A
doidice que deixava ele doido por ela ia aumentando toda hora, todo
dia, sendo muito pior no período da tarde. A vida ia indo, um dia
atrás do outro, todo dia a mesma coisa, nada no mundo mudava.
Mas
pra Antônio tudo mudou ali, exatamente naquele dia, ô dia
desgraçado pras coisas desandarem, no exato momento em que ele viu o
seu provável destino se recolher à sua frente, como uma passadeira
vermelha que se enrolasse de volta, eita agonia miserável.
Foi
isso que ele sentiu naquele dia, foi ali que começou o desespero de
Antônio, portanto, nunca ia esquecer dos detalhes.
“Cheguei
cedo pro treino, Karina?”
E
ela disse que não ia ter treino aquele dia não, nem treino nem
ensaio, nem naquele dia nem nos próximos, que tinha chegado a hora
dela pôr em prática e por este motivo ia se embora pro mundo, no
que Antônio respondeu: “É o mundo que você quer? Então eu trago
ele pra você.”
A
certeza com que Antônio disse aquilo provocou em Karina uma tristeza
que estava guardada pra mais tarde.
Ela
então se botou a maldizer o mundo, usando cada palavra mais difícil
que a outra.
Nunca
ele imaginou que ela tivesse tamanha sabedoria da língua portuguesa.
Ela também não sabia que sabia, e não sabia sequer se estava
usando palavras adequadas, mas se fez entender perfeitamente.
E
claro que não queria querer ir embora, se pudesse mandar em seu
querer, se fosse possível desenhar o mapa do mundo todinho de novo,
se pudesse inventar outra geografia, outra sociologia, outra
filosofia, outra economia, como Karina falou bonito aquele dia. Falou
que toda vez que se enfeitava toda pensava pra que tinha se enfeitado
se aquela festa era de mentira e pra que ir a tal festa se as noites
em Nordestina nunca vogavam.
Falou
ainda que se não quisesse ser pra sempre um arremedo de gente
gastando seus arremedos de dias numa vida arremedada, tinha que
passar pro outro lado, pois à vera, à vera mesmo, era da risca pra
lá, que tudo acontecia de verdade.
Pela
primeira vez na vida Antônio botou seu próprio querer na frente do
dela e disse, mesmo porque quis dizer, que desse jeito estava se
sentindo um pouquinho desprezado.
Ela
então justificou-se na hora: “Desprezo é quando a importância da
pessoa escapole do pensamento da gente por conta própria, Antônio.
Eu tou tangendo tua presença da minha cabeça que é pra facilitar o
cabimento de outras coisas.”
Por
fim ela falou ainda que ele deixasse de doidice, que mundo não é
coisa que se leve nem se traga, além do que, por mais que tudo
mudasse, ele e ela iam ser pra sempre Antônio de dona Nazaré e
Karina da rua de baixo, e também pra que ser mais que isso se o
mundo nunca ia se passar pra chamar eles pelo nome?
Então,
chorou.
Chorou
até a vontade de chorar secar por completo, deixando no lugar onde
estava, bem no meio do peito, um vazio que vagamente incomodava.
Enxugou
com as costas das mãos suas metades de lágrimas, abriu suas metades
de olhos e viu que metade do vazio do seu peito tinha escapulido pro
quarto, cadê Antônio? Se foi. Pra onde? Será que foi pra casa?
Mas
é claro que Antônio não conseguiu dormir a noite inteira. Se
tivesse dormido teria sonhado, com certeza, sonhos dificilmente
contáveis, dada a falta de sentido e o excesso de detalhe, com
pessoas tentando transformar lamento em aceno, paradas no meio-fio
que se prestava a ampará-las, onde ficavam paradas até depois que o
ônibus já tinha partido, sem razão nenhuma aparente pra isso, a
não ser o propósito de adiar o daqui a pouco mais um tanto.
Como
não dormiu, e por consequência não sonhou, ficou tentando espantar
pensamento que doesse além do suportável. Quase todos, à exceção
de um único, um só, o primeiro e o derradeiro pensamento que
Antônio se deixou pensar naquela noite em que não dormiu, e
portanto não sonhou, pra ficar ali pensando somente num jeito de
impedir que Karina fosse embora de Nordestina levando com ela seu
olhar pelo meio, pra ver o mundo lá, onde o mundo estava.
Adriana
Falcão, in A máquina
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