Quem
sou, quem terei sido?
Respirar
é uma façanha e a cabeça arde. Já não caminham os pés, inchados
pela gota. Deitado no terraço, o que foi monarca da metade do mundo
espanta os bufões e contempla o crepúsculo neste vale da
Extremadura. O sol já se vai, além da serra roxa, e os últimos
reflexos pintam de vermelho as sombras sobre o convento dos
jerônimos.
Com
passo de vencedor entrou em muitas cidades. Foi aclamado e odiado.
Muitos deram a vida por ele; e a muitos mais arrancaram a vida em seu
nome. Depois de quarenta anos de viajar e lutar, o mais alto
prisioneiro de seu próprio império quer descanso e esquecimento.
Hoje fez que celebrassem uma missa de requiém por si próprio. Quem
sou, quem terei sido? Pelo espelho, viu entrar a morte. O que mente
ou o mentido?
Entre
batalha e batalha, à luz das fogueiras, assinou mais de quatrocentos
empréstimos com banqueiros alemães, genoveses e flamengos, e nunca
trouxeram bastante ouro e prata os galeões da América. Ele que
tanto amava a música escutou mais estrondos de canhões e cavalos
que melodias de alaúdes; e no fim de tanta guerra seu filho, Felipe,
herda um império em bancarrota.
Através
da névoa, pelo norte, Carlos tinha chegado à Espanha aos dezessete
anos, seguido por seu séquito de mercadores flamengos e banqueiros
alemães, em uma infinita caravana de carretas e cavalos. Naquele
então ele não sabia nem cumprimentar na língua de Castilha. Mas
amanhã escolherá esta língua para despedir-se:
– Ai,
Jesus! – serão suas últimas palavras.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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