sábado, 10 de setembro de 2022

Capítulo 1 | Aprenda com o abandono

É dia, alguém leva outra pessoa para juntos não chegarem.
Alguém leva toda a culpa para outro inocentar.
Alguém descobre que tudo que tem é nada.
É dia, alguém atravessa uma linha tênue.
Estou sozinho agora, em algum lugar minha pequena dorme, e finalmente estou sozinho agora.
Meu nome não é o mesmo, e nem foi antes, mas eu tenho alguns motivos para não querer ser chamado.
Cruza a sala, ao banheiro ele chega.
Mais atenção às coisas que geralmente já viraram rotina.
Barbear.
Em algum lugar uma letra de amor é escrita, e uma poesia é rasgada.
Em alguma casa, um pequeno espelho reflete um nariz que podia ser mudado.
A descarga foi dada; a porta, fechada; o zíper, puxado; o chinelo, recolocado; o botão, abotoado; a descarga, terminada; o ralo, lotado; o rosto, parado; o calor, acumulado no assoalho; a vida, passada; o futuro, usado.
Saiu.
A estrada, o caminho, as luzes, tudo à sua volta era algo pintado, uma cidade cenográfica.
Quando saio para caminhar, sempre nos primeiros minutos recrio tudo à minha volta, e não sou eu mais o que já fui, e não sou eu mais o que todos querem que seja. Em alguns minutos, nos primeiros passos, eu sou simplesmente alguém andando, usufruindo do grande nada.
Como nada daquilo parecia real, era prisioneiro de um pretenso e não conseguido conforto.
Lembrou-se da época de férias, tentava sentir a liberdade. Na praia em um ano, no sítio em outro, longe da casa, do conforto que seu pai passou a vida toda construindo.
Agora era só um corpo indo comprar SL em algum dos 1.127 minimercados do governo espalhados pela cidade, depois voltaria cheio de caixas e comeria, comeria rápido para ir ao trabalho, arquivar, arquivar documentos que não podiam ficar ao tempo, tentava potencializar seu trabalho, achar alguma importância para que fizesse sentido ir lá todos os dias, na maioria das vezes não encontrava nenhum motivo, mas mesmo assim ele ia.
O ônibus demoraria uma eternidade para passar, não se arrependeu de ter ido a pé, mas ter que pegar ônibus para voltar o angustiava, queria mudar a rotina, sempre o mesmo farol, o mesmo posto de gasolina, ao menos no ônibus daria para ir lendo, claro que ele pensou que iria sentado, pensou errado.
Chegou no serviço com dez minutos de atraso, na porta do arquivo a secretária da central esperava para recolher alguns documentos, disse um leve bom-dia e abriu a porta, ela entrou e viu os documentos na mesa, perguntou se podia levar.
Calixto balançou a cabeça afirmativamente depois resolveu explicar.
Esperou muito? Acabei me atrasando um pouco.
Não, senhor, acabei de chegar, por falar em atraso, já lhe falaram, Senhor Calixto, que o Feng Shui ajuda na vida da pessoa?
Hã?
Que, por exemplo, ioga dá mais vivacidade?
Não.
O senhor é muito reservado, não que isso seja um defeito, mas, por exemplo, no seu caso, até uma religião como a Assembleia de Deus seria bom, tira dor, a solidão e até a amargura da pessoa.
Calixto olhou para ela, um olhar gelado, não entendia o que estava acontecendo, quem ela pensava que era, não sabia nada dele, nunca tinham trocado nem sequer três palavras durante esses anos todos, aquela era a conversa mais longa que já tinha tido com alguém em toda a empresa, continuou olhando e disse um obrigado forçado. Ela então disse de quais documentos precisava e o nome do segurança, o caso era insólito, segurança do hospital Pinel, João Luar Saxies ficava todo o tempo de serviço olhando os internos, quando num dia perdeu a razão, os amigos diziam que de tanto vigiar louco acabou se tornando um deles.
Calixto foi até a terceira prateleira, começou a procurar e a localizar os papéis, pegou um envelope e entregou para ela.
Ela tentou voltar ao assunto da religião, Calixto virou as costas e foi para a outra sala, quando voltou ela não estava mais lá.
Sentou junto à máquina de escrever, a mesa toda cheia de papéis, notas fiscais que deveriam ter sido preenchidas, ele pensa naquela estranha conversa, religião, de repente ele poderia ir a algum culto ou reza, pra ver se melhorava mesmo seu astral, na cidade do Valdomiro, ou numa das fazendas dos dissidentes, mas se eles tiram amargura, dor, solidão, o que restaria dentro dele?
Prepara-se para o relatório, põe três folhas de papel na máquina, ajeita entre elas duas folhas de papel-carbono.
Bate quinze teclas seguidas e na décima sexta erra, assusta-se, levanta, vai ao arquivo, tira algumas pastas, consulta o termo do antigo relatório, a mesma palavra que ele usava de seis em seis meses, mas que nunca lembrava, senta e começa a datilografar novamente.
Abre a gaveta, pega o líquido que faz ele ter nova chance, muda de ideia, abre a gaveta, de dentro retira uma borracha dura. Já pela metade, apaga o pequeno erro, repete nas duas cópias, dá uma soprada para afastar os inoportunos farelos da borracha.
Bate mais vinte e seis teclas, erra no acento, volta para a gaveta, faz a mesma merda novamente, retira a borracha, volta a borracha, assopra, morre aos poucos.
Anda pelos corredores e verifica as janelas, todas fechadas, tranca a casa, sai.
Resolveu descer dois pontos antes e continuar andando, para num pequeno bar e compra uma lata de cerveja, quando foi abrir, o anel da lata deu um pequeno beliscão em seu dedo. Bebia a cerveja, andava e dava uma chupada na ponta do dedo que estava ardendo.
A casa se aproximou, bateu a mão no bolso e enfiou, pegou na colher, deixou-a lá e foi para o outro bolso, retirou a chave, entrou e, tirando os sapatos, colocou a lata no braço do sofá.
Notou o canto da estante nesse dia, tentou se apegar a alguma coisa para não olhar novamente para o que podia ser o portal que sempre o atraía, mas ele não teria coragem de olhar, não naquele dia.
Começou a perceber os discos, olhar calmamente para as fitas de vídeo, via o excesso de coisas, tomou a decisão de não adquirir mais nada.
Sentimentos que se transformavam em produtos, tempos passados que refletiam alguma desculpa de lembrança.
Sabia que o entulho dentro da sua cabeça já o afetara muito durante a madrugada passada, não precisava começar a revirar tudo novamente.
Passaram-se alguns segundos, tudo voltou ao normal, pegou a foto na estante, limpou a poeira, estava da mesma forma, os poucos cabelos raspados, os óculos, o ralo cavanhaque sempre torto, a camiseta azul já desbotada, olhou para si, levantou o braço esquerdo e tocou no queixo, o mesmo cavanhaque, passou a mão pela cabeça, o mesmo corte, há quanto tempo ele era ele mesmo já não sabia.
Pensou em sair, mas já andara demais, estava na hora de ficar em casa, só assim não seria um transeunte passando rapidamente, esbarrando, incomodando, não seria a maquiagem da mulher vaidosa, o menino apontando e rindo de algo que ainda não entendia.
Prometeu não sair tão desprotegido, afinal eles acham sempre que sabem algo, mas a profundidade do que mostra só ele controla.
Não que isso funcione, afinal com a idade tinha certeza de que já tinha várias personalidades.
Quando passo em frente a uma casa de relaxamento, sou puto, quando ando em frente a uma igreja sou santo, faço o sinal da cruz, quando visito minha mãe deito no sofá, sou criança esperando o café com leite e o pão com manteiga esquentado de uma forma que só ela sabe fazer, quando vou na casa de algum amigo, se for do tempo da escola, até os apelidos da época são usados, se for à casa de vizinhos, as brincadeiras do bairro.
Não é por consideração que visitamos alguém, é por querer sentir algo que valha a pena.
Se a felicidade é um ponto de vista, Calixto estava cego.

Ferréz, in Deus foi almoçar

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