A baleia é um animal de poucos recursos.
Mal pode se virar, quanto mais elaborar um conceito. A baleia leva
dois anos para decifrar um sentimento. Às vezes confunde gases no
estômago com a necessidade de definir uma cosmogonia, e aí vem para
a tona, aflita. A baleia não se conhece.
A baleia é um mamífero que preferiu
continuar no mar. Quer dizer, é uma sentimental. A baleia não tem
mais ambiente no mar, falta-lhe o oxigênio, calor, faltam-lhe as
mínimas condições de sobrevivência, mas ela preferiu não
evoluir. É um animal conservador.
A família é tudo para a baleia. Os
velhos valores.
Honra e serviço. Respeito e tradição.
A baleia prefere não discutir o assunto.
A baleia não se conhece. A baleia sabe
que tem uma cauda como você e eu sabemos que existe a Antártica. A
cauda é um vasto território inexplorado para a baleia, remoto e
misterioso como um pólo. O corpo é a angústia da baleia. A baleia
vive atormentada pelo próprio tamanho. “Estou sendo seguida!” A
baleia às vezes se pergunta, se eu não sou o meu corpo, o que é
que eu sou? A baleia tem outra por dentro, bem menor.
Não é verdade que a baleia se alimenta
de profetas. A baleia tem a maior boca do mundo e fome de canibal,
mas uma garganta em que só passam canapés e as azeitonas menores. A
baleia seria um desastre social.
A baleia é uma série de equívocos.
Deus tinha acabado de fazer o elefante, estava numa fase de grandes
projetos, mas se desinteressou na metade.
A baleia era para ser recolhida para
reajustes. Mas aí veio a Idade do Gelo, depois Sodoma e Gomorra,
depois o problema com o guri, e Deus não teve mais tempo.
A baleia leva anos para decifrar um
ressentimento. O que começa como revolta no estômago chega ao
cérebro como lamento e memória. Eu devia ter sido um monstro
marinho, meu Deus, o flagelo da criação, Moby Dick só para vingar
meu tamanho e meu destino. Mas a baleia mal pode se virar, quanto
mais dominar o mundo. A baleia é uma desistência.
Os velhos valores. A rigidez moral. Como
um adventista do sétimo dia — que também não come carne — a
baleia está convicta da corrupção do mundo e da sua própria
indignidade. (Todo vegetariano é um canibal contrito.) A baleia
conhece a humanidade pelos seus náufragos e pelo que lê nos
jornais. Seu único contato com o homem é o arpão nas costas e
notícias de escândalos. A baleia sabe histórias, de
transatlânticos afundados, de alta luxúria em camarotes, de tráfico
de ossos em sombrios porões da segunda, de inomináveis congressos
entre caveiras e polvos, de capitães bêbados e gentis-homens
piratas. A baleia às vezes se pergunta, se eu não sou digna, quem
pode ser?
Houve o caso de uma baleia que se
apaixonou por um submarino alemão e até hoje carrega as marcas do
escândalo, uma cauda torta e o olhar perdido. A baleia tem uma visão
trágica do mundo.
Um grupo de baleias soube das fotos da
Jacqueline e, sem pensar — o que levaria muito tempo —decidiu-se
pelo gesto supremo. A baleia é uma personalidade suicida, a
intransigência moral só agravou o processo. Mataram-se para nos
salvar. Na costa do Rio Grande do Sul para sensibilizar o Correio
do Povo.
Luís Fernando Veríssimo, in A grande mulher nua
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