Fim-de-semana
em Fuerteventura. Mais árido, mais agreste do que esta ilha de
Lanzarote, em cuja paisagem, se repararmos bem, é possível
reconhecer alguma coisa de teatral, uma maquinaria de rompimentos e
bambolinas que distrai o olhar e faz viajar o espírito, como se
estivéssemos diante de um ciclorama em movimento. Fuerteventura é
todo secura e brutidade, ao passo que Lanzarote, mesmo quando nos
parece inquietante, ameaçador, mostra um certo ar de doçura
feminina, o mesmo que, apesar de tudo, teria Lady Macbeth enquanto
dormia. As montanhas de Lanzarote estão nuas, as de Fuerteventura
foram esfoladas. E se, em Lanzarote, exceptuando as Montanhas do Fogo
por serem parque nacional, as povoações se sucedem umas às outras,
em Fuerteventura, que é três vezes maior, pode-se andar quilómetros
e quilómetros sem encontrar vivalma, nem casas, nem sinais de
cultivo. Fuerteventura dá a ideia de ser uma terra muito velha que
chegou aos seus últimos dias. Os alemães estão por toda a parte,
são pesados, maciços, ocupam, como coisa sua, os hotéis, as
urbanizações turísticas, os restaurantes, as piscinas, as ruas.
Habituaram-se a comportar-se como donos da ilha desde a Segunda
Guerra Mundial, quando Fuerteventura esteve para ser base de
submarinos da Alemanha, se outro tivesse sido o desfecho da batalha
de El Alamein. Diz-se que, depois do fim da guerra, vieram cá
esconder-se uns quantos nazis importantes. E que compraram, pelo
preço da uva mijona, terras que são como latifúndios. Foi o tempo
em que à entrada dos estabelecimentos propriedade de alemães se
colocava um cartaz redigido nestes termos: «Proibida a entrada a
cães e a canários.» Os canários em questão não eram as aves,
que provavelmente estariam dentro animando os teutónicos ouvidos,
mas os próprios habitantes das Canárias, por esta maneira (ironias
do destino) emparceirados aos cães que deram o nome ao arquipélago.
Ao longo da costa ainda se vêem casamatas arruinadas, ninhos de
metralhadoras. Estão ali desde a guerra civil. Desde há muito mais
tempo, talvez desde o século XV ou XVI, encontra-se, ao sul da
capital, num aldeamento turístico chamado El Castillo, uma fortaleza
atarracada, em forma de tronco de cone, de pedras negras,
singularmente evocadora. Sobranceira ao mar, rodeiam-na as
instalações de um clube de férias, com piscinas de diferentes
tamanhos e feitios e uma coisa de plástico verde, a que se dá o
nome de relva artificial. Por cima da porta, um cartaz avisa que só
estão autorizados a entrar os possuidores do cartão do clube. Pobre
torre. Ali, com as bombardas apontadas ao mar, e os piratas que
atacaram pela retaguarda...
Entrevista
do padre Vítor Melícias ao DN. Pergunta do jornalista: “Já
leu o último livro de Saramago, In Nomine Dei?” Resposta:
“Não. Mas, segundo julgo, é sobre o comportamento desumano para
com outros homens com motivações ideológicas, nacionalistas,
partidárias ou religiosas. Todas as injustiças que se façam em
nome de um deus ou seja do que for têm efeitos negativos. Nesse
sentido, o livro é sempre positivo.” Nova pergunta do jornalista:
“E O Evangelho segundo Jesus Cristo?” Resposta: “Li
metade e não tive paciência para ler o resto. Está bem escrito, o
Saramago é um excelente escritor, só que os bons escritores podem
fazê-lo bem, mas nem sempre escrevem o bom.” Não vou deter-me no
exame da diferença entre fazê-lo bem e fazê-lo bom,
que daria pano para mangas. O que sobretudo me impressiona é a
cândida declaração do padre Melícias de que não teve paciência
para ir além de metade do Evangelho. Não teve paciência
porque a narrativa o estivesse enfastiando? Impossível. A um padre o
Evangelho pode indignar, enfurecer, pode mesmo, no melhor dos
casos, levá-lo a rezar pelo autor. Enfastiá-lo, nunca. Mas está
escrito que o padre Melícias perdeu a paciência, o que significa,
conforme mo está dizendo aqui o dicionário de José Pedro Machado,
que ao digno sacerdote, ao chegar à página 222, lhe faltou
subitamente a “virtude que faz suportar os males, as
contrariedades, os infortúnios, etc., com moderação, com
resignação e sem murmúrios ou queixas”. Espero que o grave
desfalecimento tenha sido momentâneo, e que o padre Melícias,
aliviado das 223 páginas que ficaram por ler, haja recuperado
prontamente a paciência, virtude cristã por excelência, se em
matéria de virtudes uma pode ser mais excelente que as outras. Em
todo o caso, a recuperação não deve ter sido completa, uma vez que
não chegou para levá-lo a ler In Nomine Dei. Ou muito me
engano, ou anda aqui um gato que se escaldou e agora tem medo da água
fria... E pensar eu que este padre Melícias ainda é dos melhores…
José Saramago, em Cadernos de Lanzarote
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