O negro açoita o negro
Três escravos africanos percorreram
as ruas de Lima com as mãos amarradas e uma corda no pescoço. Os
verdugos negros também, caminhavam atrás. A cada poucos passos, uma
chicotada, até somar cem; e quando caíam, os açoites eram de
presente.
O alcaide tinha dado a ordem. Os
escravos tinham levado baralhos ao cemitério da catedral,
convertendo-o em sala de jogo usando as lápides como mesa; e bem
sabia o alcaide que não vinha mal a lição para os negros em geral,
de tão insolentes e numerosos que são, e tão amigos de um
alvoroço.
Agora jazem, os castigados, no pátio
da casa de seu amo. Têm as costas em carne viva. Uivam enquanto
lavam as suas chagas com urina e aguardente.
O amo amaldiçoa o alcaide, agita o
punho, jura vingança. Não se brinca assim com a propriedade alheia.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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