Papai morava comigo. Éramos dois
fantasmas num apartamento de fundos que via pouca luz do dia, três
quartos, poucas vozes. A televisão ligada sempre no volume máximo,
Globo News, papai depois de velho fingia ser jornalista. “A Bolsa
caiu hoje.” Assunto estúpido, eu pensava, o assunto mais longe da
realidade possível, impossível de ser retrucado. Mas seu Natan
escolhia puxar esse assunto no jantar, sopa a maioria das vezes, ou
purê de batata, os dentes dele estragados, a teimosia em não querer
usar a dentadura encomendada pelo neto, paga pelo neto. “A Bolsa
caiu hoje”, repetiu. Alzheimer. Mamãe morrera com Alzheimer e eu
pensava que era questão de dias até que papai, sempre esquecido,
preso no seu mundo interior de rigidez, desse sinal da doença. “Pega
um copo d’água, minha filha”, ele pediu, e o copo d’água do
lado dele, em cima da mesa, e apontei com os olhos e dedos, olha o
copo aí, papai, mas sem falar, e ele limpou os olhos com as costas
da mão, pegou o copo, bebeu e voltou a falar na Bolsa. Alzheimer.
Nunca vi meu pai chorando, nem depois
de velho. Quando mamãe morreu, cedo, aos 64 anos, quase minha idade
atual, cedo demais, meu pai não chorou. Por um tempo ainda trabalhou
na loja de oito às sete, até as cinco às sextas, como se nada
tivesse acontecido. Afonso já morrera, Nicolas em São Paulo,
Marquinhos em Israel. Ia almoçar to dos os dias lá em casa, me
fazer companhia, “Você fica muito sozinha sem os meninos e
Afonso”, dizia. Mas o nome de Afonso ele não falava, mencionava
apenas os meninos, o ponto final com a frase incompleta. Um dia
disse, com o mesmo tom de voz que falou que “A Bolsa caiu hoje”,
que ia se aposentar.
“Vou vender a loja.”
Na época ainda comia de tudo, menos
carne vermelha, porque lhe dava azia, e sempre falava isso repetindo
a entonação e o gestual, a mão enorme repousando sobre o estômago,
o esgar da boca, o lado esquerdo do rosto esboçando a careta com que
o direito convivia diariamente.
Papai veio morar comigo muito depois,
relutou até quando pôde, “Deixar meu apartamento...”, repetia,
a frase com reticências de uns vinte pontinhos, pausa de segundos.
“Não quero.” Pedia desculpas mas não podia aceitar o convite.
Porém já almoçava e jantava aqui, passava o dia cochilando no
quarto de hóspedes. Não deixava o apartamento porque aquele dois
quartos na Tijuca fora tudo que conseguira juntar trabalhando por 60
anos. Sem a mulher e o trabalho, sair do apartamento seria assumir o
fim da vida. Pensar sobre a vida.
Um dia, cinco anos depois, como falou
“A Bolsa caiu hoje” ou “Vou vender a loja”, disse “Vou
aceitar a sobremesa.” Levantei-me e fui pegar a compota de pêssego
na geladeira. Quando estava de costas, ele disse, no mesmo tom de
voz, como se tivesse decidido naquela hora: “Vou aceitar seu
convite.”
Falou com vergonha.
Quando voltei à mesa trazendo a
compota, o prato e os talheres, ele tinha os olhos baixos. Não
precisei responder nada, combinar coisa alguma. Ele mesmo tratou da
mudança como quem cumpre seu último trabalho. Colocou o apartamento
para vender, cuidou dos papéis, chamou o caminhão e um dia disse,
depois do jantar: “Já vou me deitar.” Reticências. “Boa-noite,
filha.”
Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém
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