20/08/2025

Darl


Ele vai montado no cavalo, olhando Vernon, com sua cara magra intumescida além da pálida rigidez dos olhos. No verão em que fez quinze anos teve um ataque de sono. Uma manhã, quando fui dar de comer às mulas, e as vacas ainda estavam no estábulo, ouvi Pai voltar para casa e chamá-lo. Quando voltávamos para o desjejum, ele passou por nós, carregando os baldes de leite, tropeçando como se estivesse bêbado, e estava a ordenhar quando recolhemos as mulas e fomos para a plantação sem sua companhia. Ficamos uma hora ali e nem assim ele apareceu. Quando Dewey Dell chegou com nosso almoço, Pai mandou-a à procura de Jewel. Encontraram-no no estábulo, sentado no banco, adormecido.
Depois disso, todas as manhãs Pai entrava e acordava-o. Ele ia dormir, então, na mesa, e assim que a refeição terminava, na cama, e quando eu entrava no quarto para dormir ele estava estirado como um morto. Assim mesmo Pai tinha de acordá-lo pela manhã. Ele se levantava porém entorpecido, e ouvia os insultos e queixas de Pai sem dizer uma palavra e apanhava os baldes de leite e ia ao celeiro, e uma vez eu o encontrei dormindo junto à vaca, com o balde meio cheio e as mãos metidas no leite além do pulso e a cabeça encostada ao flanco da vaca.
Depois disso, Dewey Dell teve de ordenhar. Ele ainda se levantava quando Pai o sacudia e fazia as tarefas que lhe indicávamos, com um ar atarantado. Parecia esforçar-se muito para desempenhá-las; parecia tão espantado quanto nós.
Está doente?”, perguntou Mãe. “Você não se sente bem?”
Sim”, disse Jewel. “Estou ótimo.”
Não passa de um preguiçoso, pelo visto”, disse Pai, e Jewel ali a seu lado, quase dormindo em pé. “Não é?”, insistiu, sacudindo Jewel para que respondesse.
Não”, disse Jewel. “Fique em casa hoje e descanse”, disse Mãe.
Com todo aquele terreno para limpar?”, disse Pai. “Se não está doente, então o que tem?
Nada”, disse Jewel. “Estou ótimo.”
Ótimo?”, disse Pai. “Agora mesmo estava dormindo em pé”
Não”, disse Jewel. “Estou ótimo.”
Quero que ele fique em casa hoje”, disse Mãe.
Preciso dele”, disse Pai. “Estamos cheios de trabalho e somos poucos.”
Faça o melhor que puder com Cash e Darl”, disse Mãe. “Quero que ele fique em casa hoje.”
Mas ele não queria. “Estou ótimo”, disse, afastando-se. Mas não estava bem. Qualquer um podia ver. Perdia peso e eu o vi adormecer quando cavava; eu via sua enxada perder o ímpeto, cada vez mais vagarosa, descrevendo um arco que se reduzia, até que parou e ele encostou-se ao cabo, imóvel, sob a quente cintilação do sol.
Mãe queria chamar o médico, mas Pai não desejava gastar dinheiro sem absoluta necessidade, e Jewel parecia bem, excetuando a magreza e o hábito de cair no seno a qualquer momento. Comia com bastante disposição, só que costumava adormecer sobre o prato, com um pedaço de pão a meio caminho da boca e os maxilares ainda mastigando. Jurava, no entanto, que estava ótimo.
Foi Mãe quem encarregou Dewey Dell de tirar o leite das vacas, pagando-lhe alguma coisa, e os outros serviços de casa que Jewel fazia antes do jantar ela encontrou jeito de passá-los a Dewey Dell e a Vardaman. E ela mesma os fazia quando Pai não estava por perto. Preparava, às escondidas, coisas especiais de comer, e guardava para ele. Foi então que, pela primeira vez, percebi que Addie Bundren ocultava o que fazia, logo ela que nos havia ensinado que o embuste era a pior coisa desse mundo triste, e nem mesmo a pobreza se lhe comparava. E, às vezes, quando eu ia dormir, ela ficava sentada no escuro, ao lado de Jewel adormecido. E eu sabia que ela se odiava por praticar o embuste e odiava Jewel porque o amava e, dessa forma, era forçada ao embuste.
Uma noite, ela caiu doente e quando eu fui ao celeiro atrelar as mulas para ir à casa de Tull, não consegui encontrar a candeia. Eu me lembrava de tê-la visto no prego, a noite passada, mas agora, à meia-noite, não se encontrava lá. Assim, atrelei no escuro e fui e trouxe Mrs. Tull pouco depois do alvorecer. E lá estava a candeia, pendendo do prego onde me lembrava de tê-la visto e onde não pudera encontrá-la antes. E depois, uma manhã, pouco antes do sol subir, quando Dewey Dell ordenhava, Jewel entrou no celeiro, pelos fundos, através do buraco na parede dos fundos, com a candeia na mão.
Contei a Cash, e Cash e eu olhamos um para o outro. “Está no cio”, disse Cash. 
Sim”, eu disse. “Mas por que a candeia? E, além disso, todas as noites. Não admira que esteja emagrecendo desse jeito. Você pretende dizer-lhe alguma coisa?”
Não adiantaria”, disse Cash.
O que ele anda fazendo também não adianta nada.”
Eu sei. Mas ele tem de aprender sozinho. Dê-lhe tempo para que ele saiba que isso lhe tira as forças, que perde as forças cada vez mais. Então, ele ficará bom outra vez. Acho que não vou contar a ninguém.”
Sim”, eu disse. “Pedi a Dewey Dell para não contar. Principalmente à Mãe.”
Não. A Mãe, não.”
Depois disso, a coisa tornou-se cômica; ele tão perplexo, ansioso e morto de sono, delgado como uma estaca por onde sobem os feijões, e pensando que era muito esperto, que não percebíamos. Pensei quem poderia ser a moça. Pensei em todas que eu conhecia, mas não pude ter certeza.
Não se trata de uma moça”, disse Cash. “É uma mulher casada desta vizinhança. Uma moça não é tão ousada assim nem tão resistente. É o que mais me desagrada nesse assunto todo.”
Por quê?”, perguntei. “Uma mulher casada é menos perigosa que uma moça. Tem mais juízo.”
Ele me olhou com olhos vacilantes, as palavras vacilando no que pretendia me dizer. “Neste mundo, nem sempre são as coisas menos perigosas que um cara…’
Você quer dizer que as coisas menos perigosas nem sempre são as melhores?”
Ora, o melhor”, disse ele, vacilando novamente. “Não são as coisas melhores aquelas que mais lhe convém... Um rapaz mal saído dos cueiros. É terrível a gente ver... chafurdando na lama dos outros…”
Eis o que tentava me dizer. Quando uma coisa é nova, difícil e cintilante, deve haver nela algo mais que segurança, pois as coisas seguras são justamente as coisas que a gente vem fazendo há tanto tempo que as arestas ficaram gastas, e nelas nada resta que leve um homem a dizer: “Isso não foi feito antes e não pode repetir-se.” Por isso, não contamos a ninguém, nem mesmo quando, passado algum tempo, ele apareceu, de súbito, na plantação, ao nosso lado, e se pós a trabalhar, sem ter tempo para entrar em casa e fingir que estivera na cama a noite toda. Com certeza diria a Mãe que não tinha fome no desjejum e que havia comido um pedaço de pão enquanto atrelava os animais. Mas Cash e eu sabíamos que ele não passava todas aquelas noites em casa e que saia dos bosques quando nos dirigíamos à plantação. Mas não dissemos nada. O verão estava quase a findar; sabíamos que, quando as noites começassem a esfriar, ela encerraria o caso, mesmo que ele não quisesse.
Mas quando veio o outono e as noites começaram a ficar mais longas, a única diferença é que ele sempre estava na cama quando Pai ia acordá-lo, e se levantava naquele primeiro estado de semi-idiotia dos tempos em que o caso começou, e pior ainda do que quando passava noites fora de casa.
Ela é mesmo de matar”, eu disse a Cash. “Até agora eu a admirava, mas confesso que passou a me inspirar respeito.”
Não se trata de mulher”, disse ele.
Você é quem sabe”, eu disse.
Mas ele continuava a me observar. “O que é, então?”
Isto eu gostaria de saber.”
Pode segui-lo pelos bosques, durante a noite, se lhe der vontade”, eu disse. “Eu é que não.” “Não vou espioná-lo”, ele disse. “Eu não quis dizer tal coisa.” Algumas noites depois, senti que Jewel se levantava e saia pela janela, e então ouvi Cash erguer-se e acompanhá-lo. Na manhã seguinte, quando fui ao celeiro, Cash já estava ali, as mulas tinham comido e ele ajudava Dewey Dell a tirar o leite. E quando eu o vi soube logo que ele sabia de que se tratava. De vez em quando eu o surpreendia observando Jewel com expressão estranha, como se o fato de haver descoberto aonde ia Jewel e o que este fazia lhe tivesse dado, afinal, o que pensar. Não era, porém, um olhar de preocupação; era mais o tipo de expressão que eu via nele, quando o encontrava fazendo tarefas de Jewel em redor da casa, tarefas que Pai pensava ainda que Jewel fizesse e que Mãe pensava que eram feitas por Dewey Dell. Portanto, eu nada lhe disse, acreditando que, quando ele houvesse digerido bem a coisa, então me contaria. Mas nunca contou.
Uma manhã — estávamos, então, em novembro, cinco meses depois que o caso começara —, Jewel não foi encontrado na cama e não se juntou a nós na plantação. Foi a primeira vez que Mãe soube alguma coisa do que se passava. Mandou Vardaman ver onde Jewel estava, e depois de algum tempo, desceu também a ver. Parecia que, enquanto o embuste corria tranquilo e monótono, todos nós o aceitávamos, favorecendo-o com a nossa in consciência e talvez com a nossa covardia, já que todas as pessoas são covardes e preferem, naturalmente, qualquer gênero de traição, pois a traição tem o seu lado cômodo. Agora, porém, era como se todos nós tivéssemos — e por uma espécie de acordo telepático de medo admitido — afastados os panos que cobriam a cama e, sentados e nus. olhássemos um ao outro, dizendo: "Esta é a verdade. Ele não voltou para casa. Alguma coisa aconteceu-lhe. Permitimos que alguma coisa lhe acontecesse." Então nós o vimos. Vinha pelo fosso e, depois, virou-se e atravessou a plantação, montado a cavalo. A crina e a cauda agitavam-se, como se, no movimento, elas destacassem as manchas do pelo; Jewel parecia cavalgar um grande catavento sem sela, com uma corda servindo de rédea, e sem chapéu na cabeça. O cavalo era um descendente daqueles pôneis texanos que Flem Snopes trouxera vinte e cinco anos atrás e vendera a dois dólares por cabeça, e ninguém, salvo o velho Lon Quick, conseguira conservar o seu. O velho Lon Quick ainda tinha animais do mesmo sangue porque não pudera livrar-se deles.
Jewel galopou e parou, com os calcanhares fincados nos vazios e o cavalo dançando e girando como se a forma da crina e da cauda e as manchas do pelo nada tivessem em comum com o cavalo de carne e osso a que pertenciam; e ficou ali, em cima do cavalo, a olhar para nós.
Onde arranjou este cavalo?”, perguntou Pai.
Comprei-o”, disse Jewel. “De Mr. Quick.”
Comprou?”, disse Pai. “Com quê? Comprou a crédito, confiado em mim?”
Comprei com o meu dinheiro”, disse Jewel. “Ganhei dinheiro. Não precisam se preocupar com isto."
Jewel”, disse Mãe, “Jewel.”
Está certo”, disse Cash. “Ele ganhou o dinheiro. Limpou os quarenta acres de terra que Quick comprou na primavera passada. Trabalhou sozinho, de noite, à luz da candeia. Eu o vi. Portanto, o cavalo não custou nada a ninguém, exceto a Jewel. Não vejo motivo de preocupações.”
Jewel”, disse Mãe. “Jewel…”
E, em seguida: “Vá direto para casa e durma.”
Ainda não”, disse Jewel. “Agora estou sem tempo. Tenho de providenciar a sela e uma brida. Mr. Quick diz que ele...”
Jewel”, disse Mãe, fitando-o. “Eu lhe darei... lhe darei...”
Então começou a chorar. Chorava forte, sem ocultar o rosto, em pé, em seu casaco puído, olhando para ele e ele no cavalo, olhando para ela embaixo, sua cara adquirindo uma expressão fria e levemente enfermiça, até que desviou, rápido, os olhos, e Cash aproximou-se e amparou-a.
Ande, vá para casa”, disse Cash. “O terreno aqui é muito úmido para você. Ande, vá agora.”
Ela levou as mãos ao rosto e, depois de um instante, afastou-se, tropeçando um pouco nos regos. Mas logo se recobrava e prosseguia. Não olhou para trás. Quando chegou ao fosso, parou e chamou Vardaman. Ele estava olhando o cavalo, que saltava à sua volta.
Deixe-me montar, Jewel”, pediu. “Deixe-me montar, Jewel.” Jewel olhou-o, em seguida desviou de novo a vista, puxando o cavalo pela corda.
Pai observava-o, mordendo o lábio.
Então você comprou um cavalo”, disse. “Sem me consultar, comprou um cavalo. Você nunca pediu meu conselho. Bem sabe como as coisas andam ruins para nós, e mesmo assim comprou um cavalo para eu alimentá-lo. Usou a carne e o sangue para comprar um cavalo com eles.’
Jewel olhou Pai, seus olhos mais pálidos que nunca. “Ele não comerá nada seu”, disse. “O menor bocado. Eu o mataria antes. Portanto, não pense nisso. Não pense nunca.”
Deixe-me montar, Jewel”, disse Vardaman. “Deixe-me montar, Jewel.” Sua voz assemelhava-se ao cricrilar de um grilo na grama, um grilo dos menores. “Deixe-me montar, Jewel.” Aquela noite encontrei Mãe sentada ao lado da cama onde ele dormia, no escuro. Ela chorava forte, talvez porque tinha de chorar discretamente, talvez porque sentisse, a respeito das lágrimas, o que sentira do embuste, odiando-se por ser forçada a isso, e odiando Jewel porque a forçara. E então eu soube que sabia. Eu soube de forma tão nítida como naquele dia em que soube a respeito de Dewey Dell.

William Faulkner, em Enquanto agonizo

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