04/05/2018

Sei lá

vai pela sombra, firme,
o desejo desespero de voltar
antes mesmo de ir-me
antes de cometer o crime,
me transformar em outro
ou em outro transformar-me
quem sabe obra de arte,
talvez, sei lá, falso alarme,
grito caindo no poço,
neste pouco poço nada vejo nem ouço,
mais mais mais
cada vez menos
poder isso, sinto, é tudo que posso,
o tão pouco tudo que podemos
leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura
o barulho do serrote
o barulho de quem lava roupa
parecem o choro de quem chora
uma vida pouca
parece até que está na hora
de levantar
e ver que a vida
nunca vai ser outra
Redonda. Não, nunca vai ser redonda
essa louca vida minha
essa minha vida quadrada,
quadra, quadrinha,
não, nada,
essa vida não vai ser minha.
Vida quebrada ao meio,
você nunca disse a que veio.
Paulo Leminski

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