sábado, 22 de fevereiro de 2025

In Nomine Dei

Fim-de-semana em Fuerteventura. Mais árido, mais agreste do que esta ilha de Lanzarote, em cuja paisagem, se repararmos bem, é possível reconhecer alguma coisa de teatral, uma maquinaria de rompimentos e bambolinas que distrai o olhar e faz viajar o espírito, como se estivéssemos diante de um ciclorama em movimento. Fuerteventura é todo secura e brutidade, ao passo que Lanzarote, mesmo quando nos parece inquietante, ameaçador, mostra um certo ar de doçura feminina, o mesmo que, apesar de tudo, teria Lady Macbeth enquanto dormia. As montanhas de Lanzarote estão nuas, as de Fuerteventura foram esfoladas. E se, em Lanzarote, exceptuando as Montanhas do Fogo por serem parque nacional, as povoações se sucedem umas às outras, em Fuerteventura, que é três vezes maior, pode-se andar quilómetros e quilómetros sem encontrar vivalma, nem casas, nem sinais de cultivo. Fuerteventura dá a ideia de ser uma terra muito velha que chegou aos seus últimos dias. Os alemães estão por toda a parte, são pesados, maciços, ocupam, como coisa sua, os hotéis, as urbanizações turísticas, os restaurantes, as piscinas, as ruas. Habituaram-se a comportar-se como donos da ilha desde a Segunda Guerra Mundial, quando Fuerteventura esteve para ser base de submarinos da Alemanha, se outro tivesse sido o desfecho da batalha de El Alamein. Diz-se que, depois do fim da guerra, vieram cá esconder-se uns quantos nazis importantes. E que compraram, pelo preço da uva mijona, terras que são como latifúndios. Foi o tempo em que à entrada dos estabelecimentos propriedade de alemães se colocava um cartaz redigido nestes termos: «Proibida a entrada a cães e a canários.» Os canários em questão não eram as aves, que provavelmente estariam dentro animando os teutónicos ouvidos, mas os próprios habitantes das Canárias, por esta maneira (ironias do destino) emparceirados aos cães que deram o nome ao arquipélago. Ao longo da costa ainda se vêem casamatas arruinadas, ninhos de metralhadoras. Estão ali desde a guerra civil. Desde há muito mais tempo, talvez desde o século XV ou XVI, encontra-se, ao sul da capital, num aldeamento turístico chamado El Castillo, uma fortaleza atarracada, em forma de tronco de cone, de pedras negras, singularmente evocadora. Sobranceira ao mar, rodeiam-na as instalações de um clube de férias, com piscinas de diferentes tamanhos e feitios e uma coisa de plástico verde, a que se dá o nome de relva artificial. Por cima da porta, um cartaz avisa que só estão autorizados a entrar os possuidores do cartão do clube. Pobre torre. Ali, com as bombardas apontadas ao mar, e os piratas que atacaram pela retaguarda...
Entrevista do padre Vítor Melícias ao DN. Pergunta do jornalista: “Já leu o último livro de Saramago, In Nomine Dei?” Resposta: “Não. Mas, segundo julgo, é sobre o comportamento desumano para com outros homens com motivações ideológicas, nacionalistas, partidárias ou religiosas. Todas as injustiças que se façam em nome de um deus ou seja do que for têm efeitos negativos. Nesse sentido, o livro é sempre positivo.” Nova pergunta do jornalista: “E O Evangelho segundo Jesus Cristo?” Resposta: “Li metade e não tive paciência para ler o resto. Está bem escrito, o Saramago é um excelente escritor, só que os bons escritores podem fazê-lo bem, mas nem sempre escrevem o bom.” Não vou deter-me no exame da diferença entre fazê-lo bem e fazê-lo bom, que daria pano para mangas. O que sobretudo me impressiona é a cândida declaração do padre Melícias de que não teve paciência para ir além de metade do Evangelho. Não teve paciência porque a narrativa o estivesse enfastiando? Impossível. A um padre o Evangelho pode indignar, enfurecer, pode mesmo, no melhor dos casos, levá-lo a rezar pelo autor. Enfastiá-lo, nunca. Mas está escrito que o padre Melícias perdeu a paciência, o que significa, conforme mo está dizendo aqui o dicionário de José Pedro Machado, que ao digno sacerdote, ao chegar à página 222, lhe faltou subitamente a “virtude que faz suportar os males, as contrariedades, os infortúnios, etc., com moderação, com resignação e sem murmúrios ou queixas”. Espero que o grave desfalecimento tenha sido momentâneo, e que o padre Melícias, aliviado das 223 páginas que ficaram por ler, haja recuperado prontamente a paciência, virtude cristã por excelência, se em matéria de virtudes uma pode ser mais excelente que as outras. Em todo o caso, a recuperação não deve ter sido completa, uma vez que não chegou para levá-lo a ler In Nomine Dei. Ou muito me engano, ou anda aqui um gato que se escaldou e agora tem medo da água fria... E pensar eu que este padre Melícias ainda é dos melhores…

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

Nenhum comentário:

Postar um comentário