É
difícil achar bolas de gude. Todo mundo mora no asfalto, a cidade
está uma merda, não existe mais chão de terra.
Mas,
falando da bola de gude, o único lugar que vende é a loja do seu
Pereba. A gente quando fala com ele chama o Pereba de Pereira, mas
ele é conhecido como Pereba, e não gosta de ser chamado assim, fica
furioso. Pereba é uma espécie de sarna, uma coisa que dá na pele e
parece que não tem cura, e o pior é que pega, e o Pereba tem essa
coisa, ninguém pode encostar nele, por isso o Pereba nunca casou, e
se isso por um lado é bom, pois toda mulher casada é um pentelho,
menos a mãe da gente, é claro, por outro é ruim, pois o Pereba não
consegue ninguém para afogar o ganso.
Felizmente
aqui neste subúrbio a gente tem uma porção de lugares de terra
batida onde podemos cavar em linha reta os três buracos do jogo. Meu
nome é Zé e eu sou o melhor de todos, mas ultimamente mudou para a
vizinhança um crioulo chamado Anderson, e o puto é bom, você
pergunta bola ou búrica, búrica é o buraco no chão, e o Anderson
quase sempre diz bola, e com uma pontaria certeira pra caralho acerta
com a bola dele a minha bola, jogando ela para longe, e depois joga a
dele dentro da búrica.
Todo
mundo sabe como se joga bola de gude, o sujeito coloca a bola no dedo
indicador dobrado e com o polegar faz a bola correr pelo chão, para
acertar outra ou o buraco.
Esqueci
de dizer que o puto do Anderson é canhoto. Esses canhotos são foda,
eu demorei para descobrir os macetes dele.
Então
veio o campeonato, tinha gente do meu bairro e de mais três outros,
e o campeão não ia ganhar nenhum dinheiro, mas ia ficar famoso e
assim podia pegar as melhores gurias da área. Eu estava de olho na
Marlene, ela não dava bola para mim, mas se eu fosse o campeão ela
daria. Dar bola e mais alguma coisa, a bunda dela era de fechar o
comércio.
Durante
o campeonato, eu fui eliminando os meus adversários, até que
ficaram dois para a final. Eu e o puto do Anderson.
Um
montão de gente foi assistir à partida. Marlene estava lá e aquilo
me perturbou. Pensando nela eu já havia tocado uma porção de
punhetas.
O
jogo foi duro. A partida era de cinco pontos. Eu suava nas mãos e
aquilo atrapalhava o meu jogo. Anderson fez dois a zero, puta merda,
ou eu reagia ou me fodia em copas. Fiz dois buracos, empatamos.
Anderson fez o terceiro. Eu empatei. Anderson fez o quarto, o puto
estava na bica para ganhar o campeonato. Então eu me concentrei e
fiz duas búricas seguidas.
Marlene
correu e me abraçou. Anderson ficou jururu num canto, parecia até
que tinha ficado corcunda.
Comi
Marlene naquela noite. Ela morava com a avó, uma velha coroca surda.
Quando
cheguei em casa, pela manhã, encontrei minha mãe chorando. Meu pai
havia sido preso. Esqueci de dizer que o meu pai vendia maconha nos
trens da Central. E que eu tenho dois irmãos pequenos, um de seis
anos e outro de oito.
Fui
procurar o seu Eleutério, o cara que fornecia a maconha ao meu pai.
Disse a ele que enquanto o velho estivesse em cana eu ia vender a
erva no lugar dele.
“Quantos
anos você tem?”
“Dezoito.”
“Dezoito?”
“Quer
dizer, vou fazer.”
Mentira,
eu tinha 13 anos, mas era um moleque grande.
Seu
Eleutério passou a me fornecer a erva. Ela era batizada, mas maconha
pura é difícil de encontrar.
Quando
o meu pai saiu do xadrez eu continuei ajudando nos trens da Central.
A
bola de gude foi pro brejo, eu não tenho tempo para jogar. Mas estou
ganhando uma graninha boa, e posso dar presentes para a Marlene.
Rubem
Fonseca, in Histórias curtas
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