quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Luso-afonias — A lusofonia entre viagens e crimes (trecho)

Aviso prévio
Comecemos por um aviso prévio. Falo de um equívoco básico que é acreditar que um escritor tenha, pelo simples facto de lidar com a escrita, competência para falar da língua. Ora o escritor usa uma língua dentro da língua, uma pátria que ele inventa não para viver mas para sonhar. Ele não se serve da língua, o criador literário é inventado pela língua. O que ele sabe são ignorâncias, ele é um especialista em ausências e silêncios.
Disse alguém que só existem dois assuntos sobre os quais o escritor tem autoridade para falar: viagens e crimes. Ora, é suposto eu vir falar-vos sobre a língua portuguesa em Moçambique. O tema parece distante dos dois motivos que credenciam o autor para o texto e para a fala. Veremos, no entanto, que em certo ângulo de miragem, tudo isso está próximo, bem mais próximo do que poderíamos imaginar.

A língua como viagem
Na última viagem que fiz de avião entre Moçambique e a Europa uma ideia me ocorreu. E era a seguinte: nos nossos dias, já não há viagem. Deslocamo-nos, apenas. Embarcamos num continente para, horas depois, ganharmos destino num outro mundo, a distâncias atingíveis por números, mas não por humano entendimento. A viagem, essa antiquíssima epopeia, com os seus desconhecidos meandros, os seus ritmos e presságios, essa viagem morreu. A velocidade que possibilita a deslocação acabou matando a viagem.
Com ela se extinguiu a transição pausada entre gentes e lugares, essa travessia que convoca travessias das nossas próprias paisagens interiores. A viagem obriga-nos a sermos outros, a descentrarmo-nos, a deslocarmo-nos para fora de nós. A viagem implica a disponibilidade para nos diluirmos, a vontade de sermos apropriados por outras almas.
A pergunta que aqui caberia fazer era: o que tem a viagem a ver com o tema que me proponho abordar?
Sim, as línguas são as mais poderosas agências de viagens, os mais antigos e eficazes veículos de trocas. Sendo maioritariamente uma língua dos outros, o português em Moçambique é uma língua de migração, um veículo com que saímos de nós e viajamos para dentro de uma nova cidadania.
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

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