quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Do Amor e Outros Demônios — Capítulo Cinco


 
O bispo chamou Delaura em capítulo a seu escritório e ouviu sem contemplações sua confissão descarnada e completa como se estivesse oficiando não um sacramento, mas uma diligência judicial.
A única fraqueza que teve para com ele foi manter em segredo sua verdadeira falta, mas cassou-lhe comissões e privilégios sem qualquer explicação pública e mandou-o servir como enfermeiro de leprosos no hospital do Amor de Deus. O padre implorou o consolo de rezar a missa das cinco para os doentes, o que lhe foi concedido.
Ajoelhou-se com uma sensação de alívio profundo e rezaram juntos um pai-nosso. O bispo lhe deu a bênção e o ajudou a levantar-se.
Que Deus se apiade de ti — disse. E apagou-o de seu coração.
Mesmo depois de começar a cumprir a condenação, altos dignitários da diocese intercederam em seu favor, mas o bispo foi irredutível. Rejeitou a teoria de que os exorcistas acabam possuídos pelos mesmos demônios que pretendem conjurar. Seu argumento final foi que Delaura não se decidira a enfrentá-los com a autoridade inapelável de Cristo, mas incorrera na impertinência de discutir com eles questões de fé. Foi isso, disse o bispo, que comprometeu sua alma e colocou-o à beira da heresia. Mas causou surpresa que o prelado tivesse sido tão severo com seu homem de confiança, por uma culpa que no máximo mereceria uma penitência de velas verdes.
Martina se encarregou de Sierva María com uma dedicação exemplar.
Também ela ficara mortificada com a negativa do indulto, mas a menina só o notou numa tarde de bordado no terraço, quando ergueu avista e a viu banhada em lágrimas. Martina não disfarçou o seu desespero.
Prefiro estar morta a continuar morrendo nesta prisão.
Sua única esperança, explicou, era o pacto de Sierva María com os demônios. Queria saber quem eram, como eram, como negociar com eles. A menina enumerou seis, e Martina identificou um deles como um demônio africano que certa vez havia perseguido a casa de seus pais— Uma expectativa a animou.
Quero falar com ele. — E precisou o recado: — Dou minha alma em troca.
Sierva Mana se deleitou na malvadeza: — Ele não fala. Basta olhar a cara e já sabe o que quer dizer. — E com toda seriedade prometeu avisá-la para que se encontrasse com o tal na próxima visita.
Cayetano submeteu-se com humildade às condições infames do hospital. Os leprosos, em estado de morte legal, dormiam no chão de terra batida em barracas de folhas de palmeira. Muitos se arrastavam do jeito que podiam. As terças-feiras, dia de curativo geral, eram exaustivas. Cayetano se impôs o sacrifício purificador de lavar os corpos dos doentes em pior estado nas artesas da cocheira. Nisso estava ocupado, na primeira terça-feira da penitência, com a dignidade sacerdotal reduzida ao rude camisolão de enfermeiro, quando apareceu Abrenuncio no alazão presenteado pelo marquês.
Como vai esse olho? — perguntou.
Cayetano não lhe deu oportunidade para falar de sua desgraça ou se condoer do seu estado. Agradeceu o colírio, que de fato havia apagado da retina a imagem do eclipse.
Não tem nada que agradecer — disse Abrenuncio. — Dei-lhe o melhor que conhecemos para a ofuscação solar: gotas de água da chuva.
Convidou-o a lhe fazer uma visita. Cayetano explicou que não podia sair sem licença. Abrenuncio não deu importância.
Se o senhor conhece as fraquezas destes reinos, há de saber que as leis só são cumpridas durante uns três dias — disse. Colocou a sua biblioteca à disposição do padre para que continuasse seus estudos enquanto aguardava justiça. Cayetano o escutou com interesse mas sem nenhuma ilusão. — Aí lhe deixo essa angústia — concluiu Abrenuncio esporeando o cavalo. — Nenhum deus pode ter feito um talento como o seu para desperdiçá-lo esfregando morféticos.
Na terça seguinte levou-lhe de presente o volume das Cartas filosóficas em latim. Cayetano o folheou, farejou por dentro, calculou seu valor. Quanto mais o apreciava, menos entendia Abrenuncio.
Gostaria de saber por que é tão amável comigo — disse.
Porque nós ateus não conseguimos viver sem os padres — disse Abrenuncio. — Os pacientes nos confiam seus corpos, mas não suas almas, e nós vivemos como os diabos, tratando de disputá-las com Deus. — Isso não combina com as suas crenças — disse Cayetano.
Nem eu mesmo sei quais são elas — disse Abrenuncio.
O Santo oficio sabe — disse Cayetano.
Ao contrário do que se poderia esperar, aquele dardo entusiasmou Abrenuncio.
Venha à minha casa e discutiremos isso com calma — disse. — Não durmo mais de duas horas por noite, e sempre aos bocados, de modo que qualquer momento será bom.
Esporeou o cavalo e partiu.
Cayetano aprendeu depressa que um grande poder não se perde pela metade. As mesmas pessoas que antes disputavam a sua intimidade agora fugiam dele como de um leproso. Seus amigos das artes e letras mundanas se afastaram para não ter problemas com o Santo Ofício. Mas para ele tanto fazia. Só tinha coração para Sierva Maria, e ainda assim não lhe bastava. Estava convencido de que não haveria oceanos, nem leis da terra ou do céu, nem poderes do inferno que pudessem separá-los.
Uma noite, por uma inspiração desesperada, fugiu do hospital para tentar entrar de qualquer maneira no convento. Havia quatro portas. A principal, que era a da roda; outra de igual tamanho do lado do mar, e duas pequenas de serviço. As duas primeiras eram intransponíveis.
Foi fácil a Cayetano localizar da praia a janela de Sierva María no pavilhão da prisão, por ser a única ainda não condenada. Passou em revista palmo a palmo o edifício, procurando em vão uma brecha mínima por onde subir.
Estava prestes a desistir, quando se lembrou do túnel por onde a população abastecia o convento durante a Cessatio a Divinis. Os túneis, de quartéis ou de conventos, eram muito da época. Havia nada menos de seis conhecidos na cidade, e outros foram sendo descobertos no curso dos anos com suas arandelas de folhetim. Um leproso que tinha sido coveiro apontou a Cayetano o que buscava, um cano de esgoto em desuso que comunicava o convento com um solar vizinho, onde ficava no século anterior o cemitério das primeiras clarissas.
Saía justo debaixo do pavilhão das presas e diante de um muro alto e escabroso que parecia inacessível. Mas Cayetano conseguiu escalá-lo ao cabo de muitas tentativas frustradas, tal como acreditava conseguir tudo: pelo poder da oração.
O pavilhão ficava um remanso na madrugada. Certo de que a vigilante dormia fora, ele só se preocupava com Martina Laborde, que roncava com a porta entreaberta. Até esse momento, a tensão da aventura o mantivera sempre inquieto, mas quando se viu diante da cela, com o cadeado aberto na argola, seu coração disparou. Empurrou a porta com a ponta dos dedos, parou de viver enquanto durou o ranger dos gonzos, e viu Sierva María dormindo à luz da lamparina do Santíssimo. Ela abriu os olhos, mas custou a reconhecê-lo com o camisolão grosso dos enfermeiros de leprosos.
Ele mostrou as unhas ensanguentadas.
Escalei o muro — disse, sem voz.
Sierva María não se comoveu.
Para quê? — disse.
Para te ver — disse ele.
Não soube o que mais dizer, atarantado com o tremor das mãos e as frestas da voz.
Vá embora — disse Sierva María Ele fez que não várias vezes com a cabeça, de medo que lhe faltasse a voz.
Vá embora — repetiu ela. — Ou começo a gritar. — Ele estava tão perto que pôde sentir sua respiração virgem.
Nem que me matem — disse. Logo se sentiu do lado de lá do terror, e acrescentou com voz firme: — Se vais gritar, podes ir começando.
Ela mordeu os lábios. Cayetano, sentou-se na cama e fez um relato minucioso de seu castigo, mas sem dizer as razões. Ela entendeu mais do que ele era capaz de dizer. Olhou sem receio e perguntou por que estava sem o pano no olho.
Não preciso mais — disse ele, animado. Agora fecho os olhos e vejo uma cabeleira como um rio de ouro.
Saiu duas horas depois, feliz porque Sierva María concordou que voltasse, desde que trazendo os seus doces prediletos dos portais. Na noite seguinte, chegou tão cedo que ainda havia vida no convento e ela estava com o candeeiro aceso para terminar o bordado de Martina. Na terceira noite, levou mechas e óleo para alimentar a luz. Na quarta, um sábado, ficou várias horas ajudando-a a catar os piolhos que tinham voltado a proliferar na prisão. Quando a cabeleira ficou limpa e penteada, ele sentiu mais uma vez o suor gelado da tentação.
Deitou-se ao lado de Sierva María com a respiração opressa e viu seus olhos diáfanos a um palmo dos seus. Ambos ficaram perturbados.
Ele, rezando de medo, sustentou o olhar da menina. Ela se atreveu a falar: — Quantos anos tem? — Fiz trinta e seis em março — disse ele.
Ela o perscrutou.
-Já é um velhinho — disse com uma Ponta de zombaria. Reparou nos sulcos de sua testa e acrescentou com toda a inclemência da idade: — Um velhinho enrugado. — Ele o aceitou de bom humor. Sierva Maria lhe perguntou por que tinha uma mecha branca.
É um sinal — disse — De tintura — disse ela.
Natural — disse ele. — Minha mãe também tinha.
Até então não deixara de olhá-la nos olhos, e ela não dava mostras de se render. Ele suspirou fundo e recitou: — “Ó doces prendas por mim mal achadas.” Ela não entendeu.
É um verso do avô de minha tataravó explicou ele. — Escreveu três éclogas, duas elegias, cinco canções e quarenta sonetos. E a maioria inspirada por uma portuguesa sem maiores encantos que nunca foi dele, primeiro porque era casado e segundo porque ela casou com outro e morreu antes dele.
Também era frade? — Soldado — disse ele.
Alguma coisa mexeu no coração de Sierva María, pois ela quis ouvir o verso de novo. Ele o repetiu e dessa vez prosseguiu, com voz firme e bem-articulada, até o último dos quarenta sonetos do cavaleiro do amor e de armas, dom Garcilaso de La Vega, morto na flor da idade por uma pedrada de guerra.
Ao terminar, Cayetano tomou a mão de Sierva María e a pôs sobre seu coração. Ela sentiu lá dentro o fragor da tempestade.
Estou sempre assim — disse ele.
E sem lhe dar tempo ao pânico, libertou-se da matéria turva que o impedia de viver. Confessou que não passava um instante sem pensar nela, que tudo o que bebia e comia tinha gosto dela, que a vida era ela a toda hora e em toda parte, como só Deus tinha o direito e o poder de ser, e que o gozo supremo de seu coração seria morrer com ela.
Continuou falando sem a fitar, com a mesma fluidez e o mesmo calor com que recitava, até que teve a impressão de que Sierva María tinha dormido.
Mas ela estava atenta, fixos nele os seus olhos de corça assustada.
Apenas se atreveu a perguntar: — E agora? — Agora nada — disse ele. — Basta que saibas.
Não pôde continuar. Chorando em silêncio, passou o braço por baixo da cabeça dela, para que lhe servisse de travesseiro, e ela se enroscou a seu lado. Ficaram assim, sem dormir, sem falar, até que os galos começaram a cantar e ele teve que se apressar para chegar a tempo à missa das cinco. Antes de sair, Sierva María o presenteou com um colar de Odudua: dezoito polegadas de contas de nácar e coral.
O pânico foi substituído pelo naufrágio do coração. Delaura não tinha sossego, fazia as coisas de qualquer jeito, flutuava, até a hora feliz em que fugia do hospital para ir ver Sierva Maria. Chegava ofegante à cela, encharcado pelas chuvas perpétuas, e ela o esperava com ansiedade, mas bastava o sorriso dele para lhe devolver a calma. Uma noite, foi ela quem tomou a iniciativa com os versos que aprendia de tanto ouvir: — “Quando paro a contemplar meu estado e ver os passos por onde me trouxeste...”. — recitou. E perguntou com picardia: — Como continua? “Eu acabarei pois me entreguei sem arte a quem me saberá perder e acabar” — disse ele.
Ela repetiu os versos com a mesma ternura e continuaram até o fim do livro, saltando trechos, pervertendo e tergiversando os sonetos conforme a conveniência, brincando com eles à vontade, com um domínio de donos. De cansaço, pegaram no sono. A guardiã entrou com o desjejum às cinco, em meio à algazarra dos galos, e ambos despertaram assustados. Foi como se a vida parasse para eles. A guardiã pôs o desjejum na mesa, fez uma inspeção de rotina com a lanterna e saiu sem ver Cayetano na cama.
Lúcifer é incrível — zombou ele ao respirar de novo. — Também a mim ele tornou invisível.
Sierva María teve que caprichar na sua astúcia para evitar que a guardiã voltasse a entrar na cela aquele dia. Tarde da noite, depois de um dia inteiro de disfarces, se sentiam amados desde sempre, Cayetano, meio de brincadeira e meio a sério, se atreveu a soltar o cordão do espartilho de Sierva Maria. Ela protegeu o peito com as duas mãos; houve uma chispa de raiva em seus olhos e uma rajada de rubor lhe incendiou o rosto. Cayetano lhe agarrou as mãos com o polegar e o indicador, como se estivessem em fogo vivo, e as afastou do peito.
Ela tentou resistir, e ele lhe opôs uma força terna mas resoluta. 4 — Repete comigo — disse: — “Enfim a vossas mãos hei chegado.” Ela obedeceu.
— “Onde sei que hei de morrer”, — prosseguiu ele, enquanto abria o espartilho com seus dedos gelados. Ela repetiu quase sem VOZ trêmula de medo: — Para que só em mim seja provado o quanto corta uma espada num rendido." Então ele a beijou nos lábios pela primeira vez. O corpo de Sierva María estremeceu com gemido, e ela soltou uma tênue brisa marinha e se abandonou à própria sorte. Ele passou por sua pele as gemas dos dedos, tocando-a muito de leve, e viveu pela primeira vez o prodígio de se sentir em outro corpo. Uma voz interior o fez ver quão longe tinha estado do diabo em suas insônias de latim e grego, nos êxtases da fé, nos ermos da pureza, enquanto ela convivia com todas as potências do amor livre na senzala dos escravos. Deixou-se guiar por ela, tateando no escuro mas se arrependeu no último instante e desmoronou num cataclismo moral. Ficou deitado de costas, com os olhos fechados. Sierva María se assustou com o seu silêncio e sua quietude de morte, e o tocou com um dedo.
Que houve? -perguntou.
Deixa-me agora — murmurou ele. — Estou rezando.
Nos dias seguintes, só tiveram instantes de sossego quando juntos.
Não se fartavam de falar sobre as dores do amor. Esgotavam-se em beijos, declamavam chorando com lágrimas copiosas versos de namorados, cantavam um ao ouvido do outro, revolviam-se em pantanais de desejo até o limite de suas forças: exaustos mas virgens. Pois ele decidira manter o seu voto até receber o sacramento, e ela aceitou.
Nas pausas da paixão, trocavam provas excessivas. Ele afirmou que seria capaz de qualquer coisa por ela. Sierva Maria pediu com crueldade infantil que comesse uma barata. Ele agarrou uma antes que ela pudesse impedir e comeu-a viva. Em outros desafios alucinados, perguntou se ela cortaria a trança por ele, e ela disse que sim, mas avisou entre brincando e séria que só se ele casasse com ela para cumprir a condição da promessa. Ele levou a cela uma faca de cozinha e disse: “Vamos ver se é de verdade”. Ela virou-se de costas para que ele pudesse cortar pela raiz. Insistiu: “Tenha coragem”. Não teve. Dias depois, ela lhe perguntou se era capaz de se deixar degolar como um cabrito. Ele disse que sim com toda firmeza. Ela agarrou a faca e se dispôs a experimentar— Ele saltou de terror com o calafrio final. “Tu não” disse. Ela, rindo muito, quis saber por quê, e ele disse a verdade: “Porque tu, sim, tens coragem”.
Nos remansos da paixão, começaram a desfrutar também dos tédios do amor cotidiano. Ela mantinha a cela limpa e arrumada para quando ele chegava com a naturalidade de marido que volta para casa. Cayetano a ensinava a ler e escrever, e a iniciava no culto da poesia e na devoção do Espírito santo, à espera do dia feliz em que fossem livres e casados.
Ao amanhecer do dia 27 de abril, Sierva María começava a dormir depois que Cayetano deixou a cela, quando entraram sem avisar para buscá-la. Iam iniciar os exorcismos. Foi o ritual de um condenado à morte. Arrastaram-na para o tanque, lavaram-na a baldes de água, despojaram-na aos puxões de seus colares e puseram-lhe o camisolão brutal dos hereges. Uma irmã jardineira cortou-lhe a cabeleira até a altura da nuca com quatro mordidas de uma tesoura de podar e atirou-a numa fogueira acesa no pátio. A irmã cabeleireira acabou de tosar-lhe os cabelos até o tamanho de meia polegada, como usavam as clarissas; debaixo da mantilha, e foi lançando-os ao fogo à medida que cortava. Sierva María viu a deflagração dourada, ouviu o crepitar da lenha virgem e sentiu a exalação acre de chifre queimado sem que se movesse um músculo de seu rosto impenetrável. Por fim lhe puseram uma camisa-de-força, a cobriram com um trapo fúnebre, e dois escravos a levaram à capela numa padiola de soldados.
O bispo tinha convocado o Cabido Eclesiástico, composto de prebendados e esclarecidos, e estes escolheram quatro dos seus para acompanhar o processo de Sierva María. Num último ato de afirmação, o bispo se sobrepôs às misérias de sua saúde. Determinou que a cerimônia não fosse na catedral, como em outras ocasiões memoráveis, mas na capela do convento de Santa Clara, e assumiu em pessoa a execução do exorcismo.
As clarissas, encabeçadas pela abadessa, estavam no coro desde cedo, e ali cantaram as matinas com acompanhamento de órgão, comovidas pela solenidade do dia que despontava. Em seguida entraram os prelados do Cabido Eclesiástico, os prebostes de três ordens e os principais do Santo Ofício. Além destes últimos, não havia nem haveria nenhum laico.
O bispo entrou por último com aparato de grande cerimônia, levado em liteira por quatro escravos, numa aura de aflição inconsolável.
Sentou-se defronte do altar-mor, junto ao catafalco de mármore dos funerais grandiosos, numa poltrona giratória que facilitava o movimento do corpo. Às seis em ponto, os dois escravos levaram Sierva María na padiola, com a camisa-de-força e ainda coberta com o pano roxo.
O calor se tornou insuportável durante a missa cantada. Os baixos do órgão retumbavam no teto, mal deixando lugar para as vozes insípidas das clarissas invisíveis atrás das gelosias do coro. Os dois escravos meio nus que tinham levado a padiola de Sierva María ficaram de guarda junto a ela. No final da missa, a descobriram e deixaram estendida como uma princesa morta sobre o catafalco de mármore. Os escravos do bispo o levaram na poltrona para junto dela, e os deixaram sozinhos num amplo espaço em frente ao altar-mor.
Seguiram-se uma tensão invisível e um silêncio absoluto que pareciam o prelúdio de algum prodígio celestial. Um acólito colocou ao alcance do bispo o acéter com água benta. Ele agarrou o aspersório como se fosse uma maça de guerra, inclinou-se sobre Sierva María e a aspergiu ao longo do corpo murmurando uma oração.
Em seguida proferiu o conjuro que estremeceu os alicerces da capela.
Quem quer que sejas — gritou. — Por ordem de Cristo, Deus e Senhor de tudo o que é visível e invisível, de tudo o que é, que foi e que há de ser, abandona esse corpo redimido pelo batismo e volta às trevas.
Sierva María, fora de si pelo terror, gritou também. O bispo alteou a voz para fazê-la calar, mas ela gritou com mais força. O bispo aspirou fundo e tornou a abrir a boca para continuar o conjuro, mas o ar lhe morreu dentro do peito sem que o pudesse expulsar. Desabou de bruços, boqueando como um peixe fora d'água, e a cerimônia terminou com um estrépito colossal.
Naquela noite, Cayetano encontrou Sierva María tiritando de febre dentro da camisa-de-força. O que mais o indignou foi o escândalo do crânio pelado.
Deus do céu — murmurou com uma raiva surda, enquanto a livrava das correias. -Como é possível que permitas tamanho crime? — Logo que se soltou, Sierva Maria lhe pulou ao pescoço e ficaram abraçados sem falar, ela chorando. Deixou-a desabafar. Depois ergueu-lhe o rosto e disse: Nada de mais lágrimas. — E concluiu com Garcilaso: — “Bastam as que por vós tenho chorado.” Sierva Maria contou o terrível episódio da capela. Falou do estrondo dos coros que eram como de guerra, dos berros alucinados do bispo, de seu hálito abrasador, de seus belos olhos verdes incendiados pela emoção.
Parecia o diabo — disse.
Cayetano tentou acalmá-la. Assegurou que apesar de sua corpulência titânica, de sua voz tempestuosa e de seus métodos marciais, o bispo era um homem bom e sábio. De modo que o pavor de Sierva Maria era compreensível, mas não corria nenhum perigo.
[...]

Gabriel Garcia Márquez, em Do Amor e Outros Demônios

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