Escuta, Judas.
Antes que você parta pro teu baile.
A morte nos absorve inteiramente.
Tudo é aconchego árido.
Cheiro eterno de Proderm.
Mesa posta, e as garras da vontade.
A gana de procurar um por um
e pronunciar o escândalo.
Falar sem ser ouvida.
Desfraldar pendengas: te desejo.
Indiferença fanática ao ainda não.
Desde que voltei tenho sobressaltos
ao ouvir tua voz ao telefone.
Incertas. Às vezes me despeço com
brutalidade.
Chego a parecer ingrata.
Não, Pedro, não quero mais brincar de
puta. Imagino outra coisa; que cochilo, e Luz me cobre com seu
peso-pluma. Consulto o boy da casa sobre a hora e o minuto do próximo
traslado. Circulo sob o lustre do saguão. Espera ardente,
transístor, polaroide, passaporte verde, o céu azul. Deixo as
chaves do 1114 soltas no balcão. Desço para o parque. Pego a China
em ondas curtas, pego o pó com medo, bato o filme até o fim
procurado desde a hora em que ela pôs os pés no sul.
Ou não era suicídio sobre a relva.
Eram brincos caídos
e um anel de jade que selasse numa dura
castidade minha fúria de batalha
que viaja e volta.
Desperto e vejo quatro estrelas
pela escotilha do comando.
Quase encosto no peito do piloto.
Tudo que eu nunca te disse, dentro destas
margens.
A curriola consolava.
O assunto era sempre outro.
Os espiões não informavam direito.
A intimidade era teatro.
O tom de voz subtraía um número.
As cartas, quando chegavam, certos
silêncios, nunca mais.
Excesso de atenção varrido para baixo
do capacho.
Risco a lápis sobre o débito. Vermelho.
Agora chega. Agora, aqui, de repente, de
propósito, de batom,
leio: “Contas Novas”, em letras
plásticas.
Três variações de assinatura.
Três dias para o livro de cheques desta
agência.
Demito o agente e o atravessador.
Felicidade se chama meios de transporte.
Saída do cinema hipnótico.
Ascensão e queda e ascensão e queda
deste império mas vou abrir um lacre.
Antes disso, um sus: pousa aqui.
Ouve: “Como em turvas águas de
enchente…”
É lá fora. Espera.
Ana Cristina Cesar
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