7.
Hoje,
num dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande
parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto
para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do
guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto e do
gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me
houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o
repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.
Mas
de repente, e no próprio imaginar, que fazia num café no feriado
modesto do meio-dia, uma impressão de desagrado me assaltou o sonho:
senti que teria pena. Sim, digo-o como se o dissesse
circunstanciadamente: teria pena. O patrão Vasques, o guarda-livros
Moreira, o caixa Borges, os bons rapazes todos, o garoto alegre que
leva as cartas ao correio, o moço de todos os fretes, o gato meigo —
tudo isso se tornou parte da minha vida; não poderia deixar tudo
isso sem chorar, sem compreender que, por mau que me parecesse, era
parte de mim que ficava com eles todos, que o separar-me deles era
uma metade e semelhança da morte.
Aliás,
se amanhã me apartasse deles todos, e despisse este trajo da Rua dos
Douradores, a que outra coisa me chegaria — porque a outra me
haveria de chegar?, de que outro trajo me vestiria — porque de
outro me haveria de vestir?
Todos
temos o patrão Vasques, para uns visível, para outros invisível.
Para mim chama-se realmente Vasques, e é um homem sadio, agradável,
de vez em quando brusco mas sem lado de dentro, interesseiro mas no
fundo justo, com uma justiça que falta a muitos grandes génios e a
muitas maravilhas humanas da civilização, direita e esquerda. Para
outros será a vaidade, a ânsia de maior riqueza, a glória, a
imortalidade... Prefiro o Vasques homem meu patrão, que é mais
tratável, nas horas difíceis, que todos os patrões abstratos do
mundo.
Considerando
que eu ganhava pouco, disse-me o outro dia um amigo, sócio de uma
firma que é próspera por negócios com todo o Estado: “você é
explorado, Soares”. Recordou-me isso de que o sou; mas como na vida
temos todos que ser explorados, pergunto se valerá menos a pena ser
explorado pelo Vasques das fazendas do que pela vaidade, pela glória,
pelo despeito, pela inveja ou pelo impossível.
Há
os que Deus mesmo explora, e são profetas e santos na vacuidade do
mundo.
E
recolho-me, como ao lar que os outros têm, à casa alheia,
escritório amplo, da Rua dos Douradores. Achego-me à minha
secretária como a um baluarte contra a vida. Tenho ternura, ternura
até às lágrimas, pelos meus livros de outros em que escrituro,
pelo tinteiro velho de que me sirvo, pelas costas dobradas do Sérgio,
que faz guias de remessa um pouco para além de mim. Tenho amor a
isto, talvez porque não tenha mais nada que amar — ou talvez,
também, porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por
sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspeto do meu
tinteiro como à grande indiferença das estrelas.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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