Aviso
prévio
Comecemos
por um aviso prévio. Falo de um equívoco básico que é acreditar
que um escritor tenha, pelo simples facto de lidar com a escrita,
competência para falar da língua. Ora o escritor usa uma língua
dentro da língua, uma pátria que ele inventa não para viver mas
para sonhar. Ele não se serve da língua, o criador literário é
inventado pela língua. O que ele sabe são ignorâncias, ele é um
especialista em ausências e silêncios.
Disse
alguém que só existem dois assuntos sobre os quais o escritor tem
autoridade para falar: viagens e crimes. Ora, é suposto eu vir
falar-vos sobre a língua portuguesa em Moçambique. O tema parece
distante dos dois motivos que credenciam o autor para o texto e para
a fala. Veremos, no entanto, que em certo ângulo de miragem, tudo
isso está próximo, bem mais próximo do que poderíamos imaginar.
A
língua como viagem
Na
última viagem que fiz de avião entre Moçambique e a Europa uma
ideia me ocorreu. E era a seguinte: nos nossos dias, já não há
viagem. Deslocamo-nos, apenas. Embarcamos num continente para, horas
depois, ganharmos destino num outro mundo, a distâncias atingíveis
por números, mas não por humano entendimento. A viagem, essa
antiquíssima epopeia, com os seus desconhecidos meandros, os seus
ritmos e presságios, essa viagem morreu. A velocidade que
possibilita a deslocação acabou matando a viagem.
Com
ela se extinguiu a transição pausada entre gentes e lugares, essa
travessia que convoca travessias das nossas próprias paisagens
interiores. A viagem obriga-nos a sermos outros, a descentrarmo-nos,
a deslocarmo-nos para fora de nós. A viagem implica a
disponibilidade para nos diluirmos, a vontade de sermos apropriados
por outras almas.
A
pergunta que aqui caberia fazer era: o que tem a viagem a ver com o
tema que me proponho abordar?
Sim,
as línguas são as mais poderosas agências de viagens, os mais
antigos e eficazes veículos de trocas. Sendo maioritariamente uma
língua dos outros, o português em Moçambique é uma língua de
migração, um veículo com que saímos de nós e viajamos para
dentro de uma nova cidadania.
Mia
Couto, in E se Obama fosse africano?
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