Shakespeare
A Companhia de Virgínia está levando
a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por
toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que
lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas
da terra.
Não faz muito que John Donne
explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a
América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das
festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei,
representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao
redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das
ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes,
segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a
prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas
quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da
princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A
Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de
Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa
esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do
mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa
Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um
selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição
de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende
outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo
nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um
macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a
sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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