O menino educado
Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta
Explicação de Miguel de José de João
absurdo, ele é o homem mais triste do mundo, seu
espinho é o mais fundo e tudo é prenúncio da morte,
de seu triunfo. Uma palavra antiga, lembra: infortúnio.
Entre ele, pensa, e tudo em volta haverá para sempre
um muro e depois do muro o que houver há de ser
fútil; onde está é o certo, no escuro. Uma lembrança
flutua sobre o tumulto. Talvez nem seja exatamente
pensamento o que pensa se o que pensa, parado,
não vasculha coisa alguma que não o próprio soluço
e toda perspectiva, num instante, coagula-se. Ter vivido,
pesa, não foi senão preâmbulo de sua condição viúva.
Convulsa, jejua, recapitula, murcha; perscruta
as variações mínimas do vazio, quando uns pontos
claros que se desenham sobre o fundo de seu luto
parecem vagos turvos como o passado vistos
dali, do seu pensamento, que sobre a dor e doer
se debruça. O mundo é um espinho absurdo,
cada coisa. Quer morrer; por um minuto, não
pensa.
Eucanaã Ferraz
Maja Thurup
Charles Bukowski, in Ao sul de lugar nenhum
Epígrafes
Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou
30/10/2020
Salvo Se
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis
Abafar
Alberto Villas, in Pequeno dicionário brasileiro da língua morta
Morte do compositor
Era uma cidade antiga e pequena onde havia as coisas que todas as cidades antigas e pequenas tinham: casas brancas de taipa, janelas e portas de madeira grossa, galinhas e cabras andando pelas ruas, os fogões de lenha acesos o dia inteiro, café com queijo e biscoito de polvilho pelo meio da tarde e cadeiras de vime na calçada ao cair da tarde. E havia também uma banda de música que era a alegria da molecada quando passava e fazia retretas no coreto nas noites de domingo. Vivia também nessa cidade um músico compositor que alimentava a banda com as suas composições. Relata-se que suas composições tiveram um destino inglório. Morto o maestro e não sabendo que destino dar-lhes, a família decidiu deixá-las guardadas no porão. Aconteceu, entretanto, que por descuido de alguém a porta do porão ficou aberta. Um cabrito, passando por ali e vendo a porta aberta, resolveu entrar para ver o que havia dentro do porão. Qual não foi a sua surpresa quando se viu diante daquela refeição deliciosa formada pelas partituras do compositor, que ele devorou inteiras. Conta-se que esse mesmo compositor estava na cama, vivendo seus últimos momentos de vida, toda a família reunida ao seu redor esperando suas últimas palavras e o desfecho. Nesse momento, a banda veio marchando e tocando pela rua do maestro. Foi então que ele, quando a banda passou defronte a sua casa, sofreu um estremeção, seu rosto se contorceu aflito e ele fez menção de que desejava falar. Todos se aproximaram, levantaram-no do travesseiro para que falasse com mais facilidade. E foi isto que ele falou: ”A clarineta desafinou o si bemol...”. E morreu.
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba
A boa sorte de Babette
Karen Blixen, in A festa de Babette
29/10/2020
Alquimia e farmácia
Mamede Mustafa Jarouche, in Histórias para ler sem pressa
Azul sobre amarelo, maravilha e roxo
um caminho de areia margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
Desejo, como uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
Brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo.
Na alma, o querer de um mundo tão pequeno,
como o que tem nas mãos o Menino Jesus de Praga.
Adélia Prado
Claro e lógico
Enquanto a autoridade inspirar temor reverencial, a confusão e o absurdo irão consolidar as tendências conservadoras da sociedade. Primeiramente, porque o pensamento claro e lógico conduz à acumulação de conhecimentos (cujo melhor exemplo é fornecido pelo progresso das ciências naturais), e o avanço do conhecimento cedo ou tarde solapa a ordem tradicional. Pensamento confuso, por outro lado, leva a lugar nenhum e pode ser tolerado indefinidamente sem produzir nenhum impacto no mundo.
Stanislav Andreski, in Social Sciences as Sorcery
Finalmente, era um tropeiro
R. Tavares, in Andarilhos
28/10/2020
Ao linotipista
Clarice Lispector, in Todas as crônicas
Uma paixão não correspondida (trecho inicial)
Mario Vargas Llosa, in A orgia perpétua: Flaubert e Madame Bovary
Nossos gostos
Prólogo de Dernières chansons, de Louis Bouilhet
Por uma vida menos gourmet
Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso
Exemplos
Quando desejares deleitar-te a ti mesmo, pensa nas boas qualidades dos que convivem contigo; por exemplo, a atividade de um, a modéstia de outro, a liberalidade de outro e outras qualidades de outros. Pois nada deleita mais que os exemplos das virtudes, quando elas se mostram na conduta dos que vivem conosco e se apresentam a nossos olhos no maior número possível. Por isso é preciso tê-las sempre à mão.
Marco Aurélio, in Meditações





