Os cafusos de Esmeraldas
Olham vigiando. Não movem nem as
pestanas. Desconfiam. Esse pincel que está roubando-lhes a imagem,
não estará roubando-lhes a alma? O pincel é mágico como o
espelho. Como o espelho, se apodera da gente.
De vez em quando espirram, por culpa
destes frios de Quito, e o artista reclama. Incômodos, meio
enforcados pelas golas, tornam a colocar-se em pose, rígidos, até o
próximo espirro. Estão nesta cidade há alguns dias e ainda não
entendem porque gente tão poderosa veio viver em um lugar tão frio,
nem entendem porque as casas têm portas nem porque as portas têm
fechaduras, trancas e cadeados.
Há meio século, a tempestade
arrebentou um barco negreiro contra os arrecifes da costa, pertinho
do boca do rio Esmeralda. O barco levava escravos da Guiné para
vender em Lima. Os negros fugiram e se perderam monte adentro.
Fundaram aldeias e tiveram filhos com mulheres indígenas e esses
filhos também se multiplicaram. Dos três que o pintor Andrés
Sánchez Gallque está retratando agora, dois nasceram dessa mistura
de africanos e equatorianas. O outro, Francisco de Arobe, veio da
Guiné. Tinha dez anos na época do naufrágio.
Estão disfarçados de floridos
senhores, saios e capas, punhos bordados, chapéus, para que não
deem má impressão ao rei quando receba, em Madrid, este retrato de
seus novos súditos, estes bárbaros que até agora tinham sido
invencíveis. Também levam lanças nas mãos, colares de dentes
e conchas sobre as roupas espanholas; e nos rostos mostram adornos de
ouro que atravessam as suas orelhas, seus narizes e seus lábios.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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