quarta-feira, 12 de novembro de 2025

1599 – Quito

Os cafusos de Esmeraldas

Olham vigiando. Não movem nem as pestanas. Desconfiam. Esse pincel que está roubando-lhes a imagem, não estará roubando-lhes a alma? O pincel é mágico como o espelho. Como o espelho, se apodera da gente.
De vez em quando espirram, por culpa destes frios de Quito, e o artista reclama. Incômodos, meio enforcados pelas golas, tornam a colocar-se em pose, rígidos, até o próximo espirro. Estão nesta cidade há alguns dias e ainda não entendem porque gente tão poderosa veio viver em um lugar tão frio, nem entendem porque as casas têm portas nem porque as portas têm fechaduras, trancas e cadeados.
Há meio século, a tempestade arrebentou um barco negreiro contra os arrecifes da costa, pertinho do boca do rio Esmeralda. O barco levava escravos da Guiné para vender em Lima. Os negros fugiram e se perderam monte adentro. Fundaram aldeias e tiveram filhos com mulheres indígenas e esses filhos também se multiplicaram. Dos três que o pintor Andrés Sánchez Gallque está retratando agora, dois nasceram dessa mistura de africanos e equatorianas. O outro, Francisco de Arobe, veio da Guiné. Tinha dez anos na época do naufrágio.
Estão disfarçados de floridos senhores, saios e capas, punhos bordados, chapéus, para que não deem má impressão ao rei quando receba, em Madrid, este retrato de seus novos súditos, estes bárbaros que até agora tinham sido invencíveis. Também levam lanças nas mãos, colares de dentes e conchas sobre as roupas espanholas; e nos rostos mostram adornos de ouro que atravessam as suas orelhas, seus narizes e seus lábios.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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