sábado, 23 de janeiro de 2021

Volta à casa paterna

          Voltar à casa paterna depois de vinte anos de ausência é coisa comovedora, e Fábio tinha vontade de experimentar esta sensação. Infelizmente não chegaria a senti-la, pois seu destino era voltar à casa da família todos os dias, após o trabalho, e já tinha horror a essa obrigação.
Tirar férias de trinta dias para esquecer um pouco o ambiente doméstico e redescobri-lo como novidade não adiantava. Fábio encontrava de volta as mesmas paredes, o mesmo bule, o mesmo periquito. E não notava a sutil, incessante mudança das coisas, que se opera em todo organismo ou habitação.
Nesta rotina decorreram os vinte anos que ele imaginava serem o prazo ideal para a perfeita volta à casa paterna. Tudo continuava aparentemente na mesma, a seus olhos que não sabiam ver o invisível, pois tudo era profundamente dessemelhante do que fora, só que Fábio não reparava. O próprio periquito morrera, estava embalsamado. Mudara o papel de parede, a louça fora substituída, o pai de Fábio também morrera, e a viúva casara outra vez. Voltando todos os dias à casa, ele não sentira a transformação. Foi preciso que o padrasto o convidasse a mudar de domicílio, para ele experimentar uma sensação profunda. A sensação de não voltar à casa paterna.

Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

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