69.
Chove muito, mais, sempre mais... Há
como que uma coisa que vai desabar no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e
montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de
chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro
pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece
que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a
vela.
Uma espécie de anteneurose do que
serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que
lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de
intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva, gemido pelo
vento. E o frio do que não sentirei morde o coração atual.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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