domingo, 5 de abril de 2026

Alma Nua | Vander Lee

Charlatões

Um amigo meu diz que em todos nós existe o charlatão. Concordei. Sinto em mim a charlatã me espreitando. Só não vence, primeiro porque não é realmente verdade, segundo porque minha honestidade básica até me enjoa. Há outra coisa que me espreita e que me faz sorrir: o mau gosto. Ah, a vontade que tenho de ceder ao mau gosto. Em quê? Ora, o campo é ilimitado, simplesmente ilimitado. Vai desde o instante em que se pode dizer a palavra errada exatamente quando ela cairia pior — até o instante em que se diriam palavras de grande beleza e verdade quando o interlocutor está desprevenido e levaria um susto de constrangimento, e haveria o silêncio depois. Em que mais? Em se vestir, por exemplo. Não necessariamente o óbvio do equivalente a plumas. Não sei descrever, mas saberia usar um mau gosto perfeito. E em escrever? A tentação é grande, pois a linha divisória é quase invisível entre o mau gosto e a verdade. E mesmo porque, pior que o mau gosto em matéria de escrever, é certo tipo horrível de bom gosto. Às vezes, de puro prazer, de pura pesquisa simples, ando sobre a linha bamba.
Como é que eu seria charlatã? Eu fui, e com toda a sinceridade, pensando que acertava. Sou, por exemplo, formada em direito, e com isso enganei a mim e aos outros. Não, mais a mim que a todos. No entanto, como eu fui sincera: fui estudar direito porque desejava reformar as penitenciárias do Brasil.
O charlatão é um contrabandista de si mesmo. Que é mesmo o que estou dizendo? Era uma coisa, mas já me escapou. O charlatão se prejudica? Não sei, mas sei que às vezes a charlatanice dói e muito. Imiscui-se nos momentos mais graves. Dá uma vontade de não ser, exatamente quando se é com toda a força. Não posso infelizmente me alongar mais nesse assunto.
Disseram-me que um crítico teria escrito que Guimarães Rosa e eu éramos dois embustes, o que vale dizer dois charlatões. Esse crítico não vai entender nada do que estou dizendo aqui. É outra coisa. Estou falando de algo muito profundo, embora não pareça, embora eu mesma esteja um pouco tristemente brincando com o assunto.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Calvin

Instância

Eu cometi pecados,
por palavras, por atos, omissões.
Deles confesso a Deus,
à Virgem Maria, aos santos,
a São Miguel Arcanjo
e a vós irmãos.
A tão criticável tristeza
e seu divisível ser
pelejam por abotoar em mim
seu colar de desespero.
Mas eu peço perdão:
a Deus e a vós, irmãos.
O meu peito está nu como quando nasci;
em panos de alegria me enrolou minha mãe,
beijou minha carne estragável,
em minha boca mentirosa espremeu seu leite,
por isso sobrevivi.
Agora vós, irmãos, perdoai-me,
por minha mãe que se foi.
Por Deus que não vejo, perdoai-me.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Um sonho modesto

Macunaíma, o “herói” de Mário de Andrade, gabava-se um dia de ter caçado dois veados-mateiros de uma só vez, quando pegara simplesmente dois ratos chamuscados. Como seus irmãos contestassem a proeza, ele “parou assim os olhos” no interlocutor e explicou:
Eu menti.
Desde domingo, o cronista se sente um pouco na situação de Macunaíma, embora (ou por isso mesmo) ninguém pusesse em dúvida a veracidade da passagem de Greta Garbo por Belo Horizonte. Pelo contrário, o crédito dispensado à narrativa foi unânime, e até cumprimentos recebeu o narrador, por motivos distintos. Louvaram-lhe uns o ter mantido por tantos anos o sigilo assegurado a Greta Garbo e, generosos, não exprobraram o fato de haver rompido esse silêncio, transcorrido um quarto de século. A atriz não pedira reserva por determinado período, e assim devia entender-se que a desejava para sempre; e sem consulta à Garbo, como quebrar o compromisso? “Você foi formidável, disse-me um amigo; vinte e seis anos com um segredo desses na moita!” Aprendi com isso que, para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua prática. Morresse eu com o meu segredo, ninguém me acharia formidável.
Outros, e esses me comoveram, vieram trazer-me agradecimentos da sua (ou nossa) geração, pelo bem feito a todos com a revelação do episódio. Afinal, de um grupo numeroso de homens que amaram Greta Garbo espiritualmente e na tela, dois, se não a amaram na realidade, pelo menos tiveram esse privilégio de passeá-la incógnita, pelas alamedas de um parque, num crepúsculo de outono mineiro. Et notre âme depuis ce temps tremble et s’étonne — como diz o poeta Verlaine. Tínhamos, Abgar Renault e o cronista, representado nesse passeio a sensibilidade de muitos.
Já me sentia disposto a conceder a Pompeu de Sousa a entrevista solicitada para o Diário Carioca, e a ser ilustrada com a ingênua fotografia tirada por um profissional de jardim, com a “estrela” entre os seus dois amigos, e fac-símiles de bilhetes que ela nos escrevera, quando, rebuscando os meus guardados, verifiquei que faltavam bilhetes e foto. E faltavam pela simples e macunaímica razão de que jamais haviam existido.
A essa altura, porém, tornava-se mais fácil provar de diferentes maneiras o intermezzo belo-horizontino do que invalidá-lo. O Grande Hotel, em que jantáramos com a amiga, tanto podia ser o do filme do mesmo nome, por ela interpretado, como o venerando hotel da rua da Bahia, do saudoso Maletta. Os elementos de credibilidade e mesmo de convicção eram tão intensos, que me surpreendi perguntando, intrigado:
Onde diabo puseram os papéis que estavam na gaveta de cima? Vai ver que esses capetinhas botaram fogo neles!
Não, não botaram. Lamento desencantar os leitores que acharam não só plausível como até contada “com visível fidelidade” a historinha de Greta Garbo em Minas. Peço desculpas a Abgar Renault pelo incômodo que lhe haja causado o muito afeto em que o tenho, e que me levou a associá-lo a essa aventura imaginária. (Era preciso alguém que falasse inglês, e talvez até sueco, na minha pobre fábula.) Mas tirei uma segunda lição — sempre se tiram algumas, das situações mais insignificantes — e é que, vinte e cinco anos depois, tudo pode ser verdade, e é precisamente verdade. O homem guarda certa desconfiança a respeito de fatos ocorridos diante do seu nariz, presumindo que o estejam enganando; mas acredita piamente, por exemplo, no que lhe contarem a respeito de vultos cujo centenário se comemora, e está disposto a admitir qualquer coisa, desde que traga a chancela do tempo. As consequências a tirar desta disposição, no estudo da história, são óbvias: os manuais devem ser lidos e entendidos pelo avesso. Mas o cronista não quis provar absolutamente nada, imaginando que poderia ter conhecido Greta Garbo, por preguiça, aqui mesmo no Brasil. Quis apenas alimentar um modesto sonho de domingo, e los sueños sueños son.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira

sábado, 4 de abril de 2026

Lucas Delgado & Giuliano Eriston – The Scene Sessions: Barcelona

Verso avulso

Suavidade do musgo nos muros gretados.

Mário Quintana, em Caderno H

Capítulo 43 – Marquesa, Porque Eu Serei Marquês



Positivamente, era um diabrete Virgília, um diabrete angélico, se querem, mas era-o, e então...
E então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um dia, que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por grandes influências. Cedi; e tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois, Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.
Pela minha vontade, já; pela dos outros, daqui a um ano.
Virgília replicou:
Promete que algum dia me fará baronesa?
Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma.
O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Atila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Diário de Bernardo Soares

99.

Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida.
Estou num desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago, náusea e desalento.
Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação. Nem olho o dia, para ver o que ele tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição, tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. Nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fora na rua subjetivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. Parei de trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos de absorção e distração que estão borrados nele. Várias vezes a minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali, assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção. Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por detrás dos centros cerebrais que promovem a visão.
Tenho mais sono íntimo do que cabe em mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Millôr: sempre atual

A New Beginning

Starting over
Only what's necessary
With the luxury of simplicity
Just the basics
Step by step
Without stumbling, daily.

Starting renews
Even if it's the first time.
A light search
Every single day
Cutting out the excesses
Removing the weight of the ethereal.

Unpretentious, simple
Simplifying the impossible
Starting over like this.
Following the course of life
Preaching peace as a guide
Simple as that,
Only what's necessary.

Elilson José Batista, em Alumbramentos