Macunaíma, o “herói” de Mário
de Andrade, gabava-se um dia de ter caçado dois veados-mateiros de
uma só vez, quando pegara simplesmente dois ratos chamuscados. Como
seus irmãos contestassem a proeza, ele “parou assim os olhos” no
interlocutor e explicou:
— Eu menti.
Desde domingo, o cronista se sente um
pouco na situação de Macunaíma, embora (ou por isso mesmo) ninguém
pusesse em dúvida a veracidade da passagem de Greta Garbo por Belo
Horizonte. Pelo contrário, o crédito dispensado à narrativa foi
unânime, e até cumprimentos recebeu o narrador, por motivos
distintos. Louvaram-lhe uns o ter mantido por tantos anos o sigilo
assegurado a Greta Garbo e, generosos, não exprobraram o fato de
haver rompido esse silêncio, transcorrido um quarto de século. A
atriz não pedira reserva por determinado período, e assim devia
entender-se que a desejava para sempre; e sem consulta à Garbo, como
quebrar o compromisso? “Você foi formidável, disse-me um amigo;
vinte e seis anos com um segredo desses na moita!” Aprendi com isso
que, para a virtude da discrição, ou de modo geral qualquer
virtude, aparecer em seu fulgor, é necessário que faltemos à sua
prática. Morresse eu com o meu segredo, ninguém me acharia
formidável.
Outros, e esses me comoveram, vieram
trazer-me agradecimentos da sua (ou nossa) geração, pelo bem feito
a todos com a revelação do episódio. Afinal, de um grupo numeroso
de homens que amaram Greta Garbo espiritualmente e na tela, dois, se
não a amaram na realidade, pelo menos tiveram esse privilégio de
passeá-la incógnita, pelas alamedas de um parque, num crepúsculo
de outono mineiro. Et notre âme depuis ce temps tremble et
s’étonne — como diz o poeta Verlaine. Tínhamos, Abgar
Renault e o cronista, representado nesse passeio a sensibilidade de
muitos.
Já me sentia disposto a conceder a
Pompeu de Sousa a entrevista solicitada para o Diário Carioca,
e a ser ilustrada com a ingênua fotografia tirada por um
profissional de jardim, com a “estrela” entre os seus dois
amigos, e fac-símiles de bilhetes que ela nos escrevera, quando,
rebuscando os meus guardados, verifiquei que faltavam bilhetes e
foto. E faltavam pela simples e macunaímica razão de que jamais
haviam existido.
A essa altura, porém, tornava-se mais
fácil provar de diferentes maneiras o intermezzo belo-horizontino do
que invalidá-lo. O Grande Hotel, em que jantáramos com a amiga,
tanto podia ser o do filme do mesmo nome, por ela interpretado, como
o venerando hotel da rua da Bahia, do saudoso Maletta. Os elementos
de credibilidade e mesmo de convicção eram tão intensos, que me
surpreendi perguntando, intrigado:
— Onde diabo puseram os papéis que
estavam na gaveta de cima? Vai ver que esses capetinhas botaram fogo
neles!
Não, não botaram. Lamento
desencantar os leitores que acharam não só plausível como até
contada “com visível fidelidade” a historinha de Greta Garbo em
Minas. Peço desculpas a Abgar Renault pelo incômodo que lhe haja
causado o muito afeto em que o tenho, e que me levou a associá-lo a
essa aventura imaginária. (Era preciso alguém que falasse inglês,
e talvez até sueco, na minha pobre fábula.) Mas tirei uma segunda
lição — sempre se tiram algumas, das situações mais
insignificantes — e é que, vinte e cinco anos depois, tudo pode
ser verdade, e é precisamente verdade. O homem guarda certa
desconfiança a respeito de fatos ocorridos diante do seu nariz,
presumindo que o estejam enganando; mas acredita piamente, por
exemplo, no que lhe contarem a respeito de vultos cujo centenário se
comemora, e está disposto a admitir qualquer coisa, desde que traga
a chancela do tempo. As consequências a tirar desta disposição, no
estudo da história, são óbvias: os manuais devem ser lidos e
entendidos pelo avesso. Mas o cronista não quis provar absolutamente
nada, imaginando que poderia ter conhecido Greta Garbo, por preguiça,
aqui mesmo no Brasil. Quis apenas alimentar um modesto sonho de
domingo, e los sueños sueños son.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
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