidade de mulheres. Todas lhe deram prazer. Nenhuma o fizera sentir amor. Nas suas fantasias, elas eram caças que ele perseguia em sua corrida pelo prazer. Mas com Tereza algo diferente aconteceu. Essa imagem, sempre igual, foi perturbada. Algo se insinuou nessa trama que a fez ser diferente de todas as demais. Ela chegara à casa dele doente, febril. Ajoelhado à sua cabeceira, “ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas”. O seu amor por Tereza tinha a ver com essa imagem. Ele amou Tereza porque amou a criança na cesta sobre as águas.
Amamos os símbolos que vemos escritos em alguma parte do corpo da pessoa amada. O amor pertence à ordem da poesia. Por isso Nietzsche tentava decifrar o segredo do amor de Breuer por Anna O. fazendo-lhe a pergunta: “Qual é o sentido?”. Qual é a imagem que mora no corpo de Anna O.? Como Tomas, Breuer devia estar apaixonado por uma imagem. Que imagem era? Rilke, pensando na pessoa amada, via as estrelas: “Não se origina em vós, estrelas, o prazer que o amante respira no rosto da amada? A compreensão profunda de sua face pura, não a tomou ele das constelações tranquilas?”.
Ao contar a mentira para a sua companheira, aquele homem imaginava uma cena: ele partindo de trem para a nova amada. Sua companheira ficava sozinha na plataforma. O rosto dele era alegre. O dela era triste. Mas o que a sua companheira lhe disse inverteu a cena: ela partia de volta para o marido e lhe dava adeus, da janela do trem. Ele ficava. O seu rosto estava triste. Na sua fantasia, ele era uma criança abandonada, sozinha, na plataforma vazia da estação…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

Tull


Anse continua a esfregar os joelhos. Seu poncho está desbotado; em um joelho, um remendo de sarja cortado de uma calça domingueira já está reluzente de tanto uso. “Não gosto disto, nem um pouco”, ele diz.
É preciso a gente antecipar as coisas”, eu digo. “Mas, de qualquer forma, não haverá mal algum.” “Ela quer partir imediatamente”, ele diz. “E Jefferson não fica nada perto.” “Mas as estradas estão boas agora”, eu digo. Além disso, vai chover esta noite. E os parentes dele estão enterrados em New Hope, a menos de cinco quilômetros de distância. Mas é próprio dele ter casado com uma mulher que nasceu a um dia inteiro de viagem e que morre antes dele.
Ele olha a plantação, esfregando os joelhos. “Não gosto nada disso”, diz. “Voltarão com tempo de sobra”, eu digo. “Se fosse você, não me preocuparia.” “Serão três dólares”, diz. “Talvez não precisem voltar a toda pressa”, eu digo. “Espero que não.” “Ela está se acabando”, diz. “Não pensa em outra coisa.” Sem dúvida, a vida das mulheres é dura. De algumas mulheres. Lembro que mamãe chegou até os setenta e poucos. Ocupada o dia inteiro, chovesse ou fizesse sol; não caiu de cama um só dia, desde que lhe nasceu o último filho, até que, um dia, pareceu olhar em volta, foi apanhar a camisola rendada que tinha há quarenta e cinco anos e nunca havia tirado da arca, vestiu-a, estirou-se na cama e, puxando o cobertor, fechou os olhos. “Agora vocês todos cuidem de Pai o melhor que puderem”, disse ela. “Não aguento mais.” Anse esfrega as mãos nos joelhos. “Deus provê”, diz. Podemos ouvir a serra e o martelo de Cash, no oitão da casa, É verdade. Nunca ninguém disse nada mais verdadeiro. “Deus provê”, repito. O rapaz sobe a colina. Traz um peixe quase tão comprido quanto ele. Atira-o ao chão e resmunga: “Ahn”, e cospe, por cima do ombro, como um homem. Um peixe quase do seu tamanho. “Que diabo é isto?”, digo. “Um peixe-porco? Onde o pegou?” “Perto da ponte”, ele diz. Vira o peixe, e a parte de baixo está grudada de poeira, e o olho fechado intumesceu sob a poeira. “Pretende deixá-lo aí mesmo?”, diz Anse. “Vou mostrar a Mãe”, diz Vardaman. Olha para a porta. Podemos ouvir a conversa trazida pela corrente de ar. Também ouvimos Cash, batendo nas tábuas. “Agora ela tem visitas”, diz. “É o meu pessoal”, digo. “Também gostarão de ver o peixe.” Ele não diz nada, observando a porta. Depois, volta a olhar o peixe tombado no pó. Vira-o com o pé e, com o dedo grande do pé, comprime o olho saltado. Anse mira a plantação. Vardaman olha o rosto de Anse, depois a porta.
Volta-se, avançando para o canto da casa, quando Anse e chama sem olhar ao redor. “Limpe o peixe”, diz Anse.
Vardaman para. “E por que Dewey Dell não o limpa?” “Limpe o peixe, você”, diz Anse.
Ora, Pai”, diz Vardaman.
Limpe-o, você mesmo”, diz Anse. Não olha ao redor. Vardaman volta e apanha o peixe. O peixe escorrega-lhe das mãos, sujando-o de lama, e cai ao chão, emporcalhando-se novamente; de boca aberta, olhos protuberantes, esconde-se no pó, como se tivesse vergonha de estar morto, como se tivesse pressa de ocultar-se outra vez. Vardaman pragueja contra ele. Pragueja como um adulto, em pé, com o peixe entre as pernas. Anse não olha ao redor. Vardaman apanha novamente o peixe. Rodeia a casa, levando-o nos braços como quem carrega uma braçada de lenha, e a cabeça e o rabo do peixe saem pelos lados. Quase do tamanho de Vardaman.
Os punhos de Anse ultrapassam as mangas: nunca o vi, em toda a minha vida, com uma camisa que parecesse sua. Parece até que Jewel lhe dá as camisas que vão ficando velhas. Mas a camisa não é de Jewel. Ele tem os braços compridos e o corpo espigado. E. além do mais, não há mancha de suor. Pode-se dizer, sem medo de errar, que elas não pertenceram a mais ninguém, salvo Anse. Seus olhos, estendidos além da plantação, parecem dois carvões queimados fixos no rosto.
Quando a sombra da tarde atinge os degraus, ele diz: “São cinco horas.” Assim que me levanto, Cora aparece à porta: diz que chegou a hora de irmos embora. Anse procura os sapatos. “Ora, Mr. Bundren”, diz Cora, “não se levante agora.” Ele calça os sapatos, com dificuldade, o que sempre lhe acontece, pois pensa que não tem forças para nada, mas, assim mesmo, insiste. Quando entramos no corredor, ouvimos os sapatos arrastarem-se no chão como se fossem de ferro. Dirige-se à porta do quarto onde ela está, piscando os olhos, como quem espera encontrá-la de pé, talvez numa cadeira ou talvez varrendo o chão, e olha, porta adentro, com aquela sua atitude de surpresa com que sempre a olhou, e sempre a encontra na cama, todas as vezes, e Dewey Dell ainda maneja o leque. Ele para ali, como se não quisesse mover-se, ou coisa que o valha.
Bem, acho que é melhor a gente se apressar”, diz Cora. “Tenho de dar de comer às galinhas.” Além disse, vai chover. Nuvens como essas não enganam, e o algodão recebe todos os dias as bênçãos do Senhor. Mais um problema para ele. Cash ainda aplaina as tábuas. “Se é que não precisam de nós...”, diz Cora.
Anse nos conhece”, eu digo. Anse não nos olha. Olha ao redor, piscando, naquela sua maneira surpreendida, como se fosse a primeira vez, e, ainda mais, como se a sua surpresa o assombrasse. Ah, se Cash trabalhasse com o mesmo empenho no meu celeiro. “Eu disse a Anse que provavelmente não haverá necessidade de nada”, digo. “Pelo menos, espero que não.” “Ela não pensa em outra coisa”, diz ele. “Acho que está decidida a ir.” “É o que nos espera, a todos nós”, diz Cora. “Que Deus não nos abandone.” “Eu me referia àquele milho”, digo. E volto a garantir-lhe que o ajudarei, estando ela doente e tudo isso. Como a maior parte das pessoas desta região, já o ajudei tanto que não posso parar agora. “Queria colher o milho hoje”, ele diz. “Mas parece que não consigo pensar em nada.” “Talvez ela aguente até você recolher o milho”, cru digo. “Deus queira”, diz Cora, Ah, se Cash trabalhasse assim, com todo o cuidado, no meu celeiro. Ele ergue a vista quando passamos. “Não sei se posso trabalhar para você esta semana”, diz. “Não ha pressa”, digo. “Vá quando puder.” Subimos na carroça. Cora põe a caixa com os bolos no colo. É certo que vai chover. “Não sei o que vai ser dele”, diz Cora. “Juro que não sei.” “Pobre Anse”, digo. “Ela forçou-o a trabalhar durante trinta anos. Acho que está cansada.” “E tenho a impressão que ela o perseguirá por mais trinta anos”, diz Kate. “Se não for ela, Anse arranjará outra_ antes da colheita do algodão.” “Creio que, agora, Cash e Darl podem casar”, diz Eula. “Esse pobre rapaz”, diz Cora. “Esse pobrezinho.” “E que me diz de Jewel?”, diz Kate. “Também pode casar”, diz Eula. “Uhm”, diz Kate. “Acho que ele quer. Acho que sim. Mas existem por aqui muitas moças que não gostariam de ver Jewel amarrado. Bem, elas não precisam se preocupar.” “Puxa, Kate”, diz Cora. A carroça começa a chiar. “O pobrezinho”, diz Cora.
Sem dúvida vai chover esta noite. Sim, senhor. Uma carroça que chia é sinal de tempo excessivamente seco. Especialmente quando se trata de uma Birdsell*. Mas dá-se um jeito. Tenho certeza.
Ela devia ficar com os bolos, já que fez a encomenda”, diz Kate.

*Marca de carroças e charretes. (N. do T.)

William Faulkner, em Enquanto agonizo

Cabidela | Seu Pereira e Coletivo 401

O Curioso Caso de Benjamin Button

VI

Quando, passados seis meses, o compromisso de Miss Hildegarde Moncrief para com Mr. Benjamin Button foi dado a conhecer (digo “dado a conhecer” porque o general Moncrief declarou que preferia cair sobre a sua espada a anunciá-lo), a excitação atingiu um clímax febril no seio da sociedade de Baltimore. A história quase esquecida do nascimento de Benjamin foi recordada e espalhada aos sete ventos do escândalo de forma ao mesmo tempo pícara e incrível. Disse-se que Benjamin Button era, realmente, o pai de Roger Button, que era o seu irmão que estivera quarenta anos preso, que era John Wilkes Booth disfarçado e, finalmente, que tinha dois pequenos chifres cônicos brotando da cabeça.
Os suplementos de domingo dos jornais no-va-iorquinos brincaram com o caso, usando esboços fascinantes que mostravam a cabeça de Benjamin Button presa a um peixe, a uma serpente e, por fim, a um corpo de sólido latão. Tornou-se jornalisticamente conhecido como o Homem Mistério de Maryland. Mas, como geralmente acontece, a verdadeira história teve uma circulação muito pequena.
No entanto, todos concordavam com o general Moncrief, segundo o qual era “criminoso” uma jovem encantadora, que podia ter casado com qualquer janota de Baltimore, lançar-se assim nos braços de um homem que tinha, com certeza, cinquenta anos. Em vão Mr. Roger Button publicou a certidão de nascimento do filho, em letras gordas, no Blaze de Baltimore. Ninguém acreditou. Bastava olhar para Benjamin e ver.
Da parte das duas pessoas mais interessadas não houve a mínima hesitação. Tantas das teorias acerca do seu noivo eram falsas que Hildegarde se recusou obstinadamente a acreditar, até mesmo na verdadeira. Em vão o general Moncrief chamou a atenção da filha para o elevado grau de mortalidade entre os homens de cinquenta anos ou pelo menos, entre os homens que pareciam tê-los; em vão lhe falou da instabilidade do negócio grossista de ferragens. Hildegarde escolhera casar pela maturidade — e casou!

F. Scott Fitzgerald, em O Curioso Caso de Benjamin Button

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Força inteligente

Não basta que sua respiração harmonize com o ar circundante. É preciso harmonizar a sua inteligência com aquela que abrange tudo. A força inteligente não está menos difundida por todos os lotes. Ela permeia o todo, e está tão disponível para quem está disposto a inspirá-la quanto o poder aéreo para quem é capaz de respirá-lo.

Marco Aurélio, em Meditações 

Calvin e Haroldo

Altazor

5.

Noite de antiquíssimos terrores noturnos
Aonde a nevada gruta nutrida de milagres?
Aonde a delirante miragem
Dos olhos de arco-íris e da nebulosa?
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se o mar
A respiração detém-se e a suspensa turbação
Intumesce as têmporas e nas veias se derrama
Abre os olhos maiores que o espaço que neles cabe
E um grito cicatriza no mórbido vazio
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se um rebanho perdido na montanha
A pastora com sua capa de vento à ilharga da noite
Conta as pegadas de Deus no espaço
E canta-se a si mesma
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se um desfile de timbales de gelo
Que brilham sob os raios da tempestade
E passam em silêncio à deriva
Solene cortejo de timbales
Com acesos archotes dentro do corpo
Abre-se o sepulcro e ao fundo veem-se o outono e o inverno
Um céu de ametista desce vagarosamente
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se uma enorme ferida
Que se dilata nas profundezas da terra
Com um rumor de verão e primaveras
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se uma floresta de fadas que se fecundam
Cada árvore termina num pássaro extasiado
E tudo se detém dentro da fechada elipse de seus cantos
Por esses lados deve encontrar-se o ninho das lágrimas
Que rolam pelo céu e atravessam o zodíaco
De signo em signo
Abre-se o sepulcro e ao fundo vê-se a efervescente nebulosa que se apaga e se acende
Um aerólito passa vertiginosamente
Dançam lanternas no vasto cadafalso
Onde as sangrentas cabeças dos astros
Deixam uma auréola que eternamente cresce
Abre-se o sepulcro e sai um soluço de plantas
Há mastros destroçados e redemoinhos de naufrágios
Tangem os sinos de todas as estrelas
Ruge o furacão perseguido através do infinito
Sobre os rios derramados
Abre-se o sepulcro e salta um ramo de flores carregadas de cilícios
Cresce a impenetrável fogueira e um odor de paixão invade o orbe
O sol procura o último recanto onde ocultar-se
E nasce a mágica floresta
Abre-se o sepulcro e no fundo vê-se o mar
Sobe um canto de milhares de barcos que partem
Enquanto um cardume de peixes
Se petrifica lentamente

Vicente Huidobro, em Altazor 

O Geometrismo de Caetano de Almeida

Narcomedusae (2011), de Caetano de Almeida

Diário de Bernardo Soares – Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

13.

A miséria da minha condição não é estorvada por estas palavras conjugadas, com que formo, pouco a pouco, o meu livro casual e meditado. Subsisto nulo no fundo de toda a expressão, como um pó indissolúvel no fundo do copo de onde se bebeu só água. Escrevo a minha literatura como escrevo os meus lançamentos — com cuidado e indiferença. Ante o vasto céu estrelado e o enigma de muitas almas, a noite do abismo incógnito e o choro de nada se compreender — ante tudo isto o que escrevo no caixa auxiliar e o que escrevo neste papel da alma são coisas igualmente restritas à Rua dos Douradores, muito pouco aos grandes espaços milionários do universo.
Tudo isto é sonho e fantasmagoria, e pouco vale que o sonho seja lançamentos como prosa de bom porte. Que serve sonhar com princesas, mais que sonhar com a porta da entrada do escritório? Tudo que sabemos é uma impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia, melodrama de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores ativos, nossos deuses por licença da Câmara.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

O filho da Gabriela


A Antonio Noronha Santos

Chaque progrès, au fond, est un avortement, Mais l’échec même sert...
Guyau

Absolutamente não pode continuar assim... Já passa... É todo o dia! Arre!
Mas é meu filho, minh’ama.
E que tem isso? Os filhos de vocês agora têm tanto luxo. Antigamente, criavam-se à toa; hoje, é um deus nos acuda; exigem cuidados, têm moléstias... Fique sabendo: não pode ir amanhã!
Ele vai melhorando, dona Laura; e o doutor disse que não deixasse de levá-lo lá, amanhã...
Não pode, não pode, já lhe disse! O conselheiro precisa chegar cedo à escola; há exames e tem que almoçar cedo... Não vai, não senhora! A gente tem criados pra quê? Não vai, não!
Vou, e vou sim!... Que bobagem!... Quer matar o pequeno, não é? Pois sim... Está-se “ninando”...
O que é que você disse, hein?
É isso mesmo: vou e vou!
Atrevida.
Atrevida é você, sua... Pensa que não sei...
Em seguida as duas mulheres se puseram caladas durante um instante: a patroa — uma alta senhora, ainda moça, de uma beleza suave e marmórea — com os lábios finos muito descorados e entreabertos, deixando ver os dentes aperolados, muito iguais, cerrados de cólera; a criada agitada, transformada, com faiscações desusadas nos olhos pardos e tristes. A patroa não se demorou assim muito tempo. Violentamente contraída naquele segundo a sua fisionomia repentinamente se abriu num choro convulsivo.
A injúria da criada, decepções matrimoniais, amarguras do seu ideal amoroso, fatalidades de temperamento, todo aquele obscuro drama de sua alma, feito de uma porção de coisas que não chegava bem a colher, mas nas malhas das quais se sentia presa e sacudida, subiu-lhe de repente à consciência, e ela chorou.
Na sua simplicidade popular, a criada também se pôs a chorar, enternecida pelo sofrimento que ela mesma provocara na ama.
E ambas, pelo fim dessa transfiguração inopinada, entreolharam-se surpreendidas, pensando que se acabavam de conhecer naquele instante, tendo até ali vagas notícias uma da outra, como se vivessem longe, tão longe, que só agora haviam distinguido bem nitidamente o tom de voz próprio a cada uma delas.
No entendimento peculiar de uma e de outra, sentiram-se irmãs na desoladora mesquinhez da nossa natureza e iguais, como frágeis consequências de um misterioso encadear de acontecimentos, cuja ligação e fim lhes escapavam completamente, inteiramente...
A dona da casa, à cabeceira da mesa de jantar, manteve-se silenciosa, correndo, de quando em quando, o olhar ainda úmido pelas ramagens do atoalhado, indo, às vezes, com ele até à bandeira da porta defronte, donde pendia a gaiola do canário, que se sacudia na prisão niquelada.
De pé, a criada avançou algumas palavras. Desculpou-se inábil e despediu-se humilde.
Deixe-se disso, Gabriela, disse dona Laura. Já passou tudo; eu não guardo rancor; fique! Leve o pequeno amanhã... Que vai você fazer por esse mundo afora?
Não senhora... Não posso... É que...
E de um hausto falou com tremuras na voz:
Não posso, não minh’ama; vou-me embora!
Durante um mês, Gabriela andou de bairro em bairro, à procura de aluguel. Pedia lessem-lhe anúncios, corria, seguindo as indicações, a casas de gente de toda a espécie. Sabe cozinhar? perguntavam. — Sim, senhora, o trivial. — Bem e lavar? Serve de ama? — Sim, senhora; mas se fizer uma coisa, não quero fazer outra. — Então, não me serve, concluía a dona da casa. É um luxo... Depois queixam-se que não têm onde se empreguem...
Procurava outras casas; mas nesta já estavam servidas, naquela o salário era pequeno e naquela outra queriam que dormisse em casa e não trouxesse o filho.
A criança, durante esse mês, viveu relegada a um canto da casa de uma conhecida da mãe. Um pobre quarto de estalagem, úmido que nem uma masmorra. De manhã, via a mãe sair; à tarde, quase à boca da noite, via-a entrar desconfortada. Pelo dia em fora, ficava num abandono de enternecer. A hóspede, de longe em longe, olhava-o cheia de raiva. Se chorava aplicava-lhe palmadas e gritava colérica: “Arre diabo! A vagabunda de tua mãe anda saracoteando... Cala a boca, demônio! Quem te fez, que te ature...”.
Aos poucos, a criança torrou-se de medo; nada pedia, sofria fome, sede, calado. Enlanguescia a olhos vistos e sua mãe, na caça de aluguel, não tinha tempo para levá-lo ao doutor do posto médico. Baço, amarelado, tinha as pernas que nem palitos e o ventre como o de um batráquio. A mãe notava-lhe o enfraquecimento, os progressos da moléstia e desesperava, não sabendo que alvitre tomar. Um dia pelos outros, chegava em casa semiembriagada, escorraçando o filho e trazendo algum dinheiro. Não confessava a ninguém a origem dele; em outros mal entrava, beijava muito o pequeno, abraçava-o. E assim corria a cidade. Numa destas correrias passou pela porta do conselheiro, que era o marido de dona Laura. Estava no portão, a lavadeira, parou e falou-lhe; nisto, viu aparecer a sua antiga patroa numa janela lateral. “— Bom dia minh’ama”, — “Bom dia, Gabriela. Entre.” Entrou. A esposa do conselheiro perguntou-lhe se já tinha emprego; respondeu-lhe que não. “Pois olha, disse-lhe a senhora, eu ainda não arranjei cozinheira, se tu queres...”
Gabriela quis recusar, mas dona Laura insistiu.
Entre elas, parecia que havia agora certo acordo íntimo, um quê de mútua proteção e simpatia. Uma tarde em que dona Laura voltava da cidade, o filho da Gabriela, que estava no portão, correu imediatamente para a moça e disse-lhe, estendendo a mão: “a bênção”. Havia tanta tristeza no seu gesto, tanta simpatia e sofrimento, que aquela alta senhora não lhe pôde negar a esmola de um afago, de uma carícia sincera. Nesse dia, a cozinheira notou que ela estava triste e, no dia seguinte, não foi sem surpresa que Gabriela se ouviu chamar.
O Gabriela!
Minh’ama.
Vem cá.
Gabriela concertou-se um pouco e correu à sala de jantar, onde estava a ama.
Já batizaste o teu pequeno? perguntou-lhe ela ao entrar.
Ainda não.
Por quê? Com quatro anos!
Por quê? Porque ainda não houve ocasião...
Já tens padrinhos?
Não, senhora.
Bem; eu e o conselheiro vamos batizá-lo. Aceitas?
Gabriela não sabia como responder, balbuciou alguns agradecimentos e voltou ao fogão com lágrimas nos olhos.
O conselheiro condescendeu e cuidadosamente começou a procurar um nome adequado. Pensou em Huáscar, Ataliba, Guatemozim; consultou dicionários, procurou nomes históricos, afinal resolveu-se por “Horácio”, sem saber por quê.
Assim se chamou e cresceu. Conquanto tivesse recebido um tratamento médico regular e a sua vida na casa do conselheiro fosse relativamente confortável, o pequeno Horácio não perdeu nem a reserva nem o enfezado dos seus primeiros anos de vida. À proporção que crescia, os traços se desenhavam, alguns finos: o corte da testa, límpida e reta; o olhar doce e triste, como o da mãe, onde havia, porém, alguma coisa a mais — um fulgor, certas expressões particulares, principalmente quando calado e concentrado. Não obstante, era feio, embora simpático e bom de ver.
Pelos seis anos, mostrava-se taciturno, reservado e tímido, olhando interrogativamente as pessoas e coisas, sem articular uma pergunta. Lá vinha um dia, porém, que o Horácio rompia numa alegria ruidosa; punha-se a correr, a brincar, a cantarolar, pela casa toda, indo do quintal para as salas, satisfeito, contente, sem motivo e sem causa.
A madrinha espantava-se com esses bruscos saltos de humor, queria entendê-los, explicá-los e começou por se interessar pelos seus trejeitos. Um dia, vendo o afilhado a cantar, a brincar, muito contente, depois de uma porção de horas de silêncio e calma, correu ao piano e acompanhou-lhe a cantiga, depois, emendou com uma ária qualquer. O menino calou-se, sentou-se no chão e pôs-se a olhar, com olhos tranquilos e calmos, a madrinha, inteiramente delido nos sons que saíam dos seus dedos. E quando o piano parou, ele ainda ficou algum tempo esquecido naquela postura, com o olhar perdido numa cisma sem fim. A atitude imaterial do menino tocou a madrinha, que o tomou ao colo, abraçando-o e beijando-o, num afluxo de ternura, a que não eram estranhos os desastres de sua vida sentimental.
Pouco depois a mãe lhe morria. Até então vivia numa semidomesticidade. Daí em diante, porém, entrou completamente na família do conselheiro Calaça. Isso, entretanto, não lhe retirou a taciturnidade e a reserva; ao contrário, fechou-se em si e nunca mais teve crises de alegria.
Com sua mãe ainda tinha abandonos de amizade, efusões de carícias e abraços. Morta que ela foi, não encontrou naquele mundo tão diferente, pessoa a quem se pudesse abandonar completamente, embora pela madrinha continuasse a manter uma respeitosa e distante amizade, raramente aproximada por uma carícia, por um afago.
Ia para o colégio calado, taciturno, quase carrancudo, e, se, pelo recreio, o contágio obrigava-o a entregar-se à alegria e aos folguedos, bem cedo se arrependia, encolhia-se e sentava-se, vexado, a um canto. Voltava do colégio como fora, sem brincar pelas ruas, sem traquinadas, severo e insensível. Tendo uma vez brigado com um colega, a professora o repreendeu severamente, mas o conselheiro, seu padrinho, ao saber do caso, disse com rispidez: “Não continue, hein? O senhor não pode brigar — está ouvindo?”.
E era assim sempre o seu padrinho, duro, desdenhoso, severo em demasia com o pequeno, de quem não gostava, suportando-o unicamente em atenção à mulher — maluquices da Laura, dizia ele. Por vontade dele, tinha-o posto logo num asilo de menores, ao morrer-lhe a mãe; mas a madrinha não quis e chegou até a conseguir que o marido o colocasse num estabelecimento oficial de instrução secundária, quando acabou com brilho o curso primário.
Não foi sem resistência que ele acedeu, mas os rogos da mulher, que agora juntava à afeição pelo pequeno uma secreta esperança no seu talento, tanto fizeram que o conselheiro se empenhou e obteve.
Em começo, aquela adoção fora um simples capricho de dona Laura; mas, com o tempo, os seus sentimentos pelo menino foram ganhando importância e ficando profundos, embora exteriormente o tratasse com um pouco de cerimônia.
Havia nela mais medo da opinião, das sentenças do conselheiro, do que mesmo necessidade de disfarçar o que realmente sentia, e pensava.
Quem a conheceu solteira, muito bonita, não a julgaria capaz de tal afeição; mas, casada, sem filhos, não encontrando no casamento nada que sonhara, nem mesmo o marido, sentiu o vazio da existência, a inanidade dos seus sonhos, o pouco alcance da nossa vontade; e, por uma reviravolta muito comum, começou a compreender confusamente todas as vidas e almas, a compadecer-se e a amar tudo, sem amar bem coisa alguma. Era uma parada de sentimento e a corrente que se acumulara nela, perdendo-se do seu leito natural, extravasara e inundara tudo.
Tinha um amante e já tivera outros, mas não era bem a parte mística do amor que procurara neles. Essa, ela tinha certeza que jamais podia encontrar; era a parte dos sentidos tão exuberantes e exaltados depois das suas contrariedades morais.
Pelo tempo em que o seu afilhado entrara para o colégio secundário, o amante rompera com ela; e isto a fazia sofrer, tinha medo de não possuir mais beleza suficiente para arranjar um outro como “aquele”. E a esse desastre sentimental não foi estranha a energia dos seus rogos junto ao marido para admissão do Horácio no estabelecimento oficial.
O conselheiro, homem de mais de sessenta anos, continuava superiormente frio, egoísta e fechado, sonhando sempre uma posição mais alta ou que julgava mais alta. Casara-se por necessidade decorativa. Um homem de sua posição não podia continuar viúvo; atiraram-lhe aquela menina pelos olhos, ela o aceitou por ambição e ele por conveniência. No mais, lia os jornais, o câmbio especialmente, e, de manhã, passava os olhos nas apostilas de sua cadeira — apostilas por ele organizadas, há quase trinta anos, quando dera as suas primeiras lições, moço, de vinte e cinco anos, genial nas aprovações e nos prêmios.
Horácio, toda a manhã, ao sair para o colégio, lá avistava o padrinho atarraxado na cadeira de balanço a ler atentamente o jornal: “A bênção, meu padrinho!” — “Deus te abençoe”, dizia ele, sem menear a cabeça do espaldar e no mesmo tom de voz com que pediria os chinelos à criada.
Em geral, a madrinha estava deitada ainda e o menino saía para o ambiente ingrato da escola, sem um adeus, sem dar um beijo, sem ter quem lhe reparasse familiarmente o paletó. Lá ia. A viagem de bonde, ele a fazia humilde, espremido a um canto do veículo, medroso que seu paletó roçasse as sedas de uma rechonchuda senhora ou que seus livros tocassem nas calças de um esquelético capitão de uma milícia qualquer. Pelo caminho, arquitetava fantasias; seu espírito divagava sem nexo. À passagem de um oficial a cavalo, imaginava-se na guerra, feito general, voltando vencedor, vitorioso de ingleses, de alemães, de americanos e entrando pela rua do Ouvidor aclamado como nunca se fora aqui. Na sua cabeça ainda infantil, em que a fraqueza de afetos próximos concentrava o pensamento, a imaginação palpitava, tinha uma grande atividade, criando toda a espécie de fantasmagorias que lhe apareciam como fatos possíveis, virtuais.
Eram-lhe as horas de aula um bem triste momento. Não que fosse vadio, estudava o seu bocado, mas o espetáculo do saber, por um lado grandioso e apoteótico, pela boca dos professores, chegava-lhe tisnado e um quê desarticulado. Não conseguia ligar bem umas coisas às outras, além do que, tudo aquilo lhe aparecia solene, carrancudo e feroz. Um teorema tinha o ar autoritário de um régulo selvagem; e aquela gramática cheia de regrinhas, de exceções, uma coisa cabalística, caprichosa e sem aplicação útil.
O mundo parecia-lhe uma coisa dura, cheia de arestas cortantes, governado por uma porção de regrinhas de três linhas, cujo segredo e aplicação estavam entregues a uma casta de senhores, tratáveis uns, secos outros, mas todos velhos e indiferentes.
Aos seus exames ninguém assistia, nem por eles alguém se interessava; contudo, foi sempre regularmente aprovado. Quando voltava do colégio, procurava a madrinha e contava-lhe o que se dera nas aulas. Narrava-lhe pequenas particularidades do dia, as notas que obtivera e as travessuras dos colegas.
Uma tarde, quando isso ia fazer, encontrou dona Laura atendendo a uma visita. Vendo-o entrar e falar à dona da casa, tomando-lhe a bênção a senhora estranha perguntou: “Quem é este pequeno?” — “É meu afilhado”, disse-lhe dona Laura. “Teu afilhado? Ah! sim! É o filho da Gabriela...”
Horácio ainda esteve um instante calado, estatelado e depois chorou nervosamente.
Quando se retirou observou a visita à madrinha:
Você está criando mal esta criança. Faz-lhe muitos mimos, está lhe dando nervos...
Não faz mal. Podem levá-lo longe.
E assim corria a vida do menino em casa do conselheiro.
Um domingo ou outro, só ou com um companheiro, vagava pelas praias, pelos bondes ou pelos jardins. O Jardim Botânico era-lhe preferido. Ele e o seu constante amigo Salvador sentavam-se a um banco, conversavam sobre os estudos comuns, maldiziam este ou aquele professor. Por fim, a conversa vinha a enfraquecer; os dois se calavam instantes. Horácio deixava-se penetrar pela flutuante poesia das coisas, das árvores, dos céus, das nuvens; acariciava com o olhar as angustiadas colunas das montanhas, simpatizava com o arremesso dos píncaros, depois deixava-se ficar, ao chilreio do passaredo, cismando vazio, sem que a cisma lhe fizesse ver coisa definida, palpável pela inteligência. Ao fim, sentia-se como que liquefeito, vaporizado nas coisas era como se perdesse o feitio humano e se integrasse naquele verde-escuro da mata ou naquela mancha faiscante de prata que a água a correr deixava na encosta da montanha. Com que volúpia, em tais momentos, ele se via dissolvido na natureza, em estado de fragmentos, em átomos, sem sofrimento, sem pensamento, sem dor! Depois de ter ido ao indefinido, apavorava-se com o aniquilamento e voltava a si, aos seus desejos, às suas preocupações com pressa e medo.
Salvador, de que gostas mais, do inglês ou francês?
Eu do francês; e tu?
Do inglês.
Por quê?
Porque pouca gente o sabe.
A confidência saía-lhe a contragosto, era dita sem querer. Temeu que o amigo o supusesse vaidoso. Não era bem esse sentimento que o animava; era uma vontade de distinção, de reforçar a sua individualidade, que ele sentia muito diminuída pelas circunstâncias ambientes. O amigo não entrava na natureza do seu sentimento e despreocupadamente perguntou:
Horácio, já assististe uma festa de São João?
Nunca.
Queres assistir uma?
Quero, onde?
Na ilha, em casa de meu tio.
Pela época, a madrinha consentiu. Era um espetáculo novo; era um outro mundo que se abria aos seus olhos. Aquelas longas curvas das praias, que perspectivas novas não abriam em seu espírito! Ele se ia todo nas cristas brancas das ondas e nos largos horizontes que descortinava.
Em chegando a noite, afastou-se da sala. Não entendia aqueles folguedos, aquele dançar sôfrego, sem pausa, sem alegria, como se fosse um castigo. Sentado a um banco do lado de fora, pôs-se a apreciar a noite, isolado, oculto, fugido, solitário, que se sentia ser no ruído da vida. Do seu canto escuro, via tudo mergulhado numa vaga semiluz. No céu negro, a luz pálida das estrelas; na cidade defronte, o revérbero da iluminação; luz, na fogueira votiva, nos balões ao alto, nos foguetes que espoucavam, nos fogaréus das proximidades e das distâncias — luzes contínuas, instantâneas, pálidas, fortes; e todas no conjunto pareciam representar um esforço enorme para espancar as trevas daquela noite de mistérios.
No seio daquela bruma iluminada, as formas das árvores boiavam como espectros; o murmúrio do mar tinha alguma coisa de penalizado diante do esforço dos homens e dos astros para clarear as trevas. Havia naquele instante, em todas as almas, um louco desejo de decifrar o mistério que nos cerca; e as fantasias trabalhavam para idear meios que nos fizessem comunicar com o Ignorado, com o Invisível. Pelos cantos sombrios da chácara pessoas deslizavam. Iam ao poço ver a sombra — sinal de que viveriam o ano; iam disputar galhos de arruda ao diabo; pelas janelas, deixavam copos com ovos partidos para que o sereno, no dia seguinte, trouxesse as mensagens do Futuro.
O menino, sentindo-se arrastado por aquele frêmito de augúrio e feitiçaria, percebeu bem como vivia envolvido, mergulhado, no indistinto, no indecifrável; e uma onda de pavor, imensa e aterradora, cobriu-lhe o sentimento.
Dolorosos foram os dias que se seguiram. O espírito sacolejou-lhe o corpo violentamente. Com afinco estudava, lia os compêndios; mas não compreendia, nada retinha. O seu entendimento como que vazava. Voltava, lia, lia e lia e, em seguida, virava as folhas sofregamente, nervosamente, como se quisesse descobrir debaixo delas um outro mundo cheio de bondade e satisfação. Horas havia que ele desejava abandonar aqueles livros, aquela lenta aquisição de noções e ideias, reduzir-se e anular-se; horas havia, porém, que um desejo ardente lhe vinha de saturar-se de saber, de absorver todo o conjunto das ciências e das artes. Ia de um sentimento para outro; e foi vã a agitação. Não encontrava solução, saída; a desordem das ideias e a incoerência das sensações não lhe podiam dar uma e cavavam-lhe a saúde. Tornou-se mais flébil, fatigava-se facilmente. Amanhecia cansado de dormir e dormia cansado de estar em vigília. Vivia irritado, raivoso, não sabia contra quem.
Certa manhã, ao entrar na sala de jantar, deu com o padrinho a ler os jornais, segundo o seu hábito querido.
Horácio, você passe na casa do Guedes e traga-me a roupa que mandei consertar.
Mande outra pessoa buscar.
O quê?
Não trago.
Ingrato! Era de esperar...
E o menino ficou admirado diante de si mesmo, daquela saída de sua habitual timidez.
Não sabia onde tinha ido buscar aquele desaforo imerecido, aquela tola má-criação; saiu-lhe como uma coisa soprada por outro e que ele unicamente pronunciasse.
A madrinha interveio, aplainou as dificuldades; e, com a agilidade de espírito peculiar ao sexo, compreendeu o estado d’alma do rapaz. Reconstituiu-o com os gestos, com os olhares, com as meias palavras, que percebera em tempos diversos e cuja significação lhe escapara no momento, mas que aquele ato, desusadamente brusco e violento, aclarava por completo. Viu-lhe o sofrimento de viver à parte, a transplantação violenta, a falta de simpatia, o princípio de ruptura que existia em sua alma, e que o fazia passar aos extremos das sensações e dos atos.
Disse-lhe coisas doces, ralhou-o, aconselhou-o, acenou-lhe com a fortuna, a glória e o nome.
Foi Horácio para o colégio abatido, preso de um estranho sentimento de repulsa, de nojo por si mesmo. Fora ingrato, de fato; era um monstro. Os padrinhos lhe tinham dado tudo, educado, instruído. Fora sem querer, fora sem pensar; e sentia bem que a sua reflexão não entrara em nada naquela resposta que dera ao padrinho. Em todo o caso, as palavras foram suas, foram ditas com sua voz e a sua boca, e se lhe nasceram do íntimo sem a colaboração da inteligência, devia acusar-se de ser fundamentalmente mau...
Pela segunda aula, pediu licença. Sentia-se doente, doía-lhe a cabeça e parecia que lhe passavam um archote fumegante pelo rosto.
Já, Horácio? perguntou-lhe a madrinha, vendo-o entrar.
Estou doente.
E dirigiu-se para o quarto. A madrinha seguiu-o. Chegado que foi, atirou-se à cama, ainda meio vestido.
Que é que você tem, meu filho?
Dores de cabeça... um calor...
A madrinha tomou-lhe o pulso, assentou as costas da mão na testa e disse-lhe ainda algumas palavras de consolação: que aquilo não era nada; que o padrinho não lhe tinha rancor; que sossegasse.
O rapaz, deitado, com os olhos semicerrados, parecia não ouvir; voltava-se de um lado para outro; passava a mão pelo rosto, arquejava e debatia-se. Um instante pareceu sossegar; ergueu-se sobre o travesseiro e chegou a mão aos olhos, no gesto de quem quer avistar alguma coisa ao longe. A estranheza do gesto assustou a madrinha.
Horácio!... Horácio!...
Estou dividido... Não sai sangue...
Horácio, Horácio, meu filho!
Faz sol... Que sol!... Queima... Árvores enormes... Elefantes...
Horácio, que é isso? Olha; é tua madrinha!
Homens negros... fogueiras... Um se estorce... Chi! Que coisa!... O meu pedaço dança...
Horácio! Genoveva, traga água de flor... Depressa, um médico... Vá chamar, Genoveva!
Já não é o mesmo... é outro... lugar, mudou... uma casinha branca... carros de bois... nozes... figos... lenços...
Acalma-te, meu filho!
Ué! Chi! Os dois brigam...
Daí em diante a prostração tomou-o inteiramente. As últimas palavras não saíam perfeitamente articuladas. Pareceu sossegar. O médico entrou, tomou a temperatura, examinou-o e disse com a máxima segurança:
Não se assuste, minha senhora. É delírio febril, simplesmente. Dê-lhe o purgante, depois as cápsulas, que, em breve, estará bom.

Lima Barreto, em Contos completos